| Divulgação |
| Pedro D’Incao, Ulisses Andres e o Saulo Katz coletaram as amostras em Minas Gerais |
| Fotos: Alex Mita |
| Professor Pedro D’Incao mostra a água coletada |
| Ana Paula Freitas e Taísa Katz na análise |
Um “mundo” tomado pela cor vermelha. Essa é a impressão de quatro professores do D’Incao Instituto de Ensino, em Bauru, que viajaram, na semana passada, junto a um engenheiro agrônomo, para a região de Mariana, em Minas Gerais, onde uma barragem de rejeitos da mineradora Samarco rompeu-se, há pouco mais de um mês, deixando o distrito de Bento Rodrigues alagado. Os profissionais estão analisando amostras de água e solo que coletaram no local.
Segundo o professor de física Pedro D’Incao, que viajou com as docentes de biologia Taísa Katz e Ana Paula Freitas, bem como o professor de física Ulisses Andreis e o engenheiro agrônomo Saulo Katz, o primeiro ponto a ser visitado pelo grupo foi justamente Bento Rodrigues, pertencente à Mariana. “Pensamos que teríamos dificuldades para acessar o local, mas estava completamente abandonado”, descreve.
Já o professor Ulisses acrescenta que a região se transformou em um triste ponto turístico. “O poder público não estava atuando e qualquer curioso conseguia se aproximar”, narra. Além disso, a professora Taísa Katz revela que o espaço se assemelhava a uma zona de guerra. “Pela televisão, só víamos que a parte urbana havia sido devastada, mas a área rural estava pior”, conta.
Assim que o grupo chegou ao distrito de Bento Rodrigues, surpreendeu-se diante da grande quantidade de minério de ferro depositada no chão. “Encontramos um riacho, que insiste em passar pelo local, apesar do assoreamento, e coletamos uma amostra de água”, pontua Pedro D’Incao. Inclusive, a cor do líquido se assemelha à chocolate: uma aparência densa e amarronzada.
Análise
Na volta, assistidos por um grupo de 30 alunos em férias, desde o 7.º ano do ensino fundamental até a 3.ª série do médio, os professores deram início à análise da água coletada em Bento Rodrigues. Eles constataram que a quantidade de oxigênio dissolvido girou em torno de 4,5 miligramas por litro (mg/l), sendo que o ideal seria 9. A escassez dessa substância leva à morte dos peixes, que têm dificuldades para respirar.
O grupo também mediu o pH da amostra de água, que resultou em 7, um índice neutro e semelhante ao da água destilada. Contudo, a turbidez do líquido, que está diretamente relacionada à sua qualidade como água doce e potável, não trouxe boas notícias. O resultado, segundo os professores do D’Incao, foi de 17.170 Nephelometric Turbidity Units (NTU), sendo que o da água destilada é 0, superando, inclusive, os índices da parte mais poluída do Rio Batalha.
‘Efeito nuclear’
Os professores de física Pedro D’Incao e Ulisses Andreis também fizeram uma estimativa da energia potencial gravitacional que a lama dos rejeitos da mineradora produziu assim que a barragem rompeu-se. Levando em consideração a massa do volume dos resíduos de minério de ferro, em torno de 63 milhões de metros cúbicos, e o desnível de 900 metros em relação ao mar, a conclusão foi de que a energia equivale a de 13 bombas atômicas que atingiram Hiroshima durante a Segunda Guerra Mundial, em 1945.
Outra coleta
O grupo também visitou a cidade de Rio Doce, que abriga um manancial homônimo. “O Rio Doce nasce da junção dos rios do Carmo e Piranga. Este não havia sido contaminado, mas, quando chegamos ao primeiro, conseguimos ver a destruição”, pontua Pedro D’Incao. Tanto que, por conta do acúmulo de entulho, o grupo não conseguiu se aproximar das margens para coletar água e teve de utilizar um equipamento concedido pela Unesp de Bauru.
Os professores constataram que a quantidade de oxigênio dissolvido girou em torno de 4,8 mg/l, acima da amostra de água de Bento Rodrigues. Já o pH também resultou em 7. Todavia, o índice mais alarmante foi o da turbidez do líquido, que girou em torno de 16.750 NTU, 2,5% a menos do que o resultado da análise da água de Bento Rodrigues.
Impressões
O objetivo da iniciativa do D’Incao Instituto de Ensino é analisar e mostrar aos alunos do colégio, além da comunidade em geral na região de Bauru, o impacto ambiental causado pelo rompimento da barragem da mineradora de Minas Gerais. Diante dos resultados da análise preliminar, os professores constataram que, de fato, o Brasil sofreu o pior desastre ambiental de sua história.
O grupo não viu uma ação efetiva do governo e da Samarco para encontrar o restante dos desaparecidos ou restabelecer a vida nesses locais. Além disso, os profissionais farão outra visita à região de Mariana daqui a seis meses para coletar mais amostras e comparar com as primeiras, verificando se, de fato, houve alguma mudança. Outras análises mais complexas das amostras já coletadas, como a presença de bactérias resistentes, ainda serão feitas.
Porém, a professora de biologia Taísa Katz adianta que o grupo encontrou grande concentração de cianobactérias dentro das amostras. Elas são microrganismos que necessitam de água, luz, dióxido de carbono e substâncias inorgânicas para viver. O problema é que a presença elevada dessas bactérias, provocada pelo aumento de substâncias orgânicas e inorgânicas na bacia do Rio Doce, tem uma relação direta com a baixa qualidade da água.