| Reprodução/Facebook |
| Patrícia, Cristiane e Damiana foram mortas na própria casa |
“Meu tio matou a minha mãe, a mulher dele e minha avó”. Foi com esta frase estarrecedora que uma menina de apenas 5 anos resumiu um crime bárbaro que chocou Bauru ontem e do qual a sociedade precisa tirar alguma lição. Supostamente por ciúme, o jardineiro João Paulo Barros de Oliveira, 24 anos, assassinou, a pauladas e facadas, a companheira Patrícia Pâmela Rondora Peixoto, 27 anos, com quem mantinha relacionamento há dois anos.
A sequência de agressões seguiu contra a avó e irmã de criação de Patrícia: Damiana Pereira Lopes, 72 anos, e a operadora de caixa Cristiane Lopes Vendramini, 32 anos. Esta última é mãe da criança que presenciou a cena de horror e, por pouco, não teve destino semelhante. Segundo a PM, ela conseguiu se desvencilhar do acusado, acordou o avô e pediu ajuda a vizinhos.
| Fotos: Douglas Reis |
| João Paulo confessou o crime e alegou que matou porque a companheira, Patrícia, era ciumenta; argumento refutado pelo delegado |
| Casa da família, na quadra 3 da rua Jerônimo Hernandes, Vila Industrial, onde ocorreu o crime por volta das 5h dessa terça-feira (19), na Vila Industrial |
Depois ter cometido o triplo homicídio, ocorrido por volta das 5h na casa da família, na quadra 3 da rua Jerônimo Hernandes, Vila Industrial, João Paulo fugiu no carro de Cristiane, onde colocou uma bicicleta no porta-malas, foi para uma rua afastada, ateou fogo no veículo, pegou a bicicleta, foi pedalando para a casa do pai, trocou de roupas e, ironicamente, foi cuidar de flores, uma vez que é funcionário de um box na Central de Abastecimento de Bauru (Ceasa), onde foi preso.
O jovem, que tem histórico de envolvimento com roubo e tráfico de droga, confessou a autoria dos homicídios e alegou que já vinha se desentendendo com a companheira, cujas brigas eram motivadas por ciúme, conforme disse o titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG), Kleber Granja. “Ele alega que já havia tendo distúrbio no casamento. Ele diz que o ciúme exacerbado de Patrícia gerou todo o crime”, pontua Granja.
Premeditado
João Paulo alegou ao delegado que, inicialmente, teria sido encurralado e agredido com um pedaço de pau e com a faca, justificando, então, ter agido em legítima defesa. “Só que as evidências que foram constatadas não demonstram isso. A Patrícia foi morta deitada, numa posição que sugere que ela estava dormindo. De acordo com relato da testemunha protegida, a indicação é que ela tenha sido agredida primeiro”, detalha Granja.
“Na sequência, Cristiane foi atingida a pauladas. O agressor percebeu que elas ainda gemiam e finalizou o crime com a faca. Damiana teria fugido para a sala e agredida com a mesma faca, que foi localizada no local, próximo ao corpo dela”.
Ainda segundo o delegado, João Paulo responderá por triplo homicídio qualificado com três agravantes. “A primeira qualificadora é que foi sem chance de defesa. A motivação fútil é a segunda qualificadora e a terceira é o feminicídio, porque é um crime contra mulher dentro da relação de convivência”, explica.
Os corpos foram levados ao Instituto Médico Legal (IML) para necropsia. Havia a suspeita de que uma das duas mulheres (Patrícia ou Cristiane) estaria grávida, mas isso não foi confirmado até o fechamento desta edição. O velório é realizado na sala 2 do Centro Velório São Vicente, Praça Dom Pedro II, 4-39, Centro. O enterro é hoje, no Cemitério Cristo Rei, em horário a ser definido.
Assassino vendia flores
Por Marcele Tonelli
Parece ironia ou até uma brincadeira sem graça do destino. João Paulo Barros de Oliveira, acusado de ter assassinado brutalmente e com as próprias mãos sua namorada e outras duas mulheres da mesma família, trabalhava há três anos como vendedor de flores em um boxe da Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) de Bauru.
O perfil de assassino frio descrito pela polícia em nada parece se encaixar com a rotina do jovem jardineiro, de 24 anos, descrito por um funcionário do local como uma pessoa gentil, prestativa, trabalhadora e que gostava de plantas.
