08 de julho de 2026
Articulistas

Quintais

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 2 min

Das crianças que fomos, impossível esquecê-los. Era nos quintais que o faz de conta contava e acontecia. Do nada ou do muito pouco, tudo surgia. Uma quadra de basquete, por exemplo, era lance de puro improviso: uma tabela de madeira coava a bola por um balde sem fundo. Três contra três, meninos correndo, jogo disputado, bolas encestando e meninas torcendo. Depois, a vez do  circo. As cortinas então se abriam, palco amarrado com velho lençol. Eu e o meu irmão virávamos palhaços. O  Rex, cachorro vira-lata,   virava leão. Ensinado, dava a pata e, sob aplausos, pegava vaidoso bolinhas no ar. Lucinha, a menina das pernas bonitas, por mérito incontestável  era a bailarina principal. Tanto no  jogo, quanto no circo, o preço da entrada era o possível: cinco palitos de fósforo, queimados não valiam. Circo desmontado, o quintal virava restaurante. Nele, comia-se de verdade. Pires, garfinhos de plásticos, mesinhas de caixotes,  arroz, feijão, salada e groselha, tudo roubado da cozinha da mãe.  Os mesmos palitos pagavam o prato único. Depois, martelo, serrote e prego. O quintal virava fábrica de carrinhos de rolimã. No  asfalto, ralávamos braços e joelhos, feridas da nossa atrevida velocidade. Mudavam-se as disputas, mas não, as meninas, sempre torcendo pelos mais bonitos de nós. Embaixo da mangueira, à sombra, o balanço e o banco. Entre uma brincadeira e outra, ousávamos namoricos inocentes. Vivíamos e sonhávamos  nesse mundo-quintal, nenhuma razão para dele sair. Ali, tudo tínhamos; ali, tudo éramos: super-heróis, bandidos, mocinhos, atletas, mágicos, garçons, trapezistas, músicos, craques de bola... Um mundo gordo de  sonhos e de búricas e  de estilingues e de bolas e  de fieiras e de piões e de álbuns e figurinhas, então disputadas, mãos em conchas,  nos tapas do “abafa”.

Ontem o quintal, hoje a telinha de cristal líquido. Meninos do hoje em sofisticados games, por vezes jogos de um só. Dedos hábeis, concerto no teclado-celular. O papo rolando: whatsApp, Instagram, Facebook.  Ontem  bolas de meia, hoje escolinhas de futebol. Ontem patinetes de madeira feitos no quintal, hoje skates sofisticados em pistas especiais. Ontem a lembrança, hoje   apenas a saudade.

Não quero e não posso, contudo,  emitir qualquer juízo de valor, nenhuma comparação devo fazer, apenas constatar. Recuso a velha arenga de que “no meu tempo” tudo era melhor. A mim, basta saber que a vida era assim e hoje não é mais. Tudo mudou, nós mudamos,  o tempo passou. Os quintais, por mais triste que seja, também passaram.  E as gerações continuam passando, cada uma com o seu lenço e o seu necessário documento. Nenhuma pedra, nas  corredeiras da vida, fica no mesmo lugar.

O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras - ABL