Não há melhor cerimonialista no mundo do que o calendário. Ele ajuda a gente a não esquecer datas, eventos, lançamentos, etc. Mais do que isso, faz com que certos acontecimentos flutuem acima da linha do tempo – como o elevador que vira helicóptero no final de “A Fantástica Fábrica de Chocolate”, de 1971.
Lá de cima, Willy Wonka, Charlie e vovô Joe viram o mundo aos seus pés. Para milhões de crianças, foi isso mesmo: mais do que um filme, uma levitação coletiva que completa 45 anos em 2016 e cujo encanto não dá sinais de sair do ar.
Pelo contrário: a história foi recontada em 2005. Bom, já sei que eu e minha amiga Nádia preferimos o de 1971, claro. Meu filho Gabriel, que leu o livro original, fica em cima do muro. Laísla, a pequena, tinha medo dos dois, mas algo fez a diferença para ela: “Gosto mais do que filme que o Willy Wonka dá uma cambalhota”. Ufa, é o primeiro. 45 anos depois como pode ainda haver tanta mágica nisso?
Nunca pesquisei a fundo as origens da história. Sequer sei de cabeça o nome do autor do livro. Gabriel diz que ele não gostou do filme de 1971. Não é o meu caso. Estudávamos de manhã e eu morava ao lado da escola. À tarde, saíamos em fila e ficávamos passando na calçada para atrapalhar a aula que ocorria na sala ao lado, com janelas abertas por causa do calor. Não só passando, mas cantando: “Umpa, lumpa, du-ba-di-du”. Nunca soube o que mais dizia e significava a letra, e melhor é não saber para não perder a magia.
Sei que Gene Wilder, o Wonka de 1971, segue recluso, aos 82 anos, em algum lugar dos EUA. Eu, se tirasse um bilhete dourado, gostaria de conhecê-lo. Assim como conhecer Peter Ostrum (o garoto Charlie), ator de um filme só, que abraçaria a carreira de veterinário exercida até hoje, aos 58 anos, no Texas.
E só agora me dou conta que temos, eu e o filme, praticamente a mesma idade: sou de maio de 71 e “A Fantástica...” foi lançada em junho daquele ano nos EUA. Talvez venha daí essa relação tão umbilical.
Um filme que marcou toda uma infância quando invadiu a “Sessão da Tarde” da Globo nos anos 80. E olha que nem de chocolate eu gosto. Já a fábrica só posso amar.
O autor é editor executivo do JC