09 de julho de 2026
Articulistas

O Natal que nos persegue...

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 3 min

Jesus Cristo é a figura mais decisiva e determinante da história da humanidade. Quem disse foi um dos grandes filósofos do século 20, Karl Jaspers. Ele mesmo era contra as doutrinas religiosas explícitas, mas estudou os efeitos ou as repercussões de Jesus na História, assombrosamente humanas e positivas. Por exemplo, o próprio conceito de “pessoa” veio ao mundo por influência do cristianismo, por causa dos debates na tentativa de compreender o discurso do Nazareno. As Declarações dos Direitos Humanos, desde a Revolução Francesa, nasceram nesse eito.


Outros grandes pensadores, inclusive não crentes, reconheceram o cristianismo como formador da consciência de que todos são livres. Hegel fez essa afirmação. Ernst Bloch, marxista heterodoxo e ateu, escreveu que é ao cristianismo que se deve a exigência de que nenhum ser humano pode ser tratado como “gado”. Juergen Habermas, agnóstico, afirma que a democracia, com “um homem um voto”, é a transposição para a política da afirmação cristã de que Deus se relaciona pessoalmente com cada homem e mulher. O homem, como pessoa, como “indivíduo”, com seu livre arbítrio, nasceria desse conceito. Jesus não quis tomar o poder político – “Dai a César o que é de César”. Mas foi mandado crucificar como blasfemo e subversivo social e político. Pilatos, representando o poder imperial de Roma, que o condenou, não podia imaginar que aquele “maluco” seria figura decisiva e determinante na História.


Já a festa do Natal, nada tem a ver com a revolução que Jesus operou. Está mais para infância e família. Tem uma narrativa poderosa e magnética que nos persegue. Canções com melodias simplistas, mas certeiras, souberam se adaptar a motivações religiosas e ao uso de cartões de crédito. É uma festa mais ligada aos nossos usos, necessidades e ritos. Quase tudo o que se possa dizer contra o Natal é lucido e razoável... but I like it – como dizem os americanos.


Dizem que quem inventou o Natal, da forma como o conhecemos hoje foi Charles Dickens. No século 19 as celebrações natalinas eram obscuras e nada solidárias. A igreja cristã fazia pouco caso dos aniversários. A única data que realmente importava era a da segunda vinda de Cristo, e essa estava além do entendimento humano.  Com o seu Conto de Natal (1843) Dickens produziu um panfleto contra os maus-tratos do trabalho infantil. Seu protagonista é o avarento e mesquinho Scrooge. Ele era contra “dar por dar”. De graça. As crianças, desde cedo deveriam aprender a conquistar as coisas pelo próprio esforço. Muito parecido com aquelas frases imperativas dos cartazes de hoje: “Não dê esmolas”. Vem de longe o conceito do “ensine a pescar”, sem perceber que precisamos, primeiro, salvar as pessoas satisfazendo a suas necessidades básicas. Comida, por exemplo...


Desde então, o Natal nos persegue como os fantasmas que atormentam Scrooge há um século e meio e empurram o velho como uma bruxa para a fogueira. O desesperador do Natal é que conhece os nossos pontos frágeis, diverte-se com eles, nos deprime, emociona, redime e condena, mas nunca de modo definitivo. No final, salta ao pescoço, nos agarra: na crise, trabalhe mais, vá à luta, comporte-se bem, dentro de um ano voltamos a falar. Essas advertências deveriam ser dirigidas à presidente Dilma e sua equipe econômica, aos políticos, e não aos desempregados, vítimas dos desencontros na macroeconomia.  Dickens definiu para nós o que é viver um conto de Natal, com aquela árvore decorada, mesa farta, peru assado, bebidas e, acima de tudo, a mágica transformação de sentimentos mesquinhos em generosos e altruístas.


Alguns escritores como a canadense Alice Munro, prêmio Nobel, e Vladmir Nabakov, descrevem o Natal como uma festa de angustia e solidão. Eles querem lembrar que, além do desperdício em ceias farta, da ostentação com tantos presentes, temos ainda muito a fazer para a nossa redenção como seres humanos. Feliz Natal.


O autor é jornalista e articulista do JC