09 de julho de 2026
Articulistas

A insustentabilidade brasileira

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

“O Brasil não tinha nada de errado, mas também nada que indicasse que seria a Coreia do Sul”, disse o Prêmio Nobel de Economia Paul Krugman, quando esteve em São Paulo, em 2008, fazendo conferência. Era uma referência à ideia surgida na virada do século, que o Brasil tinha iniciado a sua caminhada em direção ao nível dos países desenvolvidos, com a formação do bloco dos grandes emergentes, o BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China, mais tarde BRICS, com a África do Sul. E acrescentou que o “mercado tinha gostado por um bom tempo, porque isso trouxe muito investimento, mas veio a forte crise mundial e o governo, que já vinha tropeçando em anos anteriores, teve menos credibilidade. Não conheço bem a política brasileira, mas o governo tem problemas específicos. Acusações de gastos descontrolados, corrupção, tudo isso diminui a credibilidade e é complicado manter uma boa perspectiva.”


Veja este trecho de reportagem da revista IstoÉ de 2010: “O Brasil está conseguindo o raro feito de extrair opiniões quase unânimes mundo afora. São poucos, pouquíssimos, os economistas que ousam discordar de que o país entrou em um ciclo de desenvolvimento sustentado. E mais: são ainda mais raros aqueles que duvidam da capacidade de o Brasil se tornar uma das maiores potências econômicas do planeta em um par de dezenas de anos.” Esse era o ufanismo do início do governo da Dilma. E agora, onde está o sonho da grande potência? Ainda não despertamos. A confusão que reina em Brasília é semelhante aos últimos instantes do pesadelo, em que se remexe na cama para acordar assustado.


A humanidade chegou ao estágio atual de civilização por meio de mudanças que ocorreram, ao longo do tempo, nas formas de criar riqueza. Alvin Toffler propôs o nome de ‘ondas’ aos períodos em que as formas de produção de riqueza têm sido acompanhadas por profundas mudanças sociais, culturais, políticas, filosóficas, institucionais, econômicas e religiosas.  A primeira onda foi a mudança provocada pelo desenvolvimento da agricultura; a segunda pelas revoluções industriais e a terceira é a que estamos vivendo em que o conhecimento deixou de ser um fator adicional para ser o  meio dominante na criação de riqueza.

As mudanças começaram em pontos isolados – Assírios e caldeus, na Mesopotâmia; egípcios, chineses, gregos e romanos; incas e maias na América. Com o Império Romano a Europa passou a concentrar o desenvolvimento e depois a difundi-lo através do colonialismo, tornando-o global. Esse avanço, naturalmente, não foi uniforme. Há países ainda com predominância da onda agrícola, outros da onda industrial e outros já esgotando a onda do conhecimento para marcar a quarta, ainda a ser definida.


E o Brasil? O Brasil é um arquipélago no oceano da globalização, com muitas ilhas de desenvolvimento na primeira onda, apenas modernizada no aspecto técnico da produção agropecuária; algumas ilhas na segunda onda, com uma indústria que avança e recua, não conseguindo sustentar o desenvolvimento. E algumas ilhotas da terceira onda, de produção de riqueza pelo conhecimento. Falando do potencial de nossas universidades, Oded Grajew, em artigo na Folha diz: “Mas essa imensa riqueza de conhecimento, esse fantástico potencial, tem contribuído em sua plenitude para melhorar o país? Acredito que não. Sabemos que uma boa parte da produção científica não ultrapassa os muros da academia.”


A capacidade de criar riqueza cresce na mesma direção das ondas – a indústria gera mais riqueza que a agricultura e a aplicação do conhecimento mais que a indústria. Com uma indústria sendo sucateada e uma universidade que não consegue patentear a sua produção de conhecimentos e com um governo cujas metas não são de produção de riqueza, mas de sua distribuição, o desenvolvimento do Brasil se tornou insustentável. Não tem jeito? Tem, mas para ser sustentável tem que esperar a Lava Jato completar a limpeza para começar uma nova fase, quem sabe, duradoura.


O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru