08 de julho de 2026
Geral

Falta de anticonvulsivo chega a Bauru

Marcele Tonelli
| Tempo de leitura: 4 min

Malavolta Jr.
Comprimidos acabam no sábado e família teme que Nivaldo volte à rotina das crises convulsivas

Há dez anos, o professor de língua portuguesa, Nivaldo Aranda, 58 anos, não sabe o que é uma crise forte de convulsão. Epilético desde os 17 anos, ele conseguiu interromper as fortes crises após começar a tomar o anticonvulsivo Hidantal, o único em décadas que atingiu o efeito esperado.

A importação do composto Fenitoína, base da medicação tarja vermelha, que era importada do México, e tinha ampla distribuição em todo o País, principalmente por seu baixo custo - menos de R$ 9,00 - foi proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em abril do ano passado. Em Bauru, a falta do remédio na rede pública e nas drogarias foi sentida no início deste ano e gerou temor nos pacientes que, assim como Nivaldo, necessitam da medicação e que, agora, travam uma luta à espera de respostas e em busca de composições similares.

Drama

Apreensão que tomou a rotina da família Aranda. Há semanas, Nivaldo e a esposa, Soraya Sakata, 50 anos, perdem noites de sono preocupados e apreensivos com o final da última cartela de Hidantal.

“Percorremos todas as farmácias da cidade e ligamos em dezenas de drogarias da região, a resposta era sempre a mesma. O remédio não está mais sendo distribuído. É desesperador para quem depende dele. Essa medicação é quase uma cura. Antes dela, eu era internado a cada 40 dias”, conta Nivaldo. Após saber da proibição, ele conta que chegou até a enviar e-mail à Anvisa e à  Presidência da República solicitando respostas.

Além da readequação, ele teme pela interrupção abrupta do tratamento. “Não é fácil encontrar um remédio que gere o efeito esperado, é um processo que, às vezes, leva anos. E meu organismo se acostumou, tenho medo das consequências. Temo mais ainda pela minha família. Não queremos voltar ao pesadelo de antes. Até na UTI eu já fui parar por causa de convulsão”, emociona-se o professor, que também atua como coordenador de área na Secretaria Municipal de Saúde.

Os comprimidos de Hidantal de Nivaldo durarão até esse sábado. “Depois, só Deus sabe. Estou desesperado”, acrescenta.

Mais reclamações

A luta de Nivaldo toma dimensões ainda maiores na Internet. O site Reclame Aqui registra 215 queixas sobre a falta do Hidantal no Mercado.

“1,5% da população brasileira é convulsiva. Eles deviam ter pensado mais antes de tirar assim essa medicação do mercado”, reclama Nivaldo.

Médica neurologista em Bauru, Andrea Nieri também considera um problema a forma como a medicação foi tirada de circulação.

“Não recebemos nenhum comunicado oficial. Isso é um problema porque era um anticonvulsivo bom e bastante indicado. E o processo de troca da medicação com os pacientes é lento, na maioria dos casos”, avalia a médica.

Ela aponta, no entanto, que a Fenitoína endovenosa é utilizada nos hospitais.

Anvisa

Por meio de nota, a Anvisa esclareceu que a Fenitoína não está suspensa no País, mas sim os produtos fabricados com matéria-prima (insumo) da empresa Sinbiotik (México).

Segundo o órgão, os fabricantes nacionais de Fenitoína já informaram a retomada da produção e que estão regularizando o abastecimento do mercado. “Seria importante questionar com as autoridades locais se houve processo de compra deste medicamento pelo poder público para repor os estoques”, diz a Anvisa.

A agência afirma que os produtos  que estão no mercado são seguros. Os lotes suspensos já foram recolhidos e não estão à disposição do consumidor. A Anvisa não informou qual o motivo de fato da suspensão e proibição.

Prefeitura corre para regularizar o estoque

A Secretaria Municipal de Saúde de Bauru informou que desde a data da proibição não possui mais o Hidantal em seu estoque. E que ainda não existe um remédio genérico, portanto, a substituição por um similar deve ser feita pelo médico.

A pasta diz que tem tentado, sistematicamente, regularizar o estoque de Fenitoína, “no entanto em todos os fabricantes cotados, nenhum está com a produção regular para suprir a demanda”.

Saiba mais

Convulsões são contrações musculares involuntárias de parte ou de todo o corpo, decorrentes do funcionamento anormal do cérebro. Têm duração de 3 a 5 minutos, mas dependendo do grau podem durar horas ou até dias. Pode ocorrer após traumas, AVC, “e, na nossa região, por contaminação por meio do cisticerco, mais conhecido bicho de porco”, comenta a neurologista Andrea Nieri.

Pode haver eliminação de fezes, urina e o paciente pode apresentar dentes travados e salivação abundante. Aja da seguinte forma: afaste a vítima de lugares perigosos, como áreas com piscina e com objetos cortantes. Proteja a cabeça com almofada, mantenha o corpo de barriga para cima e a cabeça lateralizada, para evitar engasgos, mas deixando-a livre para agitar-se. Não coloque nada na boca do doente. Pode ser que aja sangramento. Retire objetos, como óculos, colares e anéis. Afrouxe roupas. Observe a respiração. Leve ao serviço de saúde após crise.