Nada deveria ir além do acabado. O que terminou deveria ser página virada, nada mais. Não obstante, contrariando lógica elementar, muitas vezes continuamos presos ao que um dia foi, ao que não queremos ou não nos serve mais. Nenhum sentido existe em se algemar ao que excedeu prazo e validade. Finda a estrada, burra é a insistência dos pés em nela se manter ou, pior, querer nela ainda caminhar.
Por que o medo de mudar? Medo do desconhecido? Medo dos olhos alheios, sempre prontos a nos sentenciar? Ou seria a cômoda segurança da ração mínima?
A liberdade sempre foi mais poesia do que atitude. Mais esteve na boca do que nas ações. Muito mais pregada para os ouvidos, pouco para os olhos. Até à publicidade submeteu-se, definindo-se, mentirosamente, como uma calça velha, azul e desbotada. A liberdade gosta mesmo é de ser palavra, fazer morada em discursos. No verbo, somos todos livres. Poucos, contudo, fizeram dela instrumento de emancipação, assumindo corajosamente a urgência da mudança.
Quantas casamentos acabaram, mas insistem em continuar? Quantos, odiando o que fazem, fazendo continuam? Quantos, sabendo que dobraram a esquina errada, nada desdobram e mantêm o rumo equivocado? Perverso medo ou comodismo perverso?
Chutar o balde é preciso, diz o comum dos homens. Mas, então, entra em cena a famosa conjunção “se” e tudo se complica. E “se” tudo der errado? E “se” eu não conseguir? E “se” eu perder tudo? Eis o “se” imobilizador. Paralisados pelo medo e frustrados pela mesmice tediosa, assim ficamos nós, porque sempre haverá um ”se”.
Que tal aproveitar a mesma conjunção para inverter a bola e o jogo. Diríamos, então, que “se” não nos arriscarmos, nada mudará, nenhum passo será dado, a prisão continuará.
Claro que o sentimento de alguma segurança é fundamental. Rubem Alves, com bons exemplos, disso nos alertou. O alpinista sabe da necessidade de testar cordas e ganchos antes de enfrentar o penhasco. O navegador, da importância de avaliar a integridade do barco antes desafiar o mar. O paraquedista, antes de se jogar no vazio do espaço, sabe que precisa examinar o equipamento. São cautelas necessárias. Mas deixar de mudar, deixar de sonhar e de dar a si nova e justa chance de viver, isso é morrer em vida. É cimentar os pés para, apenas, vegetar.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABLetras