10 de julho de 2026
Articulistas

O ineficaz controle da inflação

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 4 min

A inflação não tem dado trégua. O governo federal perdeu a mão no controle dos preços, o que é lamentável sob todos os aspectos. Em ambiente recessivo seria, eu disse seria, previsível que tivéssemos queda nos preços pela pura falta de demanda, mas não é isso que se observa.


O governo federal, através do Banco Central, tem se utilizado da política monetária na tentativa de fazer com que os preços fiquem comportados. Ao restringir o crédito e notadamente ao elevar a taxa básica de juros da economia, o Banco Central sinaliza aos agentes econômicos que é o momento de adiar o consumo, quer porque as taxas de juros para aplicação financeira estão mais atrativas, quer porque os juros para tomar empréstimos estão mais salgados. Mas isso não tem sido suficiente.


No governo Dilma Rousseff os juros despencaram, atingindo a mínima de 7,25% ao ano, e quando os preços fugiram ao controle, os juros subiram até atingir o atual patamar de 14,25% ao ano. O país, portanto, opera com o dobro dos juros praticados há três anos, e não consegue recolocar a inflação nos limites da meta fixada (4,5% ao ano, com tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo).


Vivemos a típica inflação de custos. Parte da explicação para a escalada de preços vem da memória inflacionária, a tal da indexação da economia. Muitos preços, cerca de 30% do total índice oficial de inflação, projetam para o futuro a inflação passada. Outros 30% seguem de alguma maneira a lógica dos preços internacionais, notadamente refletem a oscilação do dólar. O restante 40% dependem do comportamento oferta e procura. Entendo que o ponto central para o controle inflacionário está em interferir nesta lógica descrita. Inflação passada elevada é por si só realimentadora de inflação futura. Dólar nervoso potencializa esta realimentação. O controle dos preços via inibição da demanda neutraliza somente parte do problema.


Comungo do pensamento liberal, que indica a soberania do mercado, mas esta lógica somente funciona bem quando este mercado é composto por muitos vendedores, ou seja, a quantidade de ofertantes é de tamanha grandeza que não há como um ou poucos isoladamente controlarem os preços, o que infelizmente não é o caso brasileiro.


O mercado interno é concentrado. Setores importantes e com grande influência na cadeia produtiva, podem ser classificados como oligopolizados, ou seja, poucos vendedores, podendo, inclusive, se organizar em cartéis, manipulando preços. Não estou afirmando que é isso que vem ocorrendo, mas é possível que isso ocorra. Muitas organizações, mantidas com robustos recursos internacionais, não abrem mão de suas margens de lucro e, mesmo com sinais de enfraquecimento da economia, impõem seus preços, transferindo aumento de custos a toda cadeia produtiva até atingir o bolso do consumidor final.


A pergunta que surge é: se de fato este diagnóstico estiver correto, como intervir neste mercado sem que as regras do próprio mercado sejam desrespeitadas? Primeiramente se efetivamente a imposição de preços vem sendo colocada em prática já houve desrespeito à lei de mercado. Segundo, é possível intervir no mercado através do diálogo. Penso em acordos setoriais.


É preciso que a equipe econômica, notadamente o ministro da Fazenda, Nelson Barbosa, lidere este diálogo. O país não tem mais tempo para esperar. O crescimento da economia está comprometido e elevar os juros, como fatalmente ocorrerá na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (programada para o fim deste mês) não mudará substancialmente o estado de letargia em que os agentes econômicos operam. Teríamos que ter um choque de oferta, quer via investimentos, quer via importação, para que os preços caíssem substancialmente, mas isso não se dará no curto prazo. No passado, o país optou por congelamento de preços, pela criação de mecanismos de desindexação como a URV, que depois virou Real, mas agora é o momento de agir não no mercado, mas com o mercado.


Considerando os oligopólios existentes no País, os setores mais importantes têm nome e sobrenome e é sim possível um pacto pela retomada do crescimento. Evidentemente que o governo tem que fazer sua parte, controlando suas contas, economizando, enfim, resgatando a confiança dos agentes econômicos, mas uma coisa não invalida a outra. Inflação baixa é o primeiro passo para a retomada do crescimento da economia, mas a constatação é que o controle inflacionário tem sido ineficaz. Algo diferente deve ser tentado.


O autor é economista e articulista do JC