Assistimos hoje, com enorme perplexidade, as notícias de ataques sexuais supostamente cometidos por imigrantes de origem africana e provenientes do Oriente Médio, em especial da Síria, contra mulheres europeias. A mídia nacional reproduz, obedientemente e sem nenhuma investigação, aquilo que a mídia internacional veicula. Porém, ainda há vozes no mundo que questionam e cabeças que não são tão facilmente manipuladas em todos os lugares. Vejamos.
Em primeiro lugar, não é surpreendente que os países imperialistas - com sua impiedosa e incessante sede de conquista pelos recursos naturais dessas regiões - agora que começam a colher os efeitos das próprias guerras e calamidades que ali financiam, também comecem (de forma impiedosa e incessante) uma campanha de difamação contra os milhares de refugiados que não tiveram outra escolha se não buscarem abrigo em seus territórios.
Sabemos que as muralhas físicas conseguem dividir muito menos as pessoas do que as muralhas ideológicas, em especial aquelas alicerçadas no preconceito, na xenofobia e no medo do desconhecido. Insinuar que os imigrantes islâmicos são todos agressores sexuais e adeptos de valores ultra-machistas é aquilo que a imprensa europeia agora quer convencer o mundo e seus próprios cidadãos.
As campanhas difamadoras aos islâmicos vão desde as obscenidades publicadas pelo libelo fascista Charlie Hebdo, que não conhece limites e nenhum respeito (nem mesmo por crianças que morreram de forma trágica nesses conflitos, onde a França é uma das grandes protagonistas) e vai até políticas de Estado que exigem agora que os imigrantes passem por “cursos de etiqueta” e de valores culturais dos europeus. Obrigatório aos “primitivos” e “ignorantes” imigrantes islâmicos. O país mais avançado nessa política não poderia ser outro que não a nossa velha e conhecida Finlândia - o tradicional e patético país da reação do século XIX e que até hoje não avançou para além do código civil napoleônico.
Mas afinal, o que os sábios finlandeses querem ensinar aos islâmicos? Seu governo quer ensinar que as mulheres no ