10 de julho de 2026
Geral

Bebês morrem e famílias acreditam em negligência

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 5 min

Fotos: Alex Mita
Cunhada de Joice, Monica Tomas buscava respostas; família acionou a Polícia Militar nessa terça-feira (15)
Douglas Simões explica o que teria ocorrido nos dois casos

A morte de três bebês, dois deles na noite da última segunda-feira (14), levou os familiares a denunciar a Maternidade Santa Isabel, administrada pela Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), de negligência. O hospital, por sua vez, lamentou o fato e alega que os bebês já chegaram sem vida na unidade.

Duas mortes foram registradas no mesmo plantão, na noite dessa segunda. Há 10 dias, entretanto, o hospital já havia registrado o óbito de um bebê (leia mais abaixo). O caso mais recente é de uma gestação de 35 semanas. Quando deu entrada na maternidade com dores do parto, Flávia Ribeiro, 23 anos, foi informada pela equipe médica que o bebê, um menino que se chamaria Thaynan, já estava sem vida.

Segundo a irmã dela, Ana Paula Ribeiro, 28 anos, Flávia já é mãe de duas meninas (de 4 anos e de 1 ano e seis meses) e está muito abalada com a perda. O neném foi retirado por parto normal e o cordão umbilical havia dado três voltas no pescoço. Segundo o diretor clínico da Maternidade Santa Isabel, Douglas Aprobato Simões, o neném já chegou sem vida na unidade, embora Ana Paula afirme o contrário.

“Minha irmã sentia o bebê se movimentar na barriga. Se tivessem feito a cesárea, ele sobreviveria”, critica, alegando que a criança teria ingerido fezes durante o parto.

O médico confirma que o efeito do óbito fetal gera a eliminação de fezes. “É fisiológico. Porém, não tem como dizer que o bebê ingeriu as fezes. Quando o cordão enrola no pescoço, o bebê entra em sofrimento, o que leva rapidamente ao óbito. É algo imprevisível. A mãe, entretanto, já foi internada com diagnóstico de óbito fetal intrauterino”, reforça Simões.  

40 semanas

No outro caso, Joice Cristina de Melo, 24 anos e com 40 semanas de gestação, procurou a Maternidade Santa Isabel duas vezes na semana passada, mas teria sido orientada a voltar para casa. “Diziam que ela ainda não estava pronta para dar à luz”, contou a cunhada Janaína Fernanda Tomas, 36 anos.

Na última segunda (14), quando retornou à unidade, o menino, que se chamaria Heitor, não dava sinais de vida. “O coração tinha parado. Mas o pré-natal foi perfeito, sem nenhum problema”, questiona Janaína, destacando que Joice já é mãe de uma menina de dois anos.

De acordo com o médico Douglas Simões, o caso de Joyce é semelhante ao primeiro. “O bebê chegou sem vida no hospital e, quando o tiramos, constatamos duas voltas de cordão umbilical no pescoço. É uma fatalidade. Muitas vezes está relacionado ao cumprimento do cordão e o fato de o neném ser hiperativo e se mexer bastante”, detalha.

“O cordão enrolado no pescoço é algo que acontece normalmente, mas são poucos os casos que levam à morte. Porém, não existe um método para prevenir. As duas ocorrências no mesmo dia foi uma triste coincidência”, destaca Simões, acrescentando que as mães não corriam risco de morte. No entanto, os familiares disseram que registrariam BO contra o hospital. A PM também foi acionada.

Tempo de Gestação

Em relação ao tempo de gestação das duas pacientes atendidas, o diretor clínico da Maternidade Santa Isabel, Douglas Aprobato Simões, atesta que estava dentro da normalidade. “A gestação pode evoluir até 42 semanas, mas quando completa 41, temos uma conduto ativa:  ou a internamos para induzir o trabalho de parto, se as condições permitirem, ou interrompemos o processo para fazer a cesariana”, explica.  

12 horas

Outra cunhada de Joice Cristina de Melo, Monica Tomas, 43 anos, criticou a demora para retirar a criança da barriga da mãe. “Já estava morto e levaram mais de 12 horas para tirá-lo, pois não quiseram fazer a cesárea. Ela estava gritando de dor, desesperada e falando que ia morrer, mas ainda assim insistiram no parto normal”.

 

“Muitas vezes, a mãe já chega em trabalho de parto, porque a natureza reconhece que o neném não tem mais vida. No caso destas pacientes, demos preferência para o parto normal porque é uma forma de diminuir as incidências de complicações como hemorragia, infecções”, explica o médico Douglas Simões.

Há dez dias, outra neném morreu

No dia 4 deste mês, a Maternidade Santa Isabel registrou outro óbito de bebê. A mãe Venicia Maria da Silva Macedo, 39 anos, vinha de uma gravidez de risco: diabetes gestacional e pressão alta.

Marido de Venicia, Aguinaldo Bispo de Macedo, 33 anos, contou que a esposa ficou três dias internadas na maternidade e, apesar da pressão alta (17 por 10), foi liberada. “Quando voltou dia 4, disseram que o bebê estava morto”, lamentou. “Era uma menina e se chamaria Sofia”.

De acordo com a assessoria de imprensa da Famesp, o bebê foi retirado por parto normal. Havia se formado um nó verdadeiro do cordão umbilical, termo usado quando há mais de três nós – neste caso, foram cinco nós em torno do pescoço da neném.

Sobre a alta médica, a maternidade informa que o último atendimento à Venicia ocorreu na sexta (4), com entrada no pronto atendimento e posterior internação para avaliação fetal, quando, por meio de ultrassonografia, foi identificado o óbito do bebê.

O quadro de edema em membros inferiores foi atendido na unidade em 30 de setembro, com a devida investigação laboratorial do caso e realização de exames de ultrassonografia, com alta em 2 de outubro. Um novo ultrassom de rotina foi realizado em 28 de outubro, a pedido da UBS onde a paciente realizava o acompanhamento pré-natal.