08 de julho de 2026
Articulistas

O rebeldes e suas causas

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min


Em 2013, tudo começou por causa de 20 centavos a mais nas tarifas do metrô, do ônibus e dos trens suburbanos. O Movimento pelo Passe Livre foi às ruas por mais de um mês, com pelo menos um ato por semana. Ontem, a tarifa do transporte público passou para R$3,80, em São Paulo, no Rio e em Belo Horizonte. O aumento não chegou a cobrir a inflação de mais de 10%. A manifestação, mais uma vez tem fundo ideológico e como objetivo maior o transporte “gratuito”. Também é verdade que os ônibus e trens vivem lotados e ninguém faz nada para melhorar o fluxo crescente de passageiros.

A novidade, anteontem, foi a volta dos black blocs, que a maior parte da população vê simplesmente como “vândalos”. Os jovens vestidos de preto e mascarados não têm uma organização formal. Nem lideranças que os representem. São um grupo político, motivado por uma ideologia inspirada no anarquismo e unificado em torno da opção pelo uso da violência. Seus alvos são símbolos do capital e do Estado – bancos, ônibus, repartições públicas. Atear fogo em sacos de lixo é a metáfora preferida para representar a classe política agonizante. Atacá-los é visto como a melhor forma de obter visibilidade e de alcançar as mudanças que pretendem.

Na verdade, não há nada de novo nesse ideário. O argumento de que a violência deve ser usada para alcançar mudanças políticas é antigo. Protestos que envolvem barricadas e janelas quebradas ocorrem desde o século 18 – vide a Comuna de Paris. Desde a antiga Grécia, a ágora, a praça do mercado foi o local do debate democrático entre os cidadãos. Hoje, a rua é o espaço de todos. É lá que o povo tem voz e exige ser ouvido. A Avenida Paulista virou um protestódromo, tendo o vão do Museu de Arte de São Paulo como ponto de partida. A arquiteta Lina Bo Bardi, autora do projeto do que já foi o maior vão livre do mundo, sempre sonhou com a área do Masp servindo de palco à expressão criativa do povo – a arte mais pura. Pena que a discussão ainda não se desdobre nas urnas, como deveria. Mas, é importante ressaltar que política se faz a partir do dissenso. Aquela bandeira do “precisamos chegar num consenso” só beneficia quem está acomodado no poder. No dia em que a política for consensual, a própria prática política se desconstruirá. Isto é, perderá a sua razão de ser para se transformar num diálogo romântico entre as partes.

É evidente que a violência praticada pelos black blocs isola o movimento. Espanta os cidadãos conscientes. Fazer-se temido é uma forma de buscar identidade e reconhecimento. Assim também nascem os bandidos, os rebeldes sem causa e toda sorte de irremediados.  Em 2014, a grande lição deu-se com a morte do cinegrafista Santiago Andrade, que morreu atingido por um rojão.  Curioso - além de trágico -, neste episódio foi a atitude do Sindicato dos Jornalistas, do Rio. Comentando a morte de Andrade, preferia responsabilizar a empresa jornalística onde o cinegrafista trabalhava (Band) por não ter fornecido equipamentos de proteção, em vez de pedir a punição dos verdadeiros culpados.

Alguns argumentam que a violência gera espaço na mídia para o movimento. Enganam-se. O espaço deixa de ser do movimento, a pauta passa a ser da violência e do vandalismo. As demandas do movimento ficam invisíveis e a agenda reivindicatória se perde. O teatro violento encenado por policiais e membros do black blocs torna mais difícil a tarefa de mobilizar por causas justas, como é, inegavelmente, a demanda por um transporte urbano mais eficiente. A PM também aprendeu muito.

A primeira coisa que o comando faz é convidar os líderes a discutir o roteiro da passeata, para respeitar o direito de ir e vir da população. “Polícia para quem precisa de polícia” (Titãs).  Como o acordo nunca é aceito, a polícia instituiu a Tropa do Braço. Policiais à paisana treinados em lutas marciais, seguem de perto os mascarados, filmam as depredações e depois encurralam os garotos para leva-los à delegacia. Os meninos de negro também avançaram. Rejeitam redes de apoio intelectual e material, afugentam as bandeiras partidárias. “Brahma”, só mesmo a cerveja. Quem sai do trabalho procura um barzinho para o happy-hour, até baixar a poeira e poder voltar para casa. Os lojistas, ao menor sinal de confusão baixam as portas e recolhem a mercadoria mais valiosa. Vitrina iluminada atrai paulada e pedrada, em vez de clientes. Como poetava o xingado Chico, “Na galeria, cada clarão é como um dia, depois de outro dia...” 

O autor é jornalista e articulista do JC