11 de julho de 2026
Geral

De Bauru à principal TV da Rússia após divulgação da matéria no JC

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

Malavolta Jr.
Vladimir Poppoff mostra o registro da identidade, de 1934 na Índia; abaixo a reprodução da matéria do JC de julho; clique aqui e veja a matéria completa divulgada, também, no JCNET

Quando o filho de siberianos Vladimir Poppoff, ex-chefe da oficina mecânica da extinta Empresa Circular Cidade de Bauru (ECCB), contou ao JC, em julho passado, a saga da sua família não imaginava que a vida lhe reservaria surpresas. Nascido na Índia, durante o trajeto da fuga dos pais, o morador de Bauru, na Vila Universitária, foi contatado, neste mês, pela principal TV estatal russa para conhecer seu país de origem.

Além da aventura dos genitores - iniciada com a debandada de Malechef Log, na antiga Sibéria dos anos 30, para o Afeganistão, até chegar à Índia e depois para o Brasil em busca de um pedaço de terra para plantar – virar documentário, Poppoff viverá um reencontro.

Admirado, inicialmente, ele tratou com desconfiança o alcance da informação e foi de buscar dados a respeito. Não era trote. O novo relato da trajetória de luta, persevança e extrema dificuldade vivida por seus pais Dimitri e Zinaída (que também morou em Bauru até falecer, em 2009), permitiu que um serviço de busca ligado a um projeto da TVrussa localizasse a reportagem do JC.

Estava, então, estabelecido o primeiro elo na identificação de familiares de sua geração para a promoção de um reencontro. Para a viagem à pátria de seus pais, a TV russa convidou Vladimir e seu irmão Pedro Poppoff, este morador em Londrina (PR). Aliás, foi para Londrina que os imigrantes foram, em 1934, quando o grupo desembarcou do navio Paquebot Florida, oriundo de Marselha, na França. Precisamente, deixaram o navio no porto de Santos e, de lá, seguiram de trem até Três Bocas, vilarejo que em 1935 deu origem à atual Londrina. “Levei um susto e fiquei emocionado quando o telefone tocou e uma tradutora perguntava sobre mim e a matéria do Jornal da Cidade. Fiquei horas ao telefone falando da história da família, contando sobre a fuga de meus pais e como nós nos acomodamos no Brasil”, conta Vladimir Poppoff.

Segundo ele, a tradutora explicou sobre o programa de TV de lá. “Meus pais saíram de lá na década de 30. Então me convidaram para ir a Moscou e rever parentes em razão dessa história contada no JC. Tenho primos lá e outros. Nunca falei ou vi nenhum deles. Em 1969 meu pai enviou uma carta. Tivemos uma resposta também por carta. Nunca mais tivemos notícias. Será uma enorme emoção conhecer parte de minha família e a terra onde nasceram meus pais”.

Pesquisa lá, registro aqui

A viagem dos Poppoff está programada para esta segunda-feira (14). A matéria que redesenhou a trajetória de fuga foi publicada pelo JC em julho. Em março, contou a produção russa através de uma tradutora, o programa do canal de TV Perviy recebeu, via site, uma solicitação formal de procura pelos Poppoff. A produção do programa, que tem 20 anos por lá, passou a buscar informações. O Brasil foi um local natural de busca, pela imigração na década de 30 do grupo em que estava o bauruense Poppoff.

“A matéria saiu em julho e eles localizaram a história no sistema deles. Ai foi um trabalho de identificação, de confirmação de parentesco, até ligarem”, informam. Poppoff viu as histórias contadas pela mãe, Zinaída, registradas em um caderno pela esposa, a professora Therezinha de Carvalho.

O material, batizado pela esposa de “O girassol e o novo mundo”, conta todas as passagens da fuga depois que o czarismo caiu e Stalin tomou o poder, o enfrentamento da geleira ao lado do Himalaia, a travessia pelo canal do rio Amur em negociação com contrabandistas, à época, a prisão no Afeganistão e a intervenção divina de um militar inglês, a fome, a cegueira provocada pela forte incidência do sol nas geleiras e o acolhimento pelos indianos.

“Foram meses de caminhada, muita luta, uma fuga sem sensacionalismo que hoje é cinematográfica para um grupo de russos que saiu sem nada para que Zinaída não fosse presa pelo regime apenas por comer sementes de girassóis. Os ingleses adquriram terras no Brasil, no Norte do Paraná, e o grupo de russos finalmente subiu no navio sem saber pra onde ir, que mundo era esse chamado Brasil, e eu nasci no meio do caminho e construi minha vida neste País maravilhoso, onde constitui família e criei meus filhos com a esposa Therezinha. Agora, 80 anos depois, poderei conhecer a terra de meus pais e conhecer parentes. Um presente de vida”.

Lembrança

Quando Vladimir desembarcou com os pais no Brasil tinha apenas 11 meses. Ele ainda guarda, conforme contou o JC em julho passado, lembranças como um lenço em linho que sua mãe ganhou de sua avó e bordou, além de documentos pessoais e fotos.

Vladimir pesquisou e soube, por meio de uma tradutora representando a TV russa, que, em agosto passado, um parente se inscreveu no site ligado ao canal federal, cujo objetivo é localizar e permitir o reencontro de familiares em todo o mundo. O programa de TV já tem 20 anos no ar e é do canal mais assistido na Rússia.

A TV de Moscou

Divulgação
Os âncoras atuais do programa da TV russa: Alexandr Galibin e Ksenia Alferova

Jdi Menia é um projeto televisivo internacional, talk-show e, ao mesmo tempo, serviço nacional de busca de pessoas. Passou a ser veiculado na televisão russa a partir de 1998 – no principal canal federal da Rússia – Perviy (Primeiro Canal). A audiência do programa é de 20 milhões a 80 milhões de telespectadores. Atualmente, o programa Jdi Menia virou um projeto social de grande escala dedicado à busca de pessoas desaparecidas.

O programa conta com a colaboração de mais de 500 voluntários da Rússia, CEI e outros países. Durante muitos anos, o programa coopera com o Departamento de Investigação Criminal do Ministério do Interior da Federação da Rússia. A partir de 2009, o Jdi Menia passa a ser transmitido no formato internacional. Organizam-se teleconferências por meio de comunicação via satélite com a Ucrânia, Bielorrússia, Cazaquistão, Moldova, Estônia, Letónia, Lituânia, China, EUA, Israel, Turquia, Arménia, Alemanha e Argentina.

Nas principais cidades destes países, nos estúdios especiais, se juntam pessoas que gostariam de contar sobre os que estão procurando. Atualmente, existem apenas dois países do planeta em que o programa Jdi Menia não ajuda na busca, nem encontrava desaparecidos – são a Antigua e Barbuda e a República de Cabo Verde. Em 2008, na base dos materiais do programa, foi criado um seriado documentário “Histórias inacreditáveis sobre a vida“, transmitido também no Primeiro Canal.

Em 2006, a editora “Exmo” publicou o primeiro livro da série “Jdi Menia”, chamado “Jdi Menia... Enciclopédia de vidas humanas”, com tiragem inicial de 12 mil exemplares.
Atualmente, o programa Jdi Menia é considerado o mais assistido da televisão federal da Rússia, onde, segundo os representantes da emissora, existem 15 canais estatais. Os âncoras atuais do programa são Ksenia Alferova e Alexandr Galibin.