08 de julho de 2026
Articulistas

O debate do ódio

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Riqueza maior não há do que sermos diferentes. João é único, não obstante existam tantos joões. Diga-se o mesmo de Maria e da digital do dedo de Maria, ainda que sejam muitas as marias e não menos os dedos. A vida nos esculpiu assim, diferentes. Somos únicos, singulares, sapato de um único pé. Essa a nossa maior riqueza, a diferença. Por isso, ouvir o outro é valiosa oportunidade de enriquecimento. Ele viveu o que não vivemos. Caminhou por onde não caminhamos. Sofreu o que não sofremos. Sabe o que não sabemos. O outro é a única saída se quisermos sair de  nós mesmos.  Só ele nos dá a oportunidade  de ampliar a  visão de mundo para melhor compreender a vida. Ouvindo-o aprendemos, evoluímos, nossos olhos deixam de ler apenas o vaidoso umbigo.

 

Riqueza maior não há do que sermos  diferentes. Riqueza maior não há do que ouvir a experiência alheia. Daí, a essencialidade do diálogo fraterno. Daí, a necessidade do  bom debate. Debater, contudo, não é derrubar as ideias do outro no prazer mesquinho de jogá-lo ao chão. Ao contrário, é  troca justa, dar e receber, ensinar e aprender. De cada debate, deveríamos sair mais ricos espiritual e intelectualmente, mais humanizados.

Na maioria das vezes, não é o que acontece. Pequenos saímos, quando a meta é apenas ridicularizar e humilhar o outro, feito, então,  nosso adversário. Antes, troca vantajosa de ideias,  o debate passa a ser mera troca de ofensas. Nesse bate-boca do ódio, não há vencedor. A virulência das palavras faz muito mal tanto a quem as cospe, como a quem  tem a face cuspida.

 

Como tudo na vida, o bom debate também é coisa que se aprenda. Basta que exercitemos a capacidade de ouvir as razões do outro. Para tanto, precisamos nos esvaziar das nossas imensas certezas. Necessário que haja espaço não contaminado em cada um de nós. Foi o que disse Alberto Caeiro: “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma”. Em tempos de “impeachment”, quanto barulho, quanta surdez, quantos muros, quantas certezas, quantos adjetivos, quantas ofensas, quantas cusparadas na alma de cada um de nós.

 

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras