08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sussurros de um rio

Lázaro Carneiro
| Tempo de leitura: 2 min

Eu nasci livre como todos os rios, pássaros, animais e plantas. Eu vivia como uma nuvem vive ao sabor do vento, da forma mais natural possível. Eu seguia meu curso pelo leito original que me foi traçado pela natureza,  minhas águas esbarravam em capins, taboas e árvores.


Havia um respeito mútuo entre nós, eramos cúmplices. Eu respeitava os banhados que ornamentavam meus traços de córrego e eu, orgulhoso, murmurava cerrado abaixo, agregando águas que umideciam a pequena bacia geográfica que me nominou.


Sempre fiz meu papel de rio de forma responsável. Eu era incumbido de dar vasão às águas das chuvas que, apesar de serem fartas e intensas, chegavam até mim de forma gradual. As enxurradas esmoreciam-se ao romper os grandes e providenciais obstáculos verdes que ornamentavam e escondiam meus carrancudos barrancos que sempre souberam cuidar das enchentes


Nas grandes estiagens, cabia a mim dar de beber às raízes daqueles que me protegiam de assoreamento e cheias repentinas que, de forma abrupta e voluptuosa, poderiam me tirar o brilho e a calma. E assim animais, aves e seres humanos bebiam de mim, homens e crianças entretinham-se em minhas águas. Isso era tão bom que outros homens vieram, e foram tantos homens que cheguei a um ponto que não suportei mais a presença humana.


Hoje sou um arremedo de rio sem mata ciliar e sem banhado onde eu espalhava meus excessos de água que de forma comportada alagava o taboal e moitas de capins e nesse brejo havia vidas.


Tiraram de mim a natureza de rio e me impuseram um volume de água que não consigo carregar, e vez ou outra me revolto e saio por aí sobre o asfalto e calçadas. Em busca do meu caminho verdadeiro, não tenho escrúpulos ao invadir casas e quintais, levar comigo carros e outros fetiches cultuados pelo homem que me destrata. Em momento de desespero já levei comigo vidas humanas, mas é que eu não sou mais um rio, sou isso que esta aí e fui criado pelos homens que, com medo e nojo, me olham à distância.