08 de julho de 2026
Geral

Entrevista da semana: Henrique e Allisson

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 8 min

Se você quer entender que o papo não é furado
Melhor você se despir de algum conceito quadrado
A história aqui vem da rima, de jovens bem engajados
Do Allisson e do Henrique: sem preconceito, ‘chegado’
No ‘beat’ do hip hop eles transmitem o recado
Pra conhecer a cultura, melhor saber do riscado
Que os jovens cantam da rua, mas não se acham coitados

É a forma de serem ouvidos! De não ficarem isolados   
Se conheceram na escola, são de família sem posse
Um é daqui do Petrópolis, o outro é lá da metrópole
Eles respeitam quem acha a rima do rap pobre
Mas querem o nu da cultura do ‘nipe’ de gente nobre
Mano, o que vale pra eles: é o grito sem levar choque!

O papo livre, solto, aberto, sem rótulos, rimado, da Entrevista da Semana, é com Henrique Alves Thomas e Allisson Ferreira Vieira, rappers do “Além da rima”, dupla que vem encontrando eco entre jovens que tem na cultura hip hop mais do que uma forma de expressão, um meio de sobrevivência linguística e do “jeito de ser”, do trocadilho de contradição na direção do mundo isolado por muros, na zona sul, dos urbanoides surdos aos semelhantes que não se conhecem em sua própria aldeia.

Lá do grotão, no fundo, jovens como Henrique e Allisson têm no rap uma forma singular de ouvirem e serem ouvidos. Um é santista, o outro corintiano; um vindo do roteiro suburbano de São Paulo e outro da periferia de Bauru; um é mais chegado a debruçar os olhos em livros, o outro mais afeito a emprestar os ouvidos aos sons. É dessa mistura que a amizade emprestou o encontro com a música para “Além da rima” (nome artístico da dupla), permitindo que a cultura hip hop desse asas aos protestos, conselhos e manifestações através do rap nos versos, mesmo simples e diretos.

É da amizade construída desde o colegial, concluído juntos na escola do Jardim Petrópolis em Bauru, que nasceram os versos rimados de Henrique, paulistano de 20 anos, e Allisson, bauruense de 21 anos.

De rimas simples e muitas melodias ‘sampleadas’ (com trechos tirados de outras músicas e que ganham recortes eletrônicos, como, em seu estilo, muito se valeu James Brown), o rap é uma manifestação de identidade. Gostar ou não é direito de cada um. Ponto! Portanto, leia, sem trova e nem trovoada pseudocultural, o que eles têm a dizer:

Jornal da Cidade: Como a música ganhou vocês?
Henrique:
A música sempre esteve na minha vida. Minha mãe é religiosa e já cantava na igreja. Meus tios, um toca teclado, o outro, cavaco. Meus primos também são envolvidos com o samba. Isso desde pequeno, quando comecei a cantar na igreja Adventista e lá já treinava escrever os primeiros hinos. Fui crescendo e conhecendo outros estilos, outros tipos de manifestações.

Allisson: A música esteve presente na minha vida como ouvinte. Nunca pensei em escrever uma música, ou cantar uma música. Sempre ouvi bastante, mas sempre na minha. Dos 15 anos pra cá é que despertou essa vontade de misturar os sons, entender as levadas, as batidas. Daí, eu comecei com o rap diretamente. E foi graças ao Henrique que passou a me mostrar o que ele conheceu em São Paulo. Aí rolou.

JC: O que te chamou atenção no rap?
Allisson:
As críticas políticas, as mensagens de vida. É um estilo muito livre pra escrever e de letra fácil mesmo. E, se você estiver feliz, escreve disso. Se estiver triste, escreve disso na boa. É uma linguagem livre que traz identificação com minha realidade.

Henrique: O rap traz mesmo identificação. Eu curtia muito samba raiz, reggae. E tem uma fase para cada som com participação maior na minha vida. Mas no rap eu entrei pra dentro do movimento, porque é uma maneira de ser, da cultura hip hop, do estilo de se vestir, de se expressar.

JC: O adolescente, em especial, quer ser ouvido ao invés de só ouvir os adultos?
Henrique:
Isso faz uma diferença no caso do rap. Porque a adolescência é um momento de muita dúvida e de muita coisa rolando na cabeça também. Todo mundo quer dizer o que o adolescente deve fazer, o que não deve fazer. Todo mundo acha que entende você, mas nem para pra te ouvir. Então o que eu percebi é que o adolescente sacou que o rap, no nosso caso, é o que parece que entende a gente, porque fala do que eu falo, das coisas que estão na minha cabeça e não na cabeça do que as outras pessoas falam. E parece que entra mais fácil no  cotidiano de cada um. Uma mensagem de ajuda, de ser ouvido, através da música. E, se o rap conta nossa realidade, é normal que a gente se identifique com ele.

