09 de julho de 2026
Bairros

PM Ambiental relata histórias com animais silvestres

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Quioshi Goto
Animal comum na cidade, ouriço tem espinhos para se defender
O biólogo do Zoo Gérson Nascimento com um tamanduá-mirim
"Medo ou confiança excessiva abrem possibilidade para a falha", Leo Artur Marestoni - Tenente

Ilhados nos fragmentos de mata ainda remanescentes, animais silvestres podem ser vistos com frequência no ambiente urbano. E, quando estas “visitas especiais” acontecem, cabe à profissionais como policiais ambientais resgatá-los e devolvê-los ao seu habitat.

Uma tarefa que, em boa parte dos casos, pode dar muito trabalho. E, com o objetivo de prepará-los para estes desafios, o Parque Zoológico Municipal oferece, anualmente, cursos de manejo e contenção física de animais selvagens, como o realizado nessa segunda-feira (14).

Na ocasião, policiais ambientais relataram ao JC as dificuldades que já enfrentaram, os momentos de apreensão diante de bichos poderosos como jacarés e onças-pardas, e as histórias de resgate que ficaram gravadas na memória.

Comandante interino da 2.ª Companhia de Polícia Ambiental de Bauru, o tenente Leo Artur Marestoni lembra, inclusive, de casos recentes, em que um urubu entrou na praça de alimentação de um centro de compras da cidade. O resgate, trabalhoso, resultou no afastamento temporário de um policial, que acabou caindo e batendo a cabeça ao conseguir conter a ave.

“Ele escorregou e ficou quinze dias em observação. O mais incrível é que ele não soltou o animal, que saiu ileso”, recorda-se o comandante. Ele destaca, contudo, que não há registros de acidentes mais graves envolvendo o manuseio de animais silvestres, embora muitas vezes os bichos sejam bastante fortes ou mesmo peçonhentos, como algumas espécies de cobra.

“A palavra de ordem é cautela, já que o medo ou confiança excessiva abrem possibilidade para a falha”, ensina. Segundo Marestoni, a Polícia Ambiental é acionada ao menos uma vez por semana para resgatar animais, em um trabalho que, quase sempre, conta com o auxílio do Corpo de Bombeiros e, em algumas ocasiões, também dos profissionais do próprio Zoo.

Mais comuns

Na maioria das vezes, a demanda é por retirada de espécies mais comumente avistadas na zona urbana, como ouriços, gambás, quatis, tamanduás, teiús e filhotes de aves. Mas há casos que podem demandar horas de atuação, como o resgate de uma sucuri que se abrigou no forro de um galpão, em Bauru, há cerca de três meses.

O comandante conta que os policiais subiram no telhado, mas o réptil conseguiu se esconder na calha do imóvel, que precisou ser desparafusada para a remoção do animal. Mesmo não sendo peçonhenta, a sucuri, se mal manuseada, pode assustar pela força de sua musculatura. “Além disso, as cobras carregam muitas bactérias na boca e a mordida, além de doer, pode causar infecções. Por isso, toda cautela é necessária, até porque nossa intenção é garantir a integridade física também do animal”, frisa.

Serviço

Para obter orientações ou solicitar a captura de animais silvestres, o telefone de contato da Polícia Ambiental é o (14) 3203-2700, que funciona 24 horas por dia. Vale lembrar que, para a recolha de animais abandonados ou soltos nas ruas como cães, gatos, bovinos e equinos, o órgão a ser acionado é o Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) de Bauru - (14) 3103-8050.

De jacaré à onça: eles estão entre nós

O tenente Leo Artur Marestoni também atuou em um dos casos mais marcantes para os bauruenses, quando uma onça foi parar em cima de uma árvore do Vitória Régia, em 2014. Ele conta que o primeiro chamado recebido foi de um homem com voz pastosa, que aparentava estar embriagado.

De tão surreal que a história parecia, o atendente chegou a duvidar da ocorrência, que foi confirmada momentos depois por outra pessoa que ligou dando o mesmo relato. “Foi uma grande operação, até pelo risco que havia para a população e para o próprio animal, que estava no meio da cidade, em uma via de grande fluxo”, comenta. Depois de diversas horas e tentativas de sedar a onça, ela foi finalmente capturada e devolvida à natureza.

Em outro caso envolvendo animal de grande porte, há cerca de dez anos, um jacaré de cerca de 2,5 metros foi resgatado às margens da rodovia Marechal Rondon, em Agudos. “Quando chegamos, ele estava escondido no mato e não tínhamos a dimensão do seu tamanho. Quando vimos, percebemos que era um animal grande e tivemos de chamar apoio”, relembra o cabo Alexsandro Pelegrino, que participou da operação.

Devido ao cuidado extra demandado, uma força-tarefa envolvendo cerca de seis homens da Ambiental e dos bombeiros foi acionada. Depois de aproximadamente uma hora e meia de trabalho, ele foi capturado e encaminhado ao Zoo.

Em outro episódio, desta vez em 2013, em Jaú, um lobo-guará foi parar dentro de um bar, logo após o proprietário abrir as portas do estabelecimento para mais um dia de trabalho. “Ao mesmo tempo em que a gente fica preocupado em saber que estes animais estão entrando na área urbana porque a cidade está invadindo o espaço deles, ficamos felizes por saber que eles ainda resistem nestes espaços”, pontua Marestoni.

Curso

Vinte policiais ambientais da região abrangida pelo 2.º Batalhão de Polícia Ambiental participaram, ontem, do curso teórico-prático de manejo e contenção física de animais selvagens oferecido anualmente pelo Zoológico Municipal de Bauru.

Segundo Luiz Pires, diretor do Zoo, o curso é promovido para garantir a integridade física dos animais e dos policiais que precisam resgatá-los e encaminhá-los diariamente a criadouros, centros de triagem ou de volta ao seu habitat.

O curso, nessa segunda (14), teve duração de oito horas e foi ministrado por um biólogo da instituição. Durante a aula prática, os técnicos demonstraram técnicas de contenção e manejo de aves, répteis e mamíferos, além de orientarem sobre os cuidados sanitários no momento da abordagem junto a estes animais.