Caro Zuck! Passei momentos difíceis anteontem. Depois de um dia desgastante no trabalho, cheguei em casa por volta das 22 horas. Minha família estava assustada. Todos estavam vidrados em seus celulares, ao mesmo tempo aguardavam o noticiário. Estavam aflitos, angustiados. Fui recebido com um... “o WhatsApp vai parar de funcionar”. Pensei: o que será da economia?
Os minutos se passavam e o desassossego aumentava. Minutos antes do bloqueio a reação foi ainda mais imprevista (ou não): deslizavam de modo apressado e repetitivo seus dedos nas telas de um modo esperançoso. Rsss (tente pronunciar isso e verá que ridículo). Afinal, iteratividade e interatividade se tornaram sinônimos. Com frequência, saiam do aplicativo e voltavam a acessar.
Bloquearam (!), disseram. Pensei: vão diminuir os acidentes de trânsito e as refeições voltarão a ser ocasião de diálogo e de relacionamento entre familiares. Enfim, todos foram dormir. Não havia mais mensagem para serem lidas e respondidas antes do sono (que sono?). Ao me deitar, imaginei que meu filho não iria mais dar “Bom Dia” para os seus 375 contatos do WhatsApp. Fiquei preocupado. Será que isso lhe trará algo de ruim?
Acordei com um sonho. Foi um misto de virtualidade e realidade. Mais virtual. Sonhava que as pessoas estavam lendo mais. Kkk! Um dia desses um familiar se manifestou que se sentia rejeitado quando percebia que alguém leu e não respondeu de imediato às suas mensagens. Pensei: quem sabe não será mais feliz!
Logo percebi que a situação era ainda mais grave: meu filho não tinha descansado. Ficou boa parte da madrugada na tentativa de encontrar aplicativos que desbloquearia o bloqueio judicial e “baixar” outros aplicativos similares. Encontrou. Acordou exausto. Afinal, recompor-se em todos os grupos não era tarefa fácil. No café da manhã reclamou que as aulas no período da manhã deveriam começar às nove e meia.
Caro, Zuck! Você tem 31 anos. Sei que gastou 19 bilhões de dólares na compra desse aplicativo. Afinal, a captura de dados e pensamentos das pessoas em tempo real, inclusive por meio do facebook, lhe renderá muito mais. Eu compreendo. A propósito, deixe-me lhe contar: estava pensando em comprar um óculos de sol e, acredite, recebi tantas promoções em minha página do facebook e por e-mail que... Era só desejo. Não podia comprar. Afinal, sabe como está a economia em meu país. Comprei.
O dia 17/12/2015, quinta feira, marcou a minha vida. No dia seguinte, justiça foi feita. Tudo voltou ao “normal”. Advertência: este conto é uma ficção, mas pode conter traços de realidade.
O autor é advogado e professor universitário.