08 de julho de 2026
Geral

Unesp volta a ter pichações de ódio

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

O banheiro é o mesmo e o teor de ódio nas pichações também. Ontem, a Unesp de Bauru voltou a ser alvo de vândalos. Inscrições racistas, homofóbicas e machistas contra seis estudantes do câmpus foram encontradas no início da manhã em uma das cabines do banheiro masculino, localizado próximo ao Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac). 

O JC optou por não mostrar as inscrições pelas palavras ofensivas e de baixo calão e também para não dar mais publicidade às pichações. O caso ocorre meses após dois episódios ocorrerem no mesmo local. Em julho, ofensas racistas contra o professor de jornalismo Juarez Xavier foram pichadas nas paredes e, em agosto, duas suásticas nazistas estragaram propagandas contra o racismo no câmpus.

A Unesp repudiou o ato de ontem por meio de nota enviada por sua assessoria de imprensa. O departamento em questão solicitou a preservação do local para investigações, portanto, o banheiro foi lacrado. Uma representante das alunas ofendidas informou que o grupo iria registrar boletim de ocorrência (BO) sobre o fato.

Em virtude do ocorrido, o Departamento de Comunicação da Faac convocou uma reunião para hoje às 14h30, com professores, coletivos e funcionários do câmpus, para discutir o problema.

“Não vamos tolerar o ato. Nessa discussão, listaremos algumas solicitações que iremos encaminhar para a direção”, informa a chefe de departamento Maria Eugênia Porem.

Ofensas
As inscrições “fedida”, “preta fedida” e outras palavras ofensivas citando o órgão genital feminino e o excretor estavam escritas na frente do nome, sobrenome e do apelido de seis estudantes do 3.º e 4.º ano de Comunicação Social da unidade, com canetões vermelho, azul e preto, na divisória das cabines do banheiro.

As inscrições foram encontradas durante a manhã por alunos da unidade, que comunicaram funcionários sobre as pichações. Há possibilidade de o fato ter ocorrido entre a noite de sexta-feira e o final de semana.

GRUPO ESPECÍFICO
Todas as alunas ofendidas integram o chamado “Coletivo Abre Alas”, um grupo da Unesp que existe há dois anos e que realiza ações contra o machismo e a LGBTfobia dentro e fora do câmpus. 

Thamires Motta, 21 anos, representante do coletivo é uma das vítimas. “É inaceitável isso acontecendo dentro de uma universidade. Desde que o coletivo surgiu, temos enfrentado problemas, atos explícitos de intolerância”, lamenta a estudante. 

Ela e as outras cinco alunas participarão da assembleia convocada pelo departamento de Comunicação Social da Faac.“Vamos registrar boletim de ocorrência pela injúria sofrida e lutar para que haja punição”, frisa a estudante.

Posicionamento
Em nota, a universidade diz ainda que considerou as pichações “um ato contra o Estado Democrático de Direito”. A Unesp também afirma que, recentemente, criou um grupo de prevenção de violência que atua na conscientização da comunidade e no fomento aos direitos humanos e que esses tipos de atos passaram a fomentar reflexões. 

“A Unesp repudia qualquer tipo de pichação racista, homofóbica e machista feita em banheiro na sua Unidade em Bauru”, afirma.

Como procedimento adotado nesses casos, a Unesp diz que, após o devido registro fotográfico para o processo averiguatório, os dizeres são apagados.

O Departamento de Comunicação da universidade, no entanto, optou pela preservação do banheiro em questão, para colaborar com as investigações.

 

‘Espero que, desta vez, consigam alguma pista do autor ou autores’

Na última semana, a Comissão de Averiguação Preliminar, montada pela Faac para apurar as pichações racistas ocorridas em julho contra o professor Juarez Xavier, divulgou o relatório final do processo investigatório interno realizado. O caso terminou sem a identificação do autor da violência e com um pedido público de desculpas da universidade ao professor. A repercussão do caso, no entanto, gerou uma reação em várias unidades da Unesp. Alunos vítimas de discriminações racistas ou de outras naturezas passaram a registrar BO.

“Espero que, desta vez, consigam alguma pista do autor ou autores. Temos que ter a mesma energia na denúncia e apuração dos crimes de ódio. Essas ações ofendem nossa consciência política e social. É nossa responsabilidade combater essas práticas hediondas, que ferem o espaço democrático e republicano da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho”, comentou o professor Juarez sobre o fato.

 

É crime

O que ocorre se descobrirem quem fez isso? Se identificado, o autor ou autores podem responder pelo crime de injúria racial e dano qualificado ao patrimônio público, previstos pelo Código Penal, e que preveem punição de 6 meses a 3 anos de reclusão, e 1 a 3 anos de detenção, respectivamente.

Preconceito descarga abaixo...

Vítor Oshiro

O banheiro é o lugar onde ‘deixamos’ nossos excrementos. As fezes (do latim “faeces”, que significa “resíduos”) são o material restante da nossa digestão. As fezes fedem, tem aparência nojenta e tratamos logo de dar descarga para mandá-las embora água abaixo.
Na Unesp de Bauru, há coisas mais nojentas do que fezes sendo deixadas no banheiro.

Primeiro, foram ofensas racistas. Agora, ofensas racistas, machistas e homofóbicas. Amanhã, serão xenofóbicas. E por aí vai... com todo e qualquer preconceito boçal. 

De mais um triste episódio, que fiquemos com a reflexão positiva. Hoje, tais “excrementos” precisam ser deixados de forma covarde e oculta no banheiro. Cada vez mais, tais pensamentos fétidos estão perdendo espaço e precisam de meios sorrateiros para tentar ganhar voz. Mas não vão ganhar voz. Sempre que algo assim ocorre, são as lutas sociais que ganham força. Quando um preconceituoso invisível desfere seu ódio, os agentes de transformação, dando suas caras, assumem o protagonismo. Por sorte, a descarga tem levado a imbecilidade por água abaixo.