| Fotos: Alex Mita |
| Carlos Kirchner: “Ser coerente na trajetória para tentar melhorar a vida das pessoas vale sempre a pena” |
| Em pé: Daniel Rocco Kirchner, Nicole França Holmo, Leticia Rocco e André Luis de Moraes. Na frente: Jaira Maria Rocco Kirchner, Carlos Augusto Ramos Kirchner com o netinho Bento Kirchner de Moraes no colo |
Introspectivo por definição, afeito naturalmente a cálculos e com gosto pela elaboração de soluções a partir da engenharia, Carlos Augusto Ramos Kirchner cursou do antigo primário ao científico no Instituto de Educação Ernesto Monte, em Bauru. Para ele, ser engenheiro é, também, uma forma de equacionar problemas e buscar soluções que contemplem os novos modos de vida.
Com longa carreira no sistema elétrico público, onde se aposentou, o engenheiro mecânico formado pela Universidade de São Paulo (USP), no câmpus de São Carlos, Kirchner atua há cinco anos como profissional credenciado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na avaliação de projetos de Pesquisa & Desenvolvimento (P&D). “Formei e já fui para a Cesp (Companhia Energética de São Paulo), em 1974. Fiquei até 1999 em Bauru e, em 2001, aposentei. Foi meu primeiro e único emprego a Cesp. Depois, fui arrumar sarna pra me coçar, com consultoria na área”, comenta o engenheiro.
Aliás, as questões regulatórias envolvendo o setor elétrico e consumidores livres, além da temática da iluminação pública junto aos municípios, tem consumido boa parte da ‘energia’ profissional de Carlos Kirchner nos últimos tempos, uma área em profunda ebulição no sistema de regulação, de alta especialização e dominada por um grupo de poucos brasileiros.
Um dos idealizadores do Programa de Moradia Econômica (Promore), desenvolvido pelo Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (Seesp) em parceria com a prefeitura e DAE, desde 1988, Kirchner é entusiasta do projeto. O objetivo deste programa é dar experiência profissional aos engenheiros e arquitetos, desenvolver o lado social da profissão e propiciar orientação técnica adequada para a construção de moradia, tornando o projeto acessível à população de baixa renda. Confira a entrevista:
Jornal da Cidade: Olhando para o tempo e sua trajetória, agora é fácil responder a escolha pela engenharia?
Carlos Kirchner: Considero que era afeito a cálculos e introspectivo, daí a engenharia sempre foi o caminho natural a seguir. Ser engenheiro é também desenvolver uma forma de equacionar os problemas e buscar uma solução, usar o raciocínio lógico, colocar alternativas e descartar outras, avaliando os prós e contras. Me formei em engenharia mecânica pela USP , Escola de Engenharia de São Carlos, possui cursos de especialização na área de energia elétrica e Pós Graduação lato Sensu em direito civil e direito processual Civil, na ITE.
JC: Exerceria outra profissão?
Kirchner: Não vejo qualquer problema de exercer outra profissão. Acredito que muitas pessoas que fizeram engenharia e foram para outros campos de atuação, até pelo motivo de buscar melhores oportunidade profissionais, levaram junto não apenas os conhecimentos de engenharia, mas também a forma de raciocinar.
JC: Você tem 27 anos de atuação gerenciando obras. Então foi natural entrar para a consultoria depois?
Kirchner: Tive por 27 anos atuação profissional no gerenciamento de obras e de contratos em área de construção civil e montagem eletromecânica de linhas de transmissão e subestações da Companhia Energética de São Paulo (Cesp). Atuei por seis meses como consultor da Eletrobrás – Centrais Elétricas Brasileiras e fui durante três anos diretor presidente da Termorio, termelétrica a gás natural situada em Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro. Atuei por 2 anos como consultor na área regulatória de energia da Petrobras. Ser consultor na área regulatória significa ter conhecimento da legislação e normativas do setor elétrico aplicáveis para cada caso e colocar estes conhecimentos em defesa dos interesses do cliente. Já, há cerca de 5 anos, atuo como profissional credenciado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) na avaliação de projetos de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) quanto ao cumprimento de exigências e quanto ao seu enquadramento. Atuo como consultor de energia em questões regulatórias para agentes do setor elétrico e consumidores livres e, como consultor para iluminação pública, junto a municípios através da empresa Kirchner Consultoria em Energia, em parceria com meu colega engenheiro eletricista Luiz Antonio Battaglini. E sou diretor em energia do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo.
JC: O Programa de Moradia Econômica abriu a janela para novos profissionais.
Kirchner: Fui um dos idealizadores do Programa de Moradia Econômica (Promore), desenvolvido pelo Sindicato dos Engenheiros em parceria com a prefeitura e DAE, desde 1988. O objetivo deste programa é dar experiência profissional aos engenheiros e arquitetos, desenvolver o lado social da profissão e propiciar orientação técnica adequada para a construção de moradia tornando acessível à população de baixa renda. Já foram centenas de profissionais que atuaram no programa e milhares de proprietários que receberam projetos personalizados aprovados e orientação técnica.
JC: Lembra de algum fato marcante que até hoje o acompanha na carreira, como estigma ou um ensinamento?
Kirchner: Como meu primeiro emprego é o único, na Cesp, um fato marcante ficou associado ao meu primeiro chefe na Cesp, em 1974. Ele não queria conversa e nem dava orientação e nem atenção. Ele somente falava: “Não me traga problemas e só me traga soluções”. Não era nada agradável a convivência, mas isso forçou meu desenvolvimento. Hoje, mais do que nunca, é muito difícil as pessoas tomarem decisões e, no receio de errar muitas coisas, não saem do lugar, infelizmente. De outro lado, como exemplo de liderança a quem no início de carreira procurava me espelhar, tive o engenheiro José Geraldo Vilas Boas, que comandava a Residência de Linhas de Transmissão e Subestações da Cesp e veio, depois, a assumir a presidência da companhia. Como exemplos da amizade e apoio na primeira hora e em todos os momentos, continuo tendo meus colegas Marcos Wanderley e Alberto Pereira Luz, do Seesp, e José Cabral e Wilson Tateishi, estes do Instituto Soma. É muito agradável lembrar que colegas de tantas batalhas por tão longo anos continuam até hoje e que possamos desfrutar dessa convivência quase diária.
JC: A relação entre distribuidoras de energia e os consumidores tem se deteriorado. Como fiscalizar um setor tão complexo?
Kirchner: Temos dedicado bom tempo em questões que envolvem as distribuidoras de energia e os consumidores. Podem surgir dúvidas em relação ao acompanhamento da qualidade dos serviços públicos prestados no que se refere aos indicadores de continuidade. Não é difícil perceber ultimamente uma maior frequência de interrupções no fornecimento de energia elétrica e, no total, uma maior quantidade de horas por ano que os consumidores ficam sem energia elétrica, entretanto, que não tem sido assim refletida nos indicadores de qualidade registrados. Temos defendido a criação de mecanismos que permitam aos consumidores se tornarem fiscais da qualidade de serviço prestado pela distribuidora. Atualmente, a Eletropaulo foi penalizada por multa de cerca de R$ 36 milhões por estar manipulando os indicadores de qualidade em sua área de concessão na região metropolitana de São Paulo. Junto com entidades de defesa de consumidores, o Seesp tem cobrado da Aneel uma apuração mais rigorosa dos indicadores de continuidade no fornecimento de energia elétrica.
JC: Saber que valeu a pena seguir a estrada já valeu a pena...
Kirchner: Ao longo dos anos, temos aprendido a defender teses que nem sempre são aceitas. Nos dá satisfação nos mantermos coerentes e continuar defendendo as mesmas teses por longo tempo e sabemos que, se conseguirmos vitória, nem que seja numa pequena parte delas, já valeu a pena pois foi esta nossa contribuição para estarmos mudando algo para melhor e para as pessoas poderem estar refletindo e se aprofundando sobre as questões.
Perfil
Nome: Carlos Augusto Ramos Kirchner
Idade: 63 anos
Esposa: Jaíra Maria Rocco Kirchner
Filhos: Daniel Rocco Kirchner e Letícia Rocco Kirchner
Neto: Bento Kirchner Moraes
Profissão: Engenheiro Mecânico e de Segurança do Trabalho
Livro: O Lobo da Estepe de Hermann Hess
Filme: Queimada, dirigido por Gillo Pontecorvo, com Marlon Brando, que discute a formação política dos cidadãos
Que time torce: Santos/ São Paulo / Noroeste
Para quem dá nota 10: para John Lennon, que influenciou positivamente toda uma geração
Para quem dá nota 0: para a mesquinharia e intolerância