| Alex Mita |
| O lixo não só garante o sustento da filha caçula e dos quatro netos de dona Benê, mas rende presentes para a família inteira |
O que era lixo para algumas pessoas virou luxo para dona Benê, a auxiliar de serviços gerais da Cooperativa Ecologicamente Correta de Materiais Recicláveis (Coopeco) de Bauru, que já encontrou calçados “novos em folha” e roupas ainda na embalagem, principalmente, nesta época de Natal. Inclusive, ela exibe com orgulho dois objetos de valor que pegou para si: um relógio de ouro e um anel de prata repleto de pedrarias.
O lixo, portanto, não só garante o sustento mensal da filha caçula e dos quatro netos de Benedita Gonçolina Moreira, 64 anos, a dona Benê, mas rende presentes para a família inteira. A cooperativa na qual a auxiliar de serviços gerais trabalha chega a separar e embalar duas toneladas de papelão a cada dia, sem contar com os demais materiais, cuja quantidade ela não conseguiu precisar, tamanha a demanda.
Dona Benê defende que a função que exerce na cooperativa é dignificante e dá uma lição de vida, principalmente, quando o assunto é o desperdício. “Com tanta gente passando necessidade ou que não tem condições de sequer comprar um presente de Natal aos filhos, ver objetos de valor jogados no lixo é revoltante. Por outro lado, fico feliz, porque quem ganha o presente somos nós, os cooperados”, pontua.
Contudo, a consciência da cooperada não decorre apenas do trabalho na reciclagem, mas de toda sua trajetória. Qualquer pessoa que chegar ao Ferradura Mirim e perguntar por Benedita dificilmente conseguirá encontrá-la, pois a ela é, na verdade, dona Benê. Uma mulher humilde, mas bastante articulada, que sustenta a filha e os quatro netos com a reciclagem. Há dois anos, ela presta serviços na Coopeco e acredita que o trabalho traz felicidade.
Trajetória
Dona Benê nasceu em Analândia, perto de Rio Claro, no Interior de São Paulo, em 29 de outubro de 1951. Filha de pai ferroviário, ela vivia se mudando com a família, inclusive, lista cada cidade onde morou: Rio Claro, São Carlos, Rincão, Porto Ferreira, Pirassununga e, por fim, Bauru. A auxiliar de serviços gerais conheceu o marido, com quem conviveu por 25 anos e teve duas filhas, em São Carlos.
Lá, dona Benê cortava cana e seu marido era tratorista na mesma fazenda. Depois que se “juntou”, o casal decidiu tentar a vida em Bauru, porque o marido dela havia recebido uma proposta de emprego em uma vidraçaria da cidade. “Só que a vidraçaria faliu e meu marido ficou desempregado. Na época, demorou muito para conseguirmos o seguro-desemprego e chegamos a passar fome”, relembra a mulher.
Enquanto disso, o marido de dona Benê não desistiu e passou a trabalhar como segurança de um condomínio. Finalmente, a família começou a respirar com certo alívio. Contudo, após oito dias de trabalho noturno, o marido da auxiliar de serviços gerais se deitou pela manhã e nunca mais acordou. “Ele teve um infarto e morreu dormindo”, narra. Diante disso, dona Benê se viu sozinha para sustentar a filha caçula e os quatro netos.
Salvação
O que ajudava era pensão do marido, mas não era suficiente. Ela, portanto, decidiu fazer um empréstimo consignado que paga até hoje. Há dois anos, eis que surge a salvação: a criação da Coopeco. “Eu faço de tudo: sirvo café, ajudo a separar os materiais recicláveis, enfim, bastante coisa, só não sei usar o computador”, conta. Embora tenha estudado até a 1.ª série do ensino médio, dona Benê se expressa muito bem e sente orgulho da função que exerce.
Além disso, a cooperada acredita que o trabalho dignifica aquele o exerce e, de fato, traz felicidade, porque “ocupa a mente”. E é para ocupar a cabeça que a mulher se engajou na luta pelos direitos coletivos. Ela faz parte da Associação dos Moradores do Ferradura Mirim e do Conselho Municipal de Políticas para as Mulheres. “Eu me considero uma pessoa feliz”, frisa.
Arquivo morto traz dinheiro extra à Coopeco e garante o décimo terceiro
Conforme o JC já publicou, o arquivo morto dos Correios trouxe a esperança de um Natal melhor para 26 trabalhadores da Coopeco, inclusive, a dona Benê. No mês passado, os cooperados trabalharam na separação e destinação de cerca de 50 toneladas de diversos tipos de papéis, fato que resultou em uma arrecadação de até R$ 12 mil e garantiu o 13.º salário dos trabalhadores.
É o que informou a administradora da Coopeco, Gisele Moretti, em entrevista recente. Segundo ela, desde 2014, a entidade firmou uma parceria com os Correios. O órgão doou aproximadamente 30 toneladas de papéis, que se acumularam no decorrer de um ano inteiro. Já os Correios explicaram que o descarte deste ano abrange apenas alguns documentos pertencentes ao Arquivo Geral da Diretoria Regional São Paulo Interior, sediada em Bauru.