| Alex Mita |
| Em Lençóis Paulista, famílias de italianos plantam uva para a produção de vinho para consumo próprio ou venda |
Os primeiros italianos chegaram a Lençóis Paulista por volta da 1889. Vieram como a grande maioria: para fazer a América se desenvolver. Mas aos poucos, eles foram inserindo por aqui sua cultura, seus hábitos alimentares. Para se sentirem mais perto do país de origem, eles começaram a fabricar vinho assim que as primeiras parreiras começaram a dar frutos.
Atualmente, os descendentes dos pioneiros fazem seus vinhos para consumo próprio e para venda. Na região, Lencóis Paulista, cidade conhecida pela cachaça, é a única - ou uma das únicas- a produzir vinho. Resgatando a tradição, os filhos e netos de italianos encontraram na bebida e na culinária um nicho de consumo e estão fabricando até presunto Parma, além do macarrão com massa caseira e polenta.
O Brasil é ainda a maior colônia de italianos do mundo, explica o presidente da Sociedade Italiana de Lençóis Paulista, Douglas Coneglian. “Nossa cidade foi colonizada por Bandeirantes. A partir de 1900, ela se transformou em uma cidade italiana, 88% da população era italiano, filho ou neto deles” , afirma.
Coneglian explica que os italianos, acostumados ao frio e miséria da época na Europa, acharam o Brasil uma maravilha. “O calor era praticamente 10 meses do ano. E usando uma expressão grosseira usada na época, diziam que aqui cuspiam no chão e nascia alguma coisa. Naquele momento, os senhores eram todos portugueses e o vinho era importado. O brasileiro não tinha costume de tomar vinho e eles não conseguiam largar a bebida. Era uma tradição muito forte.”
Ele lembra que para o italiano ficar feliz precisa de três coisas: “mangiare, bere e cantare” ou seja, comer, beber e cantar. “Aqui não tinha uva para fazer o vinho. Então, eles plantaram no início de 1900. Naquela época, a uva produzia uma vez ao ano. Já nas primeiras safras, eles começaram a prensar a uva e a fazer o vinho. Temos a maspela, uma das primeiras, feita em madeira para prensar a uva. Ela foi doada por José Luiz Paccola. Essa peça era do bisnono dele.”
Até a primeira colheita de uva no Brasil, todo o vinho era português, e como eles são extremamente patriotas, era um sacrifício ingerir a bebida. “Imagina como se sentiam os italianos. Se hoje somos muito patriotas, imagina naquela época? O vinho fabricado aqui era uma forma deles se sentirem mais próximos da Itália. O fazer o vinho, fazer a polenta, cantar as músicas fazia parte da maneira deles viverem fora do país.”
A moenda que hoje está na sociedade é uma relíquia. “Aqui no município não temos outra. Até hoje os italianos fabricam vinho por aqui. Quer seja para consumo da família ou para venda ao consumidor”.
A Rocinha, um bairro rural, conseguiu resgatar a raiz da família e faz um vinho artesanal, semiindustrializado. A família Zuntini também produz vinho, assim como José Antonio Aparecido Vieira.