08 de julho de 2026
Articulistas

Se...

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Nada deveria ir além do acabado.  O que terminou deveria ser página virada, nada mais. Não obstante, contrariando lógica elementar, muitas vezes continuamos presos ao que um dia foi, ao que não  queremos  ou não nos serve mais. Nenhum sentido existe em se algemar  ao que  excedeu   prazo e  validade. Finda a estrada, burra é a  insistência dos pés  em nela se manter ou,  pior,    querer nela ainda caminhar. 

Por que o medo de mudar?  Medo do desconhecido? Medo dos olhos alheios, sempre prontos a nos sentenciar? Ou seria a cômoda segurança da ração mínima?  

A liberdade sempre foi  mais poesia do que atitude.  Mais esteve na boca do que nas ações. Muito mais pregada para os ouvidos, pouco para os olhos. Até à publicidade submeteu-se, definindo-se, mentirosamente,  como uma  calça velha, azul e  desbotada. A liberdade gosta mesmo é de ser palavra, fazer morada em discursos. No verbo, somos todos livres. Poucos, contudo, fizeram dela instrumento de emancipação, assumindo corajosamente a urgência da mudança.

Quantas casamentos acabaram, mas  insistem em continuar? Quantos, odiando o que fazem, fazendo continuam?  Quantos, sabendo que  dobraram a esquina errada, nada desdobram e mantêm o rumo equivocado?  Perverso medo ou comodismo perverso?

 Chutar o balde é preciso, diz o comum dos homens. Mas, então, entra em cena a famosa conjunção “se” e tudo se complica.   E “se”  tudo der errado? E “se” eu não conseguir? E “se” eu perder tudo? Eis  o “se” imobilizador. Paralisados pelo medo e frustrados pela mesmice tediosa, assim ficamos nós, porque  sempre haverá um  ”se”.

Que tal aproveitar a mesma conjunção para  inverter a bola e o jogo. Diríamos, então, que “se” não  nos arriscarmos, nada mudará, nenhum passo será dado, a prisão  continuará.

Claro que o sentimento de alguma segurança é fundamental. Rubem Alves, com bons exemplos,  disso nos alertou.  O alpinista  sabe da necessidade de testar  cordas e ganchos antes de enfrentar o penhasco. O navegador,   da importância de avaliar a integridade do barco antes desafiar o mar. O paraquedista, antes de se jogar no vazio do espaço, sabe que precisa  examinar  o equipamento. São cautelas necessárias. Mas  deixar de mudar,  deixar de sonhar e de dar a si nova e justa chance de viver, isso é morrer em vida. É cimentar os pés para, apenas,   vegetar. 

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABLetras