08 de julho de 2026
Articulistas

Quintais e calçadas

José Roberto Segalla
| Tempo de leitura: 3 min

É possível que algum desavisado possa pensar, ao ler este título, que eu vá escrever sobre o estado das calçadas de Bauru ou a respeito da lei popularmente chamada “Lei das Calçadas”, sobre a qual me debrucei na elaboração e me empenhei muito para sua aprovação quando servi como vereador, mesmo com o ex-vereador Marcelo Borges me alertando de que isso me custaria a eventual reeleição à vereador. Não, o que vou escrever é apenas um complemento ao adorável artigo da lavra do conspícuo professor e acadêmico Roberto Magalhães, publicado neste jornal no último dia 11, intitulado “Quintais”.


De fato, quando crianças, os quintais de nossas casas eram o nosso mundo. No quintal da casa dos meus pais, imenso para a dimensão do terreno, 11x44 - no qual a casa ficava na frente, no alinhamento da rua -, além de fazermos tudo o que o articulista escreveu, ainda jogávamos disputadíssimas partidas de futebol envolvendo, muitas vezes, mais de cinco jogadores para cada lado. Nesse mesmo quintal colhíamos mangas de duas enormes mangueiras que lá havia e cujos troncos atuavam como traves para o nosso futebol e nos alimentávamos dos ovos das galinhas que minha mãe criava.


Contudo, nosso mundo não terminava nos limites dos nossos quintais e sim se prolongava até as calçadas das frentes de nossas casas. À noite, após termos feito as tarefas escolares e termos ajudado nossas mães enxugando os pratos e panelas que havíamos utilizado na última refeição do dia, íamos para a calçada onde ali nos reuníamos com os meninos e meninas vizinhos para darmos início às brincadeiras de rua.


Muitas vezes nossos pais ali estavam também, proseando com os vizinhos, todos sentados em cadeiras à frente das casas. Sob os olhares “meio” atentos deles, que nos vigiavam com os cantos dos olhos, púnhamo-nos a brincar de salva, mãe-da-rua, garrafão, pique e tantas outras brincadeiras denominadas, no geral, de pega-pega. Quando havia uma bola e não havia meninas, até nos aventurávamos a fazer malabarismos com a pelota, competindo para ver quem a controlava por mais tempo sem deixá-la cair ao chão.

Se houvesse meninas presentes e uma bola também, a brincadeira passava a ser a de queima, que consistia em jogar a bola para atingir o adversário, “queimando-o”. As crianças que não gostavam dessas brincadeiras ou simplesmente não queriam naquele dia brincar, aproveitavam o encontro para trocar embalagens de maços de cigarro vazias, ou então caixinhas de fósforos dadas de brinde, ampliando assim suas coleções. Os pais não ficavam conversando até tarde, já que no dia seguinte deveriam trabalhar, levantando bem cedo. Deste modo, a partir das 21h ou 21h30 os pais já chamavam seus filhos para dentro de suas casas, pondo fim às nossas brincadeiras até a noite seguinte.         


Quando não podíamos brincar ou conversar nas calçadas porque estava chovendo ou por outro motivo qualquer - era comum ficarmos de castigo por alguma malcriação feita durante o dia -, ouvíamos novela, isso mesmo, ouvíamos, porque as novelas eram radiofônicas. já que ainda não havia televisão, ao menos por aqui. Mesmo quando os primeiros televisores aportaram em Bauru, poucos eram os que podiam adquiri-los, surgindo dai a expressão televizinhos. Para nós, crianças, não fazia a menor diferença não vermos o que ouvíamos, pois a imaginação e a sonoplastia davam vida a Jerônimo, o herói do sertão, e a seu fiel companheiro moleque Saci.


Não tínhamos playstacion, videogame, tablet, mas quem brincou de carrinho, puxando pela calçada um filtro de motor de caminhão amarrado com arame ou barbante, ou então se divertiu, “até a tampas”, como então se dizia, empurrando pela calçada, com o auxílio de um arame mais grosso cuja ponta havia sido dobrada em “U”, um simplório aro de bicicleta, não sente, até hoje, que essas novidades eletrônicas fizeram falta.


Como bem disse o Roberto, não estamos aqui a tratar de saudosismo e nem de comparações de épocas para saber qual a melhor, mas no fundo eu penso que, se por qualquer razão inimaginável essas comodidades modernas repentinamente desaparecessem, os velhos de hoje saberiam ensinar nossas crianças a brincar sem elas, arriscando-me a dizer que elas se divertiriam tanto quanto, ou até mais.              


O autor é engenheiro, professor e promotor público aposentado