Será que é verdade tudo o que a vovó e o vovô me diziam sobre o mundo? Eu nunca vi nada do que eles me disseram e nem mesmo conheci alguém que tenha visto tudo aquilo. Como era mesmo o mundo que eles viviam? Era quase um conto de fadas, vovô dizia que toda manhã ia na padaria comprar pão fresquinho enquanto vovó fazia um café em um daqueles antigos prédios que arranhavam os céus da cidade grande, ele dizia que a cidade era cheia de vida, alegria e pessoas andando pra lá e pra cá com os seus carros, roupas belíssimas e sorrisos no rosto, mas hoje eu já não vejo nada disso, apenas ruínas e mato é o que sobrou das grandes cidades.
Apesar de tudo isso, o que eu ficava espantado mesmo era com os bichos que vovó dizia que andavam por aí, animais saídos de contos de fadas, eu me lembro que ela sempre me contava com um brilho nos olhos sobre os gigantes de quatro patas que andavam sobre a Terra com suas trombas que soltavam vivas a natureza, de animais majestosos que ostentavam grandes jubas e que eram tidos como os reis da natureza! Já imaginou um rei animal? Será que existiam príncipes e princesas também?
E o que dizer dos gigantes que viviam nos oceanos, ela dizia que eles eram capazes de virar navios inteiros com suas forças, mas que eram, em sua maioria, pacíficos e não desejavam mal a ninguém, existiam animais ferozes também que defendiam os oceanos com todos os dentes contra aqueles que nele adentravam, nas longínquas terras geladas do norte grandes animais eram vigias eternos de um reino que há muito desapareceu, eram brancos como neve e que nela podiam se esconder como bem quisessem. Quando eu era pequeno ficava encantado com as histórias dos seres alados que ululavam pelos céus, e qual era o nome deles mesmos? Acho que eram chamados de anjos, meu avô me dizia que eles amavam fazer acrobacias, que podiam prever o clima e que o seu canto era tão poderoso que eram capazes de encantar até mesmo o mais frio dos homens. Viviam toda sua vida nos céus e criavam seus filhos em árvores tão grandes que talvez até pudessem alcançar a lua.
Às vezes eu duvido que tudo isso realmente tenha existido, que esse reino encantado cobria não só o lugar onde vivo, mas o mundo todo. Como isso pode acabar? Como algo tão maravilhoso pode desaparecer? Vovô dizia que foi a ganância dos homens que tudo levou, em sua sede por poder e riquezas eles destruíram tudo, consumiram tudo até não restar mais nada. Tenho amigos que zombam de mim, dizem que nada disso aconteceu, que são apenas contos de fadas sem sentido, que nunca aconteceram. Mas eu não acredito neles, por que motivo meus avós iriam mentir sobre isso? Me enganar e me iludir a respeito de algo que nunca existiu.
E o mais importante: como poderiam fingir o brilho dos olhos quando me falam de coisas tão belas ou as lágrimas quando me contavam sobre a dor e o sofrimento que os próprios homens provocavam. Eu quero acreditar que um dia esse mundo existiu, que um dia o meu mundo foi encantador, mágico, que no lugar desse gigantesco deserto sem vida existia alegria, paz, amor e principalmente vida e que mesmo que seja só uma esperança idiota, acreditar que um dia talvez eu possa viver nesse mundo perfeito, nesse reino encantado. Eu quero acreditar em como era vivo o meu mundo!