| Fotos: Arquivo Pessoal |
| Maria Fernanda junto ao pequeno Enrico no Natal de 2011, o último que o garoto passou com a família |
| O pequeno Enrico gostava de ganhar presentes e acreditava no Papai Noel |
O desejo do pequeno Enrico, 8 anos, era ver o Papai Noel e ganhar alguns presentes. Ele tinha leucemia e pediu para que a família adiantasse a celebração do Natal, porque temia não sobreviver até que a data chegasse. No dia seguinte à festa antecipada, mais especificamente, em 22 de novembro de 2012, a criança não resistiu à doença. Da dor, contudo, nasceu a solidariedade. Desde então, a mãe de Enrico passou a realizar a última vontade do filho anualmente e distribuir presentes para os pequenos que precisam.
Maria Fernanda Mainini Portas Caputti, 32 anos, mãe do pequeno Enrico, narra que ela vivia em Agudos (13 quilômetros de Bauru), mas passou a morar na Capital de São Paulo, assim que o menino completou 4 anos, por conta do trabalho de seu marido. Porém, a base familiar se abalou após Enrico ser diagnosticado com leucemia, faltando um mês para que comemorasse 7 anos.
Diante disso, o garoto passou a ser tratado no Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), em São Paulo. “Era uma criança bonita, inteligente e carismática, motivos pelos quais era conhecido pelo hospital inteiro”, relembra a mãe. Inclusive, Maria Fernanda narra que, mesmo se submetendo ao tratamento invasivo da doença, Enrico era feliz.
‘Não vou aguentar’
“O último desejo do meu filho foi ver o Papai Noel; eu disse para ele esperar o Natal e ele me falou: ‘mamãe, eu não vou aguentar esperar até lá”, recorda-se Maria Fernanda.
Diante do pedido do garoto, a família antecipou o Natal. O pequeno escreveu diversas cartas para o Papai Noel e queria que o Bom Velhinho entregasse os presentes pessoalmente. “Ele adorava o Natal e acreditava no Papai Noel. Diante disso, nós compramos alguns presentes e o apresentamos ao Bom Velhinho. No dia seguinte, meu filho morreu”, conta Maria Fernanda.
Do que era para ser um episódio traumático para os finais de ano seguintes, surgiu a solidariedade, uma vez que a mãe passou a presentear crianças carentes, com deficiência ou câncer. Inclusive, por meio da assessoria de comunicação da Fundação para o Desenvolvimento Médico e Hospitalar (Famesp), a psicóloga do Hospital Estadual de Bauru (HEB) Andréia Barbosa de Lima afirma que a perda pode se converter em resiliência, fazendo com que pessoas que vivenciaram experiências ruins levem conforto àquelas que passam por situações parecidas.
Papai Noel
Maria Fernanda descreve que não teve tempo de comprar todos os presentes que o filho havia pedido e, depois que o garoto morreu, decidiu adquirir o restante dos brinquedos e repassar a outras crianças. “Eu vejo, no sorriso delas, o do meu filho e consigo ocupar a mente ao me desvincular do foco da dor, principalmente, na época do Natal”, revela a mãe, que fundou o projeto “Sonhos do Enrico” (leia mais e veja as fotos abaixo).
| Fotos: Arquivo Pessoal |
| Nesta semana, Maria Fernanda entregou brinquedo para Yasmin Caroline Barbosa dos Santos, 7 anos, no Hospital Estadual |
| Projeto ‘Sonhos de Enrico’ leva alegria a crianças carentes, com deficiência ou câncer |
Na última segunda-feira (14), as voluntárias do grupo estiveram no HEB alimentando os sonhos de pacientes de até 17 anos e 11 meses. Segundo informações da assessoria de imprensa da Famesp, que administra o hospital, mais de 100 pessoas receberam presentes, entre eles, Yasmin Caroline Barbosa dos Santos, 7 anos, que está em tratamento na Clínica Pediátrica e ficou encantada ao ver o mimo.
E, de sonho em sonho, Maria Fernanda vai confortando seu coração. “No caso dessa mãe, a dor foi, de fato, transformada em resiliência. Contudo, também vejo voluntários que se dispõem a ajudar sem sequer ter passado por situações traumáticas. Essas pessoas são solidárias, porque têm um dom, uma capacidade incrível de se doar”, pontua a psicóloga do HEB Andréia Barbosa de Lima.
‘Sonhos do Enrico’
Enrico Portas Caputti, 8 anos, pediu presentes que queria ganhar, mas morreu um mês antes do Natal. Mesmo assim, os pais distribuíram as cartinhas que ele havia escrito e doaram os mimos para crianças, cujas famílias não tinham condições de presenteá-las. No ano seguinte, surgiu o projeto “Sonhos do Enrico”, que entregou 100 brinquedos durante uma festa destinada às crianças carentes e com deficiência de Agudos, onde a mãe do garoto mora.
O projeto tem o intuito de distribuir presentes todo Natal, realizando os sonhos do pequeno Enrico e de muitas outras crianças. Se alguém estiver interessado em apoiar a causa, basta entrar em contato através dos telefones (14) 3262-3756, (14) 3261-7330, (14) 99462-1360 e (14) 99168-4432. O grupo também tem o e-mail projetosonhosdoenrico@hotmail.com e a página “Projeto Sonhos do Enrico” no Facebook.
Exemplos solidários nos corredores do hospital
Até o dia 23 de dezembro, as enfermarias da Pediatria do HEB ficarão tomadas por histórias e personagens que habitam o imaginário de crianças e, até mesmo, de adultos. É o espírito lúdico e o exercício da solidariedade que se renovam nesta época do ano, mas não se restringem a ela. Esse é o caso do Projeto Alegria e da ONG Pequenos Corações, além de tantos outros voluntários.
Presidida por Marcia Saia Rebordões, a Pequenos Corações, cuja causa é a criança cardiopata, também realiza doações e atividades lúdicas em hospitais durante todo o ano. Marcia é outro exemplo de quem extrapolou a luta pessoal com ações em favor de toda a sociedade. Em datas comemorativas, tais como Páscoa, Dia das Crianças e Natal, a entidade marca presença ao levar conscientização na área de cardiologia.
Além disso, nos dias 17 e 21 de dezembro, outra voluntária passará pelo HEB, a Rose Lopes, da Casa da Sopa. O Projeto Alegria, por sua vez, tem o perfil de quem se doa sem carregar histórias traumáticas. É um grupo formado por jovens, a maioria universitários, que traz alegria para crianças internadas quase todas as noites. Neste mês, o trabalho dos voluntários também chegará aos adultos, já que eles contarão histórias de Natal nos dias 21 e 23.
Já no dia 22, voluntários de uma empresa bauruense também farão sua parte, levando personagens para lá de conhecidos para animar a manhã dos pacientes internados nas enfermarias da Pediatra e da Unidade de Queimados do hospital. Papai Noel, Frozen e Homem de Ferro irão compor um time de super-heróis que terá o objetivo de semear a esperança.