Allisson: A verdade é que nunca uma pessoa mais velha vai achar que um adolescente sabe mais do que ela. E, na cabeça do adolescente, isso tudo trava, porque, se ele nem consegue falar, ele sente dificuldade em ser ouvido para tudo no mundo dele. E aí há o perigo dele se revoltar. A música tenta dizer isso: que esse jovem tem opinião própria, que ele acha alguma coisa sobre esse mundo dele. A música responde a muitas dessas questões que estão na cabeça dos jovens. E também tem o fato do rap falar da realidade que esse jovem vive e não da realidade das outras pessoas.

JC: Mas o que o rap faz ou o que ele gera de diferente na cabeça da moçada?
Henrique:
É uma troca de energia entre essas pessoas. Você está cantando e dando sua mensagem, mas sua mensagem é igual ou muito próxima de quem está ouvindo você. Então quem canta e quem ouve é como se fosse uma conversa juntos através da música e libera essa energia. E não são só protestos, são mensagens também. É uma parada que, às vezes, parece até religioso. A gente sente isso na reação das pessoas, na forma de ouvir, de curtir. Percebemos o que tocou nessas pessoas, sobretudo no adolescente. O rap tem várias vertentes. No nosso, nós tentamos trazer uma linguagem mais universal, que não se prenda a uma idade. Nós queremos conversar pelo rap com todas as idades e trazendo também mensagens sobre autoestima, para procurar uma saída se estiver vivendo um problema.

Allisson: O rap tem essa responsabilidade de saber o que ele vai dizer. A rima é simples, até é, mas a energia e a identificação sobre o que cada um está vivendo é o que importa pra gente. E nós temos de ter a responsabilidade que você pode estar formando um adolescente a partir do que você está cantando.                   

JC: Vale a crítica para a harmonia do rap, onde o som é muito igual?
Henrique:
Olha, harmonicamente falando, até um ponto eu concordo. Mas é porque o rap é muito mais preocupado com a parte de mensagem, da rima, do que com a variação da melodia. Isso, comparando com outros estilos, ele não alcança as mesmas variações de outros estilos, mas isso também está recebendo novas influências. E, se você tem um som vindo do jovem da periferia, que muitas vezes nem estudo tem, é claro que vem mais natural. Mas o rap já vem ganhando misturas e o jovem vai ouvindo e cantando e isso vai crescendo aos poucos. E a estrutura é mais eletrônica. E tem a parada de críticas de que a gente não faz música, por causa do ‘sample’ e tal. Mas a gente tem a visão de que o ‘sample’ é renascer uma música, reviver ela de alguma forma. O rap noventista, não o americano, que é de mercado e tem mais influência de muitos estilos, vem ganhando novos estilos. Mas a verdade é que o rap é feito de forma bruta, na base, da periferia, e retrata a situação de lá, do que vive e sabe esse jovem de lá.   

Allisson: Se o jovem está lá na rua, na periferia, é claro que ele não tem estrutura nem para montar suas rimas e é claro que ele tem falta de informação musical para pensar uma batida nova, uma mistura de som mais interessante. Mas isso não invalida nada. Ao contrário, fortalece o fato de que é um som que vem dessa condição e representa essa condição em tudo, na letra, nas mensagens e no som. De boa, é natural que isso aconteça. Mas vai evoluindo porque hoje tem Internet e aí o jovem vai ouvindo outras batidas, vai ouvindo e pensando em ‘sample’ e vai mexendo. O importante disso tudo é a mensagem do rap. Mas já tem muito artista que estão misturando vertentes. Tem o Dom L do Nordeste, o Emicida experimentando, o Rapadura do Nordeste que mistura com baião. Acho que o rap já está bem musical, evoluindo bastante.

Perfil: Henrique
Pais: Selma e Joel
Time: Corinthians
Filme: Homens de honra
Livro: Navio negreiro
Nota 10: Aos MCs
Nota zero:  Ao Eduardo Cunha
Namoro: ‘Na pista’
Música: O mundo é um moinho
Estudo: Quero fazer ciências sociais

Perfil: Allisson
Pais: Alda Regina e Pedro Adão
Time: Santos
Filme: Cidade de Deus
Livro: Atabaque e tamborim
Nota 10: Ao hip hop
Nota zero: Ao Eduardo Cunha
Namoro: Thaiane
Música: Dias de luta, dias de glória
Estudo: Quero fazer cinema