09 de julho de 2026
Articulistas

Sobre a magia do Natal

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

É estranho como algumas datas festivas, que num passado não tão distante levavam a uma verdadeira mobilização de preparo entre famílias e as Instituições (escolas, comércio, setor público, etc), tenham ultimamente perdido vigor e expressividade em sua importância e vivência. É notável, por exemplo, ao andarmos pelas ruas a ausência de empenho na preparação e nos rituais do advento do Natal. Já não se nota com facilidade a sutileza e o capricho de enfeites e luzes, verdadeiros malabarismos de arte que antecede o 25 de dezembro.

Na verdade tal fenômeno de desencantamento das datas sacras não é um processo recente. Já algum tempo paira sobre tais festas certo desinteresse, só sobrevivendo nas famílias mais tradicionais. Mas a que se deve tal constatação? Uma primeira leitura nos leva a crer que o processo de dessacralização acelerada na sociedade atual, tem nivelado por baixo, as intensidades e os valores próprios inerentes a estas expressões religiosas.

O mistério sacral que perpassa o significado e a importância destas festas tem sido afastado aos poucos da consciência individual das pessoas. Para se viver intensamente um acontecimento, deve se reconhecer o valor que o perpassa, ser sabedor de sua história, para que a partir desta experiência pedagógica se desenvolva no sujeito a sensibilidade afetiva que transcenda a mera tradição e o leve a viver intensamente e de forma passional o significado da expressão natalina. Por isso, é latente cada vez mais a incapacidade destas datas festivas afetarem as pessoas ao ponto de leva-las a viver na primeira pessoa os afetos próprios inerentes em cada tempo e espaço religiosos.

O excesso e o apelo comercial que acompanha diferentes comemorações ao longo do ano vêm intensificar este nivelamento e afrouxamento das datas festivas tradicionais. Já paramos para penar que o mercado de consumo inaugura em cada mês uma data a ser celebrada? Datas que exigem consumo de presentes, que quando não participamos nos sentimos maus perante o outro. Hoje celebramos desde o dia dos namorados, mães, pais, amigos, etc. Este inchamento da cultura de massa contribui para a dessacralização e banalização das festas tradicionais. Pois a aceleração e a necessidade de celebrar e consumir em diferentes datas comemorativas, não prepara as pessoas, para viver o mistério e interiorizar o verdadeiro significado destas comemorações em suas vidas e no espaço cultural e social no qual fazem parte.

O resultado é a fragmentação e o afrouxamento dos valores e do verdadeiro significado não somente do Natal, mas de outras comemorações religiosas ou cíveis. As pessoas passam pelas festas, sem viver e participar do teor formativo e regenerador que acompanham tais festejos. Lembro aqui o significado das datas comemorativas nas etnias indígenas, por exemplo, nenhuma festa é igual a outra, cada festejo ou ritual oferece ao participante a oportunidade única de viver e receber os benefícios mistéricos que os rituais conferem. Por isso, é na festa, na dança, na música, na comida, no celebrar em grupo que ele recebe as marcas e dádivas próprias que as intensidades daquele festejo têm a oferecer. Ele ao final dos festejos já não é a mesma pessoa, houve a conversão, ou o agraciamento, ou a passagem para outra esfera de sua vida social.

Assim também, deveria ser a festa do Natal, em nossa sociedade, ela deveria conferir ao cristão a oportunidade de se preparar simbolicamente para o nascimento de Cristo e se revigorar neste tempo que antecede simbolicamente seu nascimento para um tempo de parada, de mudança, de conversão, para que na data de 25 de Dezembro possa celebrar por inteiro o mistério da encarnação do verbo.

Independente de acreditar ou não em Jesus Cristo ou no Natal, vivemos um tempo de ceticismo e desencanto. As coisas, os espaços e o tempo tornaram se uma mesma coisa. Estejamos no interior de um teatro, cinema, museu, numa Igreja ou shopping, tudo é uma mesma coisa, não existe as rupturas de níveis, não somos educados para perceber as intensidades afetivas que demandam em cada lugar, então, tudo se torna amorfo, insípido, sem gosto, como se tudo fosse a mesma coisa.

Perdemos a cada dia, a sensibilidade de perceber as diferentes texturas que compõem o mundo e os espaços, as datas comemorativas e o tempo. Tudo se converteu numa mesma coisa e por isso a vida se tornou chata e insuportável. Acredito que o grande problema do Natal, vai além do Natal, passa por um problema de percepção, no qual, nos tornamos cada vez mais cegos às intensidades afetivas que não nos tocam mais, pois nos tornamos imunes a elas. Isto é triste e perigoso, pois quando fechamos nossos poros ao afeto nos desumanizamos aos poucos e nos tornamos “idiotas” que rimos de nossa própria ignorância.

O autor é licenciado em filosofia com mestrado em linguística e análise do discurso e doutorando em educação escolar pela Unesp de Araraquara. É supervisor de extensão e professor na Instituição Toledo de Ensino (ITE) Bauru.