09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Dois momentos da ação policial

Por Henrique Perazzi de Aquino - jornalista e professor de História (http: |
| Tempo de leitura: 3 min

Policial Militar é mesmo um ser entre a cruz e a espada. Na ponta de lança dos embates é um servidor com os mesmos problemas daqueles pelos quais é pago para combater. A diferença é o cassetete, a arma na mão e a ordem a ser cumprida. Quase todo policial tem filhos nas escolas públicas estaduais. Eles também sentem na pele o mesmo problema dos que resistiram e foram vitoriosos na tal de reestruturação promovida pelo governador Alckmin, mas foram colocados do lado oposto. Bateram, sujaram a farda, se esfalfaram nas ruas e agora o cara lá de cima recuou e tudo o que fizeram é escancaradamente demonstrado como ato cruel.


Sempre sobra para o policial, que nada mais é do que o executor daquilo que alguém lá de cima decidiu e o papel diz que deve ser executado. Não estou aqui para defendê-los, mas é esse o exato papel que lhes cabe dentro da estrutura vigente. O executor de todo tipo de serviço, desde o limpo ou o sujo. Deve ser um horror receber ordens sabidamente descabidas e ter que cumpri-las. Que raio de dever de ofício é esse que os fazem assim mesmo fechar os olhos e descer a lenha? No calor da contenda muitos se tornam muitas vezes, mais realistas que o próprio rei. Mal preparados para esse tipo de enfrentamento, acabam usando de desmedida violência. Daí a execração. Excesso é ruim, sempre e em qualquer atividade.


Sou um duro crítico do papel a eles reservado na História. No Brasil e no mundo quase todo, meros executores de ordens. Na própria formação aprendem muito disso, a defesa do poder constituído acima de tudo, sem questionamentos. Mudar isso só com a mudança da própria mentalidade e função do policial, alterando sua concepção de resolver tudo na base do “é assim e pronto” ou “ordem recebida, ordem cumprida”. Servilismo tem limites, mas quando o próprio comandante é indicado pelo governador, tudo na base do “amiguinho do rei”, nada se pode esperar além do presenciado nas ruas.


Policial é policial, exato reflexo da sociedade em que vive e atua. Se o mundo aqui fora é esculachado, despirocado, como exigir deles a integridade necessária para exercício da função? Impossível. Já mudando de abordagem, vejo também no caso da paparicação sendo feita para o membro da Polícia Federal que, supostamente vende informações privilegiadas para a mídia, o tal do “Japonês Bonzinho” (bonzinho para quem?), nenhum motivo para endeusamento, mas sim, para ser, se comprovado o ilícito, a severa punição. Se de fato ele repassa (ou mesmo revende) dossiês do Lava Jato, feitos sob segredo de Justiça, é tão criminoso como o preso ali sob sua proteção. E se faz isso, como tudo nesse país, com certeza existe mercado para esse tipo de produto. E por que ninguém até agora cobra nada desse receptor?


Enquanto uns insistem em referendar que, os fins justificam os meios, tudo para fazer suas conveniências, funções vão sendo desvirtuadas e cada vez mais esse país toma rumos inaceitáveis. O policial é só a ponta desse imenso iceberg diante de um colossal desajuste do modelo político brasileiro. Revendo hoje um filme, o primeiro momento no cinema falado, com Charles Chaplin em o Pequeno Ditador, aquilo do “Soldado, Uni-vos...” (fácil de ser encontrado no google) seria de incomensurável valor todos eles tomarem conhecimento daquele discurso. Ajudaria a sensibilizar e humanizar mais esses profissionais. Para o bem de todos isso se faz necessário.