09 de julho de 2026
Geral

O quimono "imobiliza" o computador

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

O empresário Cristiano Catalá acorda com ânimo para ir à academia diariamente, mas nem sempre foi assim. Adepto da atividade física desde a adolescência, o então menino ganhou massa muscular em pouco tempo e, na mesma proporção, viu crescer seu desejo de fazer algo, no futuro, que tivesse relação com a atividade física.

Ao final do colegial, entretanto, ele ingressou na faculdade, em São Paulo, na área de informática, incentivado pela mãe. Catalá demonstrou, ao longo do curso superior, bom rendimento em cálculo e operações binárias, como se diz na linguagem do mundo da informatização. Mas sua energia sempre apontou para outro horizonte pessoal.

Em seu íntimo, o jovem viu intensificar seu gosto pelo esporte, em especial lutas em tatames. Foi um salto para que o então jovem, antes franzino, ganhasse estrutura física e técnica a partir do jiu-jítsu. O quimono passou a ser “roupa diária do corpo”, conta o atual empresário.

Já em Bauru, Cristiano Catalá decidiu, de vez, abandonar o notebook e abraçar o quimono e passou a dar aulas de jiu-jítsu. Ele permaneceu alguns anos como professor. “A pressão que o jovem enfrenta na hora de decidir é enorme. Eu sempre gostei do que faço, de luta, do tatame, da preparação física. Mas como ia bem em informática, a área aparecia como de melhor horizonte aos olhos dos pais. Isso é compreensível, natural…Mas minha paixão estava em jogo. E na hora de decidir não tive dúvida, fui para o tatame”, conta.

Depois de percorrer competições, como atleta, em campeonatos de jiu-jítsu, em um período em que a mistura de artes marciais (MMA) não tinha a mesma visibilidade que atualmente, Catalá assumiu a vida empresarial à frente de uma academia, a Fight House, instalada na quadra 16 da avenida Duque de Caxias

“O negócio se consolidou em razão do projeto, que une a estrutura de academia com aulas para homens e mulheres em artes marciais, mas o que fez a diferença é minha escolha: faço o que gosto e estou na área que sempre quis estar. Na hora de escolher uma profissão é preciso que o jovem pesquise, busque orientação, se informe sobre a rotina e as atribuições profissionais da área em que parece ser a sua. Mas que este jovem não deixe de ouvir seu coração, o que gosta de fazer”, sugere.      


O jovem precisa falar e ser ouvido

Sem prejuízo de todos os elementos paralelos e intercorrentes que norteiam a decisão para o jovem entre vocação e profissão, a psicóloga Marilene Krom, doutora e especialista em comportamento humano, sugere que os jovens tenham oportunidade de se expressar, serem ouvidos pelos pais.

A psicóloga aponta  na direção da mudança do conceito de experiência no mercado mudou em razão da nova realidade de mercado. “Os pais têm de estar atentos para o momento em que se está vivendo e considerar na essência os dons que o filho apresenta, muitos deles sendo apresentados naturalmente pelas pessoas. E isso é amplo, mas dá para triar questões. Existem pessoas que gostam de lidar com outras, existem pessoas que gostam de ficar mais reclusas, outras gostam de desenhar, outras de cálculo, outras querem trabalhar com máquinas. É preciso ampliar o leque de informações, escutar muito o jovem e não só falar e observar essas características”, insiste. “O jovem precisa muito falar, se sentir aceito e os pais precisam ouvir muito nesta fase de indefinição. Ouvir e partilhar dúvidas é um bom começo”.    

 Ela lembra que os adolescentes vivem a angústia da escolha da profissão, em uma fase da vida em que a imaturidade e a definição pela matrícula no vestibular geram enorme pressão, sem contar a pressão vinda de pais que ”escolhem” pelos filhos profissões que nem sempre são as vocações ou gostos que afloram nos jovens ou que, em outro prisma, são a carreira que o pai ou mãe quis fazer e não conseguiu. “É muito comum que os pais tentem influenciar na escolha da profissão dos filhos, ou na direção do que acham melhor naquele momento ou até na direção de uma escolha que eles pais gostariam de ter feito. E essa projeção de expectativa em relação ao filho e que sem dúvida alguma seria uma expectativa dos pais, tem de ser cuidada. Mas é possível que os pais colaborem, mas sem querer decidir pelo outro”, ratifica a psicóloga, doutora em psicologia, Marilene Krom.

