09 de julho de 2026
Articulistas

Sonhos de uma noite encantada

Cláudio David Dangió
| Tempo de leitura: 3 min


Os dias percorridos foram ma-ra-vi-lho-sos, com fartura e, para “findar” o ano com chave de ouro: a noite de Natal. Data esta mais esperada pela minha família. Meu pai, descendente de inglês, sangue azul – como ele mesmo dizia –, ainda nos meados de novembro encomendava alguns quilos de bacalhau – encaixotados na Noruega – e garrafas do tradicional vinho do porto – vindo de Portugal. Tudo pensando nos preparativos do Natal que se aproximava. Minha mãe cuidava das vestimentas das crianças: blak tie para os meninos e saias de cambraias com bordado inglês, para as meninas. “Não podemos fazer feio na missa do galo” – dizia ela. Celebração esta frequentada na época pela elite da cidade.

Próximo à meia noite, papai estacionava seu Sinca Chanbord em frente à matriz. À porta de entrada da igreja, o padre, os gerentes das Casas Pernambucanas e do Bradesco, um médico e o delegado da cidade, teciam elogios para os meus pais pelo comportamento educadíssimo de suas crianças e pelas vestimentas das mesmas.         

Sobre a mesa da ceia, peru à Califórnia, leitoa assada com a maçã na boca, canelone, espaguete, lasanha à bolonhesa e, é claro, não podia faltar, o bacalhau ao forno preparado exclusivamente para o “Velho”. Tudo feito por sinhá Izabel, criada da casa há vários anos. Para completar o banquete da fartura, manjares de vários sabores, frutas cristalizadas, nozes – “Como eu amava nozes!” – castanhas, mais nozes, uvas, pêssegos e muitas nozes. Só não havia arroz. Meu pai dizia que tal cereal comia-se o ano todo e por isso nesse dia especial não era preciso. Tio Anthony vestia-se de Papai Noel e fazia a entrega dos presentes. Um ganhava patinete; outro, bicicleta Monark; as meninas, bonecas da época vindas dos Estados Unidos que imitavam Marilyn Monroe; para o Velho, charutos cubanos e, minha mãe, presenteada com um colar de rubi escarlate... sonho de muitas mulheres.

Meu velho pai sentava-se em uma poltrona, a qual pertencera a um lord inglês – herança de seu avô –, para ouvir de um gramofone músicas de Sebastian Bach, Tchaikovsky e Beethoven, seus compositores preferidos. Vez e outra, “beliscava” um naco de bacalhau acompanhado com tragos de vinho do porto. Naquela noite glamourosa, ele baforava o charuto cubano e contava exacerbadamente histórias de seus antepassados britânicos... Todos prestavam atenção, principalmente, Anthony e Izabel que ficavam sentados ao seu lado.

Realmente era uma noite encantada de muitos sonhos...

Já no dia seguinte pela madrugada, ressaca do feriado, minha mãe preparava a marmita com arroz e sardinha – enlatada – para meu pai. Este subia na carroceria a céu aberto de um caminhão que transportava “bóias frias” e sentava-se no “pau-de-arara” ao lado de “Tonho” e “Bel”, seus irmãos. Levava consigo a tiracolo uma mochilinha cor de vinho, contendo uma porunga – colhida no mato – com água e a marmita, a mesma com arroz e sardinha. “Coladim” ao seu ouvido, um “radim de pia” – como ele mesmo dizia bem ao sotaque mineiro – ouvindo Tonico e Tinoco, “quietim”... e pitando seu “cigarrim de paia” e fumo... Ainda de madrugada, em casa, minha mãe defrontava-se com um tanque cheio de roupas sujas, pesadelo de muitas mulheres, avermelhadas, da cor da terra, de seu esposo e de mais oito filhos... arteiros!

O autor é poeta, declamador e membro da Academia Bauruense de Letras.