| Douglas Reis |
| O Jornal da Cidade reproduziu em Bauru a foto histórica de Iain MicMillan, feita em 1969, em Londres, com os jornalistas e músicos Ricardo Bizarra, Luiz Beltramin, Marcus Liborio e Nélson Itaberá para ilustrar matéria sobre faixa de segurança |
Por que é tão difícil fazer as pessoas pararem na faixa? Será que esta conduta só é culturalmente possível em lugares como Londres? Sim, onde a prática de respeitar o pedestre é tal que o fotógrafo Iain MicMillan, em 1969, não teve dificuldades para o registro do quarteto da histórica banda Beatles, imagem imortalizada na capa do disco Abbey Road?
Em Bauru, quatro jornalistas, providencialmente músicos, em alusão, reformulam a questão e a imagem e se perguntam por qual razão entre nós a conduta de educação londrina não cabe? A indagação vem a partir do anúncio de campanha feita, esta semana, pela presidência da Emdurb de que o foco da educação para o trânsito neste ano será: “Pra Bauru parar na faixa”!
A pergunta de Ricardo Bizarra, Marcus Liborio, Luiz Beltramin e Nélson Itaberá é comum: Por que a maioria dos motoristas que cruza a faixa de pedestres da rua Gustavo Maciel, na altura do Supermercado Confiança, para o veículo durante a travessia do consumidor? Por que este mesmo comportamento não se repete nos demais pontos da cidade?
Se os pedestres forem John Lennon, Ringo Star, Paul MCartney e George Harrison o motorista vai atropelar ou parar?
| Alex Mita |
| Pedestre a metros da faixa se arrisca e atravessa fora dela |
E é esta missão que as áreas envolvidas com o trânsito da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano (Emdurb) vão focar nas ações deste ano: na mudança da “cultura do mau comportamento” entre motoristas e pedestres.
O anúncio foi feito pelo presidente da Emdurb, Nico Mondelli Jr., ao falar sobre a campanha de educação para o trânsito, com ênfase para as ações educativas e de difusão da direção defensiva ao volante. “Neste ano vamos trabalhar a mudança cultural do motorista. O condutor tem de parar para o pedestre nas faixas. Vamos direcionar a campanha para o respeito às faixas de pedestre e insistir em todos os formatos da campanha na mudança desse comportamento”, ressalta. As ações, segundo ele, também vão incluir o pedestre. “Não é possível que os bauruenses que passam pela rua Gustavo Maciel parem para quem está entrando em um supermercado e não façam o mesmo nos demais endereços da cidade. Mesmo nas imediações de escolas e hospitais, o motorista invade a faixa e não para. Mas o pedestre também utiliza muito atalho. Encurtar o caminho é uma decisão perigosa na maioria dos casos e o resultado é o aumento no número de atropelamentos”, argumenta o presidente.
Para tanto, Mondelli informa que o setor de educação para o trânsito e mobilidade intensificará ações de orientação. “Vamos continuar envolvendo a Polícia Militar e todos os órgãos que participam desse trabalho que não terá seu alcance sem o engajamento de todos. Nas palestras nas escolas, nas apresentações para crianças, nos cursos, nos panfletos, nas ações educativas do GOT, na distribuição de material, na campanha publicitária. Todos os elementos vão focar a passagem do pedestre na faixa”, reforça.
Crescem atropelamentos de crianças em 2015
A equipe de gerenciamento das ações de trânsito da Emdurb, através do Garat, está alarmada com o aumento de atropelamentos envolvendo crianças em 2015. Da mesma forma, preocupa a já reconhecida, e elevada, incidência de motocicletas envolvidas em acidentes, com ampla maioria de jovens ao volante, conforme as estatísticas.
Na contramão da queda nos registros de atropelamentos em 2015 (132 casos contra 169 no ano anterior), foram 69 crianças identificadas como vítima nessas ocorrências. Em 2014 foram apenas 10. Nem a Emdurb tem resposta para o problema, até agora (veja dados nesta página). Conforme os registros tabulados pela empresa, com base nas ocorrências oficiais cadastradas pela Polícia Militar, os indicadores caíram em todos os itens, menos em dois.
“Explodiu o número de crianças atropeladas e apareceram crianças e adolescentes nos índices de acidentes com vítimas. Boa parte dessa situação é em razão de atropelamentos, seguido do uso de motos com a presença maciça de jovens. Isso é preocupante. Vamos continuar atuando nas escolas, mas vamos apostar na campanha de rua para reverter isso”, comenta Nico Mondelli, presidente da Emdurb. Dos registros, também chama atenção o aumento de vítimas com ferimentos graves. Quase dobrou. Outra questão específica destacada no quadro é que, apesar da queda no número de atropelamentos, o número de vítimas foi maior no ano passado, no comparativo com 2014. “Não é possível que o comportamento das pessoas não mude. O trânsito gera perdas emocionais, muitas irreparáveis, nas famílias e ajuda a superlotar o serviço de urgência do pronto-socorro. Os plantonistas são obrigados a parar outros atendimentos para socorrer aos casos de trauma, a maioria e pacientes jovens e usando motos”, enfatiza.
Comportamento
Na rua Marcondes Salgado, a faixa, associada a dois semáforos, em frente ao Boulevard, é ignorada por muitos. Para a auxiliar administrativa Aline Alves, é preciso um dispositivo perto da rotatória. “Fica distante para quem vem do meio do bairro, como eu. Aí a maioria entra na rotatória, sem faixa”, diz. Solange Ferreira arriscou ainda mais. Ela atravessou pelo meio do canteiro e da rua com o neto Enzo, de 9 anos. “Falta instalar faixa na outra direção, senão fica longe e a gente encurta caminho”, opina. No semáforo da Nações Unidas, perto da Praça da Paz, trabalhadores costuram carros e motos nas quatro pistas, além da alça da marginal, para alcançar o ponto de circular. A 50 metros dali estão a faixa e o semáforo. Equipe da Emdurb acha que a faixa suspensa, que fica nivelada com a guia da rua, vai ajudar. “Um dos pontos com situação ideal para instalar é a Otávio Pinheiro Brisola, em frente à FOB”, menciona Nico Mondelli Jr. Comportamento correto só na Gustavo Maciel. A passagem de consumidores do supermercado, com sacolas e carrinhos, parece um certo “start” para os motoristas. “Alguns chegam a sinalizar com a mão para o pedestre passar”, conta o funcionário do supermercado, Paulo Roberto Leandro Nunes.