10 de julho de 2026
Articulistas

Um salto no escuro

Maria da Glória De Rosa
| Tempo de leitura: 3 min

Abrem-se as cortinas para mais um espetáculo. O cenário e a plateia são os mesmos: lá na frente os protagonistas de sempre – os políticos nacionais, e, sentados, cada um em sua poltrona, o povo brasileiro heterogêneo – brancos, negros, ricos, pobres, alfabetizados, analfabetos, inteligentes, broncos, interessados, amorfos etc. Atenção para o enredo de hoje: “Um salto no escuro” que trata do tema de políticos da situação querendo comprar o silêncio de companheiros envolvidos em escândalo nacional. No desenrolar da peça, percebe-se que a estratégia, mal escolhida, verdadeiro pulo num precipício (daí a escolha do tema), foi gravada num aparelhinho aparentemente inofensivo, deixando um rastilho de pólvora que levará a um final ainda desconhecido.

“Idiota”, teria assacado um dos protagonistas da peça, dirigindo o insulto ao mentor da brilhante ideia de pôr as cartas na mesa e deixar-se aprisionar pelas próprias palavras. Evidentemente, nem todos da plateia estão aptos a compreender significado de “idiota”, talvez nem mesmo quem a pronunciou. E como a plateia é heterogênea, vale explicar, então, que a raiz do termo idiota é o grego idios (próprio, privado) ou idiotes (pessoa privada), como explica Eduardo Giannetti; o idiota é, pois, a pessoa completamente absorvida pelos seus interesses particulares. Daí se perceber que o xingamento cabe dentro do texto como uma luva.

A partir daí, começa a desenrolar-se um espetáculo cheio de aclives e declives, de sobe-e-desce, onde cada participante procura razões para aparecer aos olhos do espectador como herói, como salvaguarda da pátria. Então vem a público um catecismo de estereótipos, de abstrações, de fórmulas – “questão humanitária”, “constrangimento e perplexidade”, “grande burrada”, “preso sereno”, “coisa imbecil”– utilizado como curingas para explicar e defender as coisas mais contraditórias. Enquanto isso, assistindo ao espetáculo, em meio a plateia com gente de todo tipo, desde as mais incompetentes nulidades até as pessoas apáticas que não se entusiasmam nunca nem por nada nem por ninguém,  nota-se   uma espécie de desespero de alguns inconformados com o caradurismo e a anorexia intelectual dos personagens da peça  inventando as mais patéticas razões para justificar aquele torvelinho que joga a ética no cestão dos detritos nacionais.

Parece que a ninguém aquele espetáculo interessa muito, acostumados que estão todos com velhacarias, imposturas e remendos que, na verdade, não remendam nada, só fazem por esgarçar ainda mais o pano. Mas, se os espectadores saíssem da letargia, abrissem os olhos e tomassem consciência da situação, possivelmente cairiam na real diante desse espetáculo de terror em que a grande maioria dos participantes da peça acabará indo para o xilindró, abrigados em carrões bem polidos e cercados de guarda-costas. Verdadeiro teatro do absurdo em que todos os personagens sabem muito mais do que supõe nossa vã filosofia. Sabem tanto que poderão conspurcar não só o seu partido, como o governo do ex-presidente e da presidente em exercício.

Quem pensou fosse ver um espetáculo sobre economia passou a assistir uma peça policial, tipo Agatha Christie, e que está virando filme macabro onde há lugar, possivelmente, até para o uso de expedientes e trejeitos que beiram à Camorra. Só Shakespeare poderá prever um “gran finale” para tão eloquente desempenho! Tudo indica que as arremetidas senatoriais e bancárias poderiam ter dado certo, se os planos canhestros não tivessem caído na esparrela; se aquele famigerado microfonezinho tivesse falhado, nenhuma prisão teria sido efetuada e ninguém saberia de nada, como já deve ter acontecido uma centena de vezes na história deste país... Já imaginou quantas trapalhadas semelhantes têm ocorrido sob nossos narizes e caíram na vala da ignorância? Como escreveu Mario Vargas Llosa, “a democratização do conjunto da sociedade é muito mais lenta; leva muito tempo para sindicatos, partidos políticos, administração e empresas começarem a funcionar como se espera que funcionem num Estado de direito”. Se cutucarmos os ouvintes com uma vara curta, será que dará certo? Acorda, plateia!

A autora é professora doutora aposentada da Unesp