| Priscila Medeiros/Divulgação |
| Em visita à ETA, Rodrigo mostra nível que a água atingiu |
Os imóveis abastecidos pelo Rio Batalha ficarão sem uma gota de água nas torneiras neste fim de semana. Devido ao processo lento para recuperação das bombas que ficaram submersas durante a inundação do sistema de captação da Estação de Tratamento de Água (ETA), a previsão é de que 140 mil moradores da cidade que recebem água do manancial sigam “na seca” ao menos até o início da próxima semana, quando, no melhor dos cenários, uma bomba pode voltar a funcionar.
Diretor da Divisão de Produção e Reservação do Departamento de Água e Esgoto (DAE), Heber Soares Vieira explica que os motores das bombas já foram avaliados e, inicialmente, não apresentaram qualquer dano. Porém, para que possam voltar a operar, precisam ser higienizados, procedimento que levará vários dias até o abastecimento ser totalmente normalizado.
Nessa quinta-feira (14), o DAE tentava finalizar o levantamento de orçamentos junto a diversas empresas de Bauru e de outras cidades para contratar, em caráter emergencial, a que oferecesse o menor preço para realizar a limpeza dos quatro motores da ETA, que são de grande porte e pesam cerca de duas toneladas, cada. “Eles foram atingidos por muita lama e terão de ser desmontados, lavados com água e um produto específico, secados em estufa e montados novamente”, adianta.
Mas, como as empresas só dispõem de uma estufa, a higienização será feita em um motor por vez. “Nossa expectativa é expedir a ordem de serviço à empresa vencedora amanhã (nessa sexta-15) e o trabalho já começar. Mas cada motor levará de quatro a cinco dias para ficar pronto para uso”, afirma.
Gradual
Como a ETA precisa trabalhar com duas bombas, operando com três nos horários de pico, para garantir água a estes 140 mil moradores, a previsão para normalizar o abastecimento integralmente será de duas semanas. Contudo, ainda na semana que vem, é provável que a primeira bomba já volte a funcionar, assegurando o fornecimento de água, mesmo que com baixa pressão, para os imóveis localizados nas áreas mais baixas da cidade.
Segundo Vieira, os painéis de comando eletrônico do sistema de captação da ETA não foram submersos e, portanto, assim que as bombas forem recuperadas, será possível religar os demais equipamentos. Durante o tempo de limpeza do primeiro motor, talvez já haja melhora na qualidade da água da lagoa de captação, que recebeu lama dos desbarrancamentos registrados em seu curso durante as chuvas do dia 12, como os das rodovias Bauru-Ipaussu e Bauru-Piratininga.
Conforme adiantou o prefeito Rodrigo Agostinho na edição dessa quinta (14) do JC, pela grande quantidade de terra que a lagoa recebeu, seria impossível, mesmo que as bombas tivessem condições de uso, retirar água do local neste momento. Ele ainda pede economia de água neste momento crítico. “Faço um apelo para que a população economize água”, frisou o prefeito.
Serviço
Neste período sem abastecimento, caminhões-pipa do DAE poderão ser acionados por meio do 0800-7710-195 ou pelo 3235-6140 e 3235-6179 (para ligações feitas por celular). A autarquia saliente que a garantia de abastecimento será prioritária para hospitais, postos de saúde, creches, escolas públicas e residências ou instituições onde há pessoas acamadas.
Demanda
O DAE informa que vem tentando amenizar os problemas relacionados ao fornecimento de água por meio de caminhões-pipa. No entanto, a demanda está acima da capacidade de atendimento da autarquia, que conta com sete caminhões para atender 38% da cidade.
Da mesma forma, o sistema de telefonia do departamento também ficou congestionado, nessa quinta. Até as 17h, foram registradas 129 solicitações residenciais, 10 de serviço público e 87 comerciais. No mesmo período, foram atendidas 40 solicitações residenciais, cinco de serviço público e 30 comerciais.
Retrato da situação
Moradora da Vila Paraíso, Kelli Cristina Gonçalves Quiló, 34 anos, está grávida de 4 meses. Seu relato é um retrato perfeito da situação dos milhares de bauruenses “na seca”. “Estou desesperada e não tenho a quem recorrer. Aqui sou eu, meu marido, minha filha de 18 anos e meu cãozinho de estimação”.
Filas enormes e correria: em meio à falta d’água, dá-lhe bica
| João Rosan |
| Grande fila se formou em bica situada na quadra 27 da Castelo Branco |
Com o grave problema de falta de água nas torneiras, bauruenses já recorrem às conhecidas bicas d’água da cidade, que nessa quinta registraram grande movimento, com filas que passavam de 50 pessoas.
Cada um se vira como pode. A dona de casa Adrieli de Paula Rodrigues, 20 anos, está grávida de seis meses e percorreu 3 quilômetros a pé, para garantir o abastecimento.
Empurrando um carrinho de compras carregado com um galão de 20 litros e quatro garrafas de dois litros, ela saiu do bairro Jardim Solange e, logo cedo, já estava na fila de uma bica situada na quadra 27 da avenida Castelo Branco.
“Estamos sem água desde ontem (a última quarta-13). Não temos água para fazer comida, tomar banho e nem para beber. E preciso me manter hidratada por causa do bebê”, frisa Adrieli, que mora com o marido e o filho de 2 anos.
30 minutos na fila
A lavradora Claudete Constantino de Jesus, 42 anos, contou com a ajuda do filho Yuan Victor Araújo, de apenas 10 anos. Após 30 minutos na fila, enfim, conseguiram encher as garrafas e o balde. “Meu filho acordou 6h30, tomou café e já veio pra fila”, diz Claudete.
“Estou com dor nas costas, mas não tem jeito. Precisamos da água”, disse Yuan, calculando que precisaria voltar mais duas vezes na bica até o final do dia. “Moramos na Vila Ipiranga. Lá, estamos sem abastecimento desde a manhã desta quarta”, pontua Claudete.
Um dos últimos da fila - que já somava mais de 30 pessoas por volta das 10h de ontem -, o ajudante geral Roberto Carlos da Cruz, 48 anos, morador do Jardim Ferraz, estava sem o líquido para fazer comida. “O jeito é enfrentar a fila. Sem água não dá para ficar”.
Correria
A mesma cena se repetiu na bica do DAE em frente à USP, na rua Henrique Savi: fila! Proprietário de um restaurante no Centro, Alexandre Naka, 41, corria para manter o empreendimento aberto.
“Estou sem água até para fazer o arroz. Se fecharmos, teremos muito prejuízo”, avaliou o empresário, que já tinha enchido um galão de 200 litros e vários galões com capacidades diversas. “Vou ter que fazer umas quatro ‘viagens’ por dia”.
Na mesma bica, o motorista Jesus Carlos Garcia, 61 anos, buscava água para a mãe idosa de 81 anos. “Ela não pode ficar sem água. A gente ainda se vira, mas para minha mãe é complicado”, lamenta.