11 de julho de 2026
Cultura

20 anos depois, "Chatô" estreia em Bauru

Nayara Reynaud
| Tempo de leitura: 4 min

Divulgação
Marco Ricca vive o empresário Assis Chateaubriand no filme de Guilherme Fontes

Desde o início, grandioso. No decorrer, um escândalo. Durante muito tempo, uma lenda era sua existência. Até agora, fonte de piadas. Ao longo de 20 anos e mais outros que virão, a maior polêmica do meio cinematográfico brasileiro. Mas o fato é que, hoje, “Chatô, o Rei do Brasil” (2015) é uma realidade e, finalmente, apresenta-se ao julgamento público, assim como no delírio televisivo de seu protagonista, o magnata da mídia Assis Chateaubriand (Marco Ricca).

Espécie de “loira do banheiro do cinema nacional”, o projeto foi iniciado em 1995, quando o ator Guilherme Fontes resolveu se arriscar como realizador em uma adaptação cinematográfica do livro homônimo de Fernando Morais. Foram captados R$ 8,6 milhões inicialmente, via leis de incentivo da época. Mas o orçamento esgotou-se antes do fim das gravações e toda uma discussão sobre o mau uso de verbas públicas foi levantada: com o caso ainda em tramitação no Tribunal de Contas da União, o diretor foi acusado na prestação de contas por não entregar o produto final, sendo que todos esses processos em que a produção esteve envolvida por mais de uma década, consequentemente, interromperam sua finalização e levaram à dúvida se realmente existia um filme.

Todo esse contexto envolveu o projeto em uma aura de expectativa e descrédito que levam facilmente a um pré-julgamento da obra que, em si, merece uma análise mais centrada em seus aspectos artísticos do que administrativos. Aqui o foco é no próprio longa, que revela-se uma grata surpresa. Longe da perfeição, “Chatô, o Rei do Brasil” gera tanto impacto quanto certa admiração por arriscar-se. Trata-se da cinebiografia mais ousada do cinema nacional, não apenas em sua estrutura, como também na forma como aborda seu retratado, mais como demônio do que santo, porém, sobretudo como um visionário.

A antropofagia da primeira cena já prenuncia que o filme pretende “devorar” não só a figura de Chateaubriand, em seus feitos, desmandos, amores e desafetos, mas igualmente a imprensa, o próprio Brasil e, por que não, a arte. A alucinação presente no livro é potencializada ao ter os recursos audiovisuais à sua disposição e instituída como assinatura da obra, sendo usada pela direção tanto como base de suas opções estéticas e narrativas quanto como desculpa para possíveis e existentes falhas. Demora alguns minutos até a viagem alucinógena, entrecortada entre o subconsciente do personagem e os principais acontecimentos de sua vida, começar a fazer sentido para o público.

Fica claro que qualquer linha do tempo é dissolvida neste caso para dar lugar a um mosaico de informações e impressões que reconstruam Assis, como pessoa privada e de grande poder na comunicação, empresariado e política brasileiros – e não por imposições dos vários problemas de produção. Só quando se dá conta e se familiariza rapidamente com isso, o espectador se envolve e acompanha o fluxo e exame de consciência do protagonista, conduzido pelo programa de TV que traz o “julgamento do século”, com a presença de sua família, ex-funcionários, como o não tão fictício Carlos Rosenberg (Gabriel Braga Nunes), e até o falecido presidente Getúlio Vargas (Paulo Betti), entre recordações de sua infância, de como criou seu próprio jornal, de sua influência na Revolução de 1930, entre outras coisas.

“Cidadão Kane”

A ideia de um “Cidadão Kane” (1941) à brasileira vai além da semelhança entre dois controversos magnatas da imprensa – lembrando que Kane é inspirado no norte-americano William Randolph Hearst. E, assim como Fernando Morais em seu texto, Guilherme Fontes bebe da obra-prima de Orson Welles, na estrutura de flashbacks e na crítica à mídia como “quarto poder”, em todo o seu poderio de manipulação.

O tom farsesco ajuda a compreender o aparente exagero da interpretação de Marco Ricca, que é condizente com a construção de um personagem voraz em seu apetite sexual e desejos de poder. Se o mesmo não se pode dizer de Paulo Betti, não é apenas pelo estranhamento dos excessos do sotaque e sim por não captar a grandiloquência de Getúlio. De resto, entre atuações aquém do potencial de alguns atores e boas performances, o destaque é para Andréa Beltrão, que, na pele de Vivi Stuart/Sampaio, cria a grande articuladora das ações da trama. Há uma uniformidade visual que não demonstra diferenças entre as duas fases de filmagens, ocorridas entre 1998 e 2004, nem deixam aparente um abismo técnico entre o longa e as produções de agora.

Ritmo alucinado

Por outro lado, esse ziguezague narrativo do roteiro de Fontes, João Emanuel Carneiro, hoje consagrado autor de novelas, como “Avenida Brasil” (2012), e Matthew Robbins, que gera interesse inicial, cansa ao final de seus 102 minutos de duração. O ritmo alucinado prejudica também o aprofundamento de algumas das várias subtramas apontadas pelo caminho, a exemplo das suas ex-mulheres vividas Letícia Sabatella e Leandra Leal.

É óbvio que a amplitude do personagem, dono da rede de jornais Diários Associados, da rádio e da TV Tupi, senador, imortal da Academia Brasileira de Letras e mecenas fundador do Masp, dificulta o desenvolvimento de todas as suas facetas. Contudo, ressente-se por certas lacunas, especialmente, um olhar mais atento ao início da televisão.