Ela aconselha que os pais permitam “espaço” para que o filho tome iniciativa na busca de informações. “Colaborar sim, orientando nas informações sobre, mas deixando também espaço para que o jovem tome iniciativa em procurar informações sobre o que gosta”, diz.


Dúvida comum

Amanda Anjos conta que já teve muita dúvida, no início da adolescência, sobre qual carreira seguir. “Achava que não iria conseguir fazer veterinária, que é meu sonho. Então eu ficava em dúvida entre fazer psicologia ou biologia. Passei a pesquisar e, em alguns vídeos que assisti, verifiquei que acho que vou me identificar com veterinária”, conta. A indefinição na cabeça de Amanda é comum a muitos jovens.  Na fase de amadurecimento, há outro obstáculo, por vezes, oculto: o jovem não saber diferenciar entre coisas que gosta e que tem vocação.  Assim, gostar de animais é diferente de gostar da carreira, da rotina e das atribuições de um veterinário, por exemplo.

“Gosto muito de ajudar sempre. E meu sonho desde criança é ser veterinária. Mas houve um momento da minha vida que achei que não conseguiria fazer veterinária e, nesse período, passei a ter amigos que se formaram em psicologia. Então comecei a admirar a profissão. Então passei a defender que ao invés de cuidar de animais então eu poderia ajudar as pessoas”, aborda.  Aqui entrou outro elemento que pode ajudar  na escolha de muitos jovens. Amanda acompanhou a mãe, desde criança, em visitas a hospitais, creches, casa de idosos. “Essas visitas com minha mãe me ajudaram agora, a perceber que me sinto bem e envolvida quando ajudo pessoas e creio que tenho muita paciência em ouvir o problema dos outros e tentar ajudar. Nessa hora, perto dos 17 anos, é que entrou a ideia de fazer psicologia”, explica.

Mas, a vida não se escreve com o concreto. A jovem conta que, em certa ocasião, alguém “especial” lhe fez ponderar para o encontro com seu sonho. “Uma pessoa especial para mim me fez olhar para mim, para o que eu sinto e ver o que me fazia mais feliz e ver que isso significa tentar veterinária. Acho que é o que vai me fazer feliz mesmo”, pontua.

A relação romântica que habita o imaginário do jovem, sobretudo na primeira e segunda infância, também pode interferir no processo de escola. Amanda Anjos revela, por exemplo, que brincava desde criança em “ser veterinária”. “Mas até que eu tive que auxiliar uma amiga veterinária a sacrificar um animnal e eu tinha 14 anos. E isso me fez desistir, na época. Sofri muito. Hoje entendo que não estava preparada para entender essas atribuições da profissão. O amadurecimento, o tempo, me fizeram reavaliar isso e a reconhecer o gosto pela veterinária”, fala.

Enquanto isso, Amanda já cursou um ano de administração. E  não gostou. “Aquilo não fez sentido para mim. Quero ajudar pessoas, lidar com as dificuldades humanas delas, ver onde dói, o que sentem, prestar socorro. Acho que vou ser feliz assim. Ai pensei em psicologia, que tem algumas dessas coisas, mas ainda não acho que seria o que eu amo”, finaliza.


Espontaneidade

Mas como levar em conta a sensação de busca de felicidade que desabrocha no jovem, a partir da manifestação de sua vocação espontânea?

Krom lembra que, em geral, a necessidade de escolha se dá no mesmo momento em que este jovem está apressado em viver ou resolver outras questões existenciais e, até por isso, não está preparado para a escolha e nem para deixar desabrochar um talento ou vocação nata. E nesse instante tudo se soma e fica uma situação angustiante para esse jovem.

“O que eu digo para esses pais é que fiquem atentos a esta fase e se perceberem que o filho está angustiado não queiram resolver tudo no primeiro vestibular. Se houver essa indefinição é mais prudente esperar o próximo ano para que a indefinição seja resolvida nesse tempo, até para que o tempo possa amadurecer um pouco mais a situação”, orienta.

Outros aspectos devem ser levados em conta, acrescenta Krom. “Levar em conta que as coisas não são exatamente como a gente quer, mas como elas acontecem no momento e nesse sentido é preciso que os pais e os filhos se atentem para a possibilidade de deixar um pouco o tempo seguir para que isso seja discutido, amadurecido para o ano seguinte”, elabora