08 de julho de 2026
Articulistas

Perfeito para imperfeitos

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Sempre tivera um corpo de proporções desobedientes à tirania do emagrecimento. Algo na contramão do padrão de beleza. Se tudo valia a pena por uma cintura pequena, nada a motivava exercitar-se. A não ser as diárias cinco séries de WhatsApp, cinco repetições de Instagram  e longo aquecimento no Facebook. Mulher de curva fácil, debochava dos retos. Acreditava na vida sem restrições. Para ela, viver era desenhar sem borracha. Por isto, desnecessária a preocupação  com os contornos. Frutas? Somente com as brincadeiras da infância: pêra, uva e salda mista.  Representada fosse num elemento químico, metal pesado seria.


Acompanhava a indústria do emagrecimento engordar ao longo do tempo. Observava, igualmente à religião, o comprometimento sagrado dos fiéis em torno do culto ao corpo, tamanha devoção pelas formas apolíneas. Seria um atestado de poder confirmativo à era da imagem? Mantinha pesada preocupação pelo fato de as pessoas correrem o risco de, um dia, serem vistas apenas pelo embrulho, negligenciando autêntico conteúdo.


Sofrer e suar em nome da saúde  malhava-se. Se assim fosse, residiria onde a preocupação quanto à poluição urbana, lesiva aos pulmões? Percebia o porquê e o para quê da academia. Mais que um local de treinamento, frequentá-la, representaria  ver e, principalmente,  ser visto. Confirmar e demarcar hormonal território. Reconhecia na malhação objetivos específicos. Também, sendo o corpo a casa da pessoa, vez ou outra - ah! prazerosamente - receberia visita. Na aeróbica do pretexto, percebia haver forte fonte de oportunidades físicas tateáveis. Intrigada, via num casal amigo suadas diferenças.


A namorada malhava quatro vezes por semana, o namorado, nada. Ela comia frutas, ele, ainda, nada. A jovem fazia sexo três vezes por semana, ele, ...nada. Intensa busca pelo ideal estético fazia identificar original estudo sobre pecuária, que, reunidos intensivamente, exercitavam-se para vaidosa exibição extensiva. Investimento válido para açougues sociais, cuja exposição corporal confirma atuante narcisismo.


Na aeróbica do raciocínio, perceptível quão irreversível tornava-se a neurose em torno da imagem. Apesar de o corpo dizer  muito sobre a pessoa, conformava-se respeitar a virtude do silêncio. Paralelamente a isto, desejosa por um namorado estava. Alguém capaz de aceitá-la pelo que fosse. Sem prerrogativas, ressalvas, mesmo que o indicador da balança lipidicamente acusasse notável centena. Até porque verdadeiro amor desconhece unidades de peso e de medidas.


Convicta disto, rompeu passivo relacionamento com culote lateral. No primeiro desentendimento, inevitável troco. Permissão negada à calça jeans para aguardada festa. Segunda briga, perseguição apelativa. Proibição de contato às alças do biquini. Vencida nesta guerra surda de mentiras sinceras, deu início ao motivacional objetivo  amoroso, independentemente de ser caça ou caçadora. Imaginava o que lhe reservaria. Bem ou mal, antes de tudo, precisaria voltar a conversar com um velho companheiro de afetuosa convivência.


Sincero, devolvia qualquer forma de olhar, qualquer manifestação corporal ao imediato contato. Reservado, preferia mais ouvir que falar. Num mundo cujo valor à imagem superior é a fala, compreensível ser procurado. Para os desconhecidos, atendia como Consultor de Imagens. Para os íntimos, o Espelho.


O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e universidade