“Estamos todos perplexos aqui. Foi difícil acreditar. Ficamos nos questionando sobre isso o dia todo. Ele nunca apresentou um comportamento agressivo, era um bom funcionário, inclusive, e sempre foi gentil com os clientes. Parecia uma pessoa normal”, comenta Valtier Motte, permissionário e ex-patrão de João Paulo.
Antes de atuar na Ceagesp, ele trabalhava com serviços gerais e chegou a ser ajudante de calheiro.
| Douglas Reis |
| Heleonito caiu enquanto buscava ajuda de vizinhos |
‘Acabou com minha família’, diz idoso de 90 anos após o crime
Sentado em uma cadeira, o aposentado Heleonito Vendramini, 90 anos, que é deficiente auditivo, tentava entender a tragédia que vitimou a esposa (Damiana), a filha de criação (Cristiane) e a neta Patrícia. “Ele (João Paulo) acabou com a minha família”, diz.
No momento do crime, a menina de 5 anos acordou o avô, que dormia sozinho em um quarto, e ambos saíram à procura de ajuda. De acordo com o sobrinho de Damiana, Valdinei Arruda da Silva, 36 anos, o aposentado chegou a se ferir.
“Ele caiu na rua quando tentava correr e machucou a mão”, disse, preocupado com a saúde do idoso, que colocou um marca-passo na semana passada, com previsão de retirada de pontos nesta quarta. “Não sei como ele não sofreu um infarto”, disse Arruda.
Em meio a amigos e familiares, Heleonito ainda se preocupava com a esposa morta, com quem conviveu por mais de 40 anos. “Eles vêm com o caixão para buscá-la?”, perguntava.
| Fotos: Douglas Reis |
| Capitão PM Paulo César Valentim: a criança estava em choque |
| O delegado da DIG, Kleber Granja |
De acordo com capitão PM Paulo César Valentim, a criança teria presenciado todas as mortes, inclusive a da própria mãe, e estava em estado de choque.
“Ela se feriu levemente em um dos braços, pois o acusado a segurou em determinado momento da ação”, disse.
A menina foi encaminhada ao Conselho Tutelar, onde, na companhia de uma tia, recebeu acompanhamento médico e psicológico. No entanto, o juiz da Vara da Infância e Juventude é quem vai decidir quem ficará com a guarda da criança.
Mais bárbaro
“Um dos crimes mais bárbaros dos últimos tempos em Bauru. A sequência de agressões traz um cenário muito complicado. Mesmo com a confissão dele e da testemunha, são depoimentos que podem ser revertidos num tribunal.
A tendência, que a Polícia Civil acredita, futuramente, é que ele tenha uma prisão exemplar”, declarou o delegado da DIG, Kleber Granja.
À procura de porquês após chacina
São muitos os questionamentos feitos quando assassinatos tão brutais tiram a vida de três mulheres e deixam toda uma família destruída
Perplexidade! Quando fatos, como este crime que tirou a vida de três mulheres em Bauru acontecem, todos ficamos chocados e nos perguntamos o que teria levado a uma tragédia dessas, que poderia ter atingido a qualquer um de nós.
O que fazemos a seguir são questionamentos. Não se trata de uma verdade absoluta. Esses apontamentos em nada tiram a tristeza, a revolta e a indignação diante do assassinato dessas três mulheres.
| Douglas Reis |
| João Paulo ateou fogo no carro de Cristiane; depois, foi trabalhar como se nada tivesse acontecido |
Uma violenta emoção, provocada por ciúme, por exemplo, seria suficiente para provocar um ato desses? Será que qualquer um de nós seria capaz de cometer uma barbaridade dessas em um momento de fúria?
Enquanto os policiais, a ciência e os especialistas em mente humana buscam respostas, o que podemos fazer é discutir o assunto.
Fique atento aos sinais
Assassinos em potencial, muitas vezes, não despertam suspeitas. E, mesmo quando têm antecedentes, nem mesmo a convivência diária é certeza de que um perigo tão real e imediato será identificado. Essa “fúria adormecida” pode passar anos sem emitir um sinal claro de que virá à tona de forma descontrolada. Sinais existem e já começam na infância.
Há algo de errado, segundo especialistas, quando a criança tem recorrente hábito de maltratar animais, por exemplo. E quando demonstra gosto repetido por ver sangue e inclinação pelo desrespeito a limites da convivência familiar e comunitária.
Já adulto, o indivíduo torna-se possessivo, impulsivo, “dono da verdade, pouco disposto a manter uma vida social saudável e tão ligado ao que julga ser amor como ao ódio. Também não evoluem em maturidade emocional. Quando o pior acontece é sinal, claro, de que o ódio venceu.”
Fronteira
“É possível dizer que o homicida passional é movido por inúmeros sentimentos como a posse, a falta de autoestima, rejeição, etc.”, explica a advogada Elis Helena Pena em recente estudo publicado no site Consultor Jurídico. “Sentimentos estes que o deixam cada vez mais dependente da vítima”.
Ela acrescenta que crimes “envoltos” no sentimento de paixão abrem a necessidade de avaliação sob pontos de vista da filosofia, da sociologia, da psicologia e, claro, do direito.
“A fronteira existente entre o consciente e inconsciente do ser humano que se deixa levar por fortes emoções, e se torna um homicida passional, parece bastante tênue. A razão foge ao seu alcance”.
Na fuga, tentou despistar
A fuga do assassino em Bauru também contribui para a suspeita de crime premeditado. Depois de cometer a chacina, o jovem jogou os dois caibros usados nas agressões em um terreno baldio em frente à residência, dirigiu o Gol de Cristiane até uma estrada de terra no bairro Boa Vista, cerca de dois quilômetros do local dos assassinatos.
Lá, o rapaz incendiou o carro junto com lençol e toalha que ele usou para se limpar das marcas de sangue no corpo. No porta-malas do veículo, João Paulo levou uma bicicleta, usada para chegar até a casa do pai dele.
Depois de tomar banho e trocar de roupa, o criminoso foi trabalhar como se nada tivesse acontecido. Segundo a PM, o acusado teria ateado fogo no veículo para fazer com que a polícia acreditasse que um ladrão tivesse matado as mulheres.
Na Central de Polícia Judiciária (CPJ), João Paulo se negou a falar com a imprensa. No entanto, a reportagem acompanhou a reconstituição do incêndio ao veículo na estrada de terra. Em nenhum momento, o jovem demonstrou estar preocupado ou arrependido de ter matado as três mulheres.
| Fotos: Douglas Reis |
| Caibros e faca usados por João Paulo para matar as três |
Dá para impedir?
Maior especialista brasileira em criminologia, Ilana Casoy é autora de quatro livros sobre atos extremos de violência e tem um novo objetivo: escrever a história de Gil Rugai, acusado de matar o pai e a madrasta e dar um desfalque na empresa.
Em entrevista a “Isto É”, Ilana questiona: “A Febem é cheia de jovens que delinquiram pela primeira vez. Será que não mereciam uma avaliação a mais? Como prender um cara antes de matar 13? Como intervir na infância, para resgatar o jovem do futuro macabro?”.
Caso parecido em 2008
Inocêncio Francisco do Carmo chegou a ficar foragido em 2010, mas acabou preso definitivamente em 2014. Ele cumpre pena de 36 anos e oito meses por ter matado, em 20 de setembro de 2008, em São Desidério, oeste da Bahia, três pessoas da mesma família. Motivo: ciúme. Não conseguindo reatar com a ex-mulher, Lucélia Amélia Gomes, tirou a vida dela, da irmã Sandra Amélia Gomes e do primo das duas, Darlei Moreira Melo, com facadas na entrada de uma casa.
Gente sem compaixão
O livro “Mentes Perigosas” (2008), da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, aborda um pouco da história de gente sem arrependimentos. São os “esvaziados de emoção” que sofrem tais transtornos de personalidade. A obra sobre quem mata friamente já vendeu mais de 2 milhões de exemplares e segue atraindo uma legião de leitores.
| Douglas Reis |
| Pai de Patrícia, Márcio já suspeitava das atitudes de João Paulo |
‘Alertei minha filha’
Pai de Patrícia Pâmela Rondora Peixoto, vítima que mantinha relacionamento com o autor do crime em Bauru, Márcio Ricardo Peixoto, 46 anos, disse que João Paulo sempre passou a imagem de “uma pessoa rancorosa”.
“Ele não olhava nos olhos quando falava comigo. Alertei minha filha que ele não prestava, mas ela dizia que era o jeito sossegado dele. No fundo, a gente nunca imagina uma tragédia assim na nossa família. Só Deus para nos confortar nessa hora”, disse, contendo as lágrimas. Estudiosa e dedicada, Patrícia era formada em direito e tinha o sonho de passar na prova da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). “Outra vontade dela era cursar medicina. As três que morreram eram pessoas ótimas, que só fizeram o bem na vida delas”, define.
Saiba mais e confira o vídeo
Chacina em Bauru: três mulheres são assassinadas e criança de 6 anos sobrevive