09 de julho de 2026
Articulistas

Ou vai ou racha

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

“O Brasil declara guerra a si próprio” – este era o título do editorial da Bloomberg, uma das “bíblias” do mercado financeiro mundial. Lá fora ninguém entende porque este país, diante de uma recessão econômica grave, perde tempo com impasses entre agentes políticos mesquinhos, quando deveria promover um rigoroso ajuste fiscal. Por isso mesmo, o início da formalização do pedido de destituição contra a presidente Dilma Rousseff foi recebido com euforia pelo mercado. A Bolsa fechou com a maior subida registrada em um mês, e o real alcançou a maior valorização face ao dólar em quatro semanas. Engana-se, no entanto, quem pensa que o mercado celebra o possível afastamento da presidente. Investidores e economistas concordam que o otimismo se deve à perspectiva de que o processo de impeachment, qualquer que seja o seu desfecho, poderá pôr fim ao impasse político em que o Brasil se encontra mergulhado desde o início do segundo mandato de Dilma.

O empreendedor quer simplesmente que alguma coisa aconteça para, enfim, acabar com a crise política, que alimenta a crise econômica e paralisa o Governo. Segundo a revista The Economist, o pedido de impeachment aumenta as possibilidades de sobrevivência de Dilma, e não o contrário. O presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, decidiu acionar o processo motivado por vingança pessoal. Disso ninguém tem dúvidas. E se o partido de Dilma, o PT, se tem demonstrado dividido na sua relação com o governo, diante do perigo de perdê-lo começa a se reunificar em defesa da presidente. Virou uma briga entre a governante honesta contra o deputado ladrão com conta na Suíça. O bem contra o mal. Se Dilma “pedalou”, foi para o bem dos pobres. Um maniqueísmo sedutor - a coração valente contra a injustiça perpetrada por um crápula. O slogan do “golpismo” pegou. O povo reage. Dilma já conta com maioria parlamentar confortável para afundar o processo da sua destituição. A presidente precisa de 172 votos dos deputados e tem pelo menos 258, segundo pesquisa de O Globo. O consenso entre os economistas é que o processo não deve durar muito tempo. O líder da bancada do PT Sibá Machado declarou que, se depender do seu partido, não haverá folga, “não terá Natal, não terá Ano Novo, até resolver a questão”. Ótimo. O Brasil tem pressa. A incerteza só serve para aprofundar a recessão. O ano acaba pior do que começou e um sombrio 2016 nos aguarda. Precisamos cuidar logo do segundo semestre de 2017, antes que o tempo se esgote.

Em resumo, existem duas saídas para o processo de impeachment e qualquer delas agradaria aos mercados: a saída de Dilma e sua substituição por Michel Temer, prevista na Constituição, que há cerca de um mês apresentou o seu próprio plano de reformas econômicas, uma espécie de pacto nacional contra a crise; ou a sobrevivência de Dilma Rousseff, com um mandato reforçado por novas alianças políticas. O fisiologismo sempre prevalece.

O problema da presidente passa a ser o PMDB. O ministro Eliseu Padilha da Aviação Civil, pediu demissão. O partido começa a desembarcar do Governo. O vice-presidente Michel Temer está quieto, como o urubu no galho seco à espera da morte da presa. O PMDB é um partido único no mundo: tem mais filiados do que qualquer outro, mais diretórios regionais, maior número de governadores e prefeitos e é majoritário no Congresso. Desde 1994, com Quércia, não lança candidato próprio à Presidência. Serviu de pano de fundo para FHC, Lula e agora, para Dilma. O partido vive do clientelismo. Nenhum governo pode gerir o país sem seu apoio. A barganha de cargos e de verbas públicas é a sua forma de fazer política. Os correspondentes dos jornais estrangeiros sempre tentam explicar para os seus leitores esse presidencialismo de coalizão. Presidente e Congresso na dependência, um do outro. Os interesses do país que se danem. O Brasil não é para amadores.

Como dizia outro dia um haitiano, “muita confusón”. Veio apenas em busca da possibilidade de sobreviver em paz. Agora, centenas de imigrantes voltam para o Haiti, destruído pelo terremoto. Lá pelo menos, a força dos elementos naturais ainda pode ser prevista como possível a qualquer tempo, face aos desígnios divinos. Lá, a terra treme e provoca o caos. Aqui, nós produzimos o próprio cataclismo.

O autor é jornalista e articulista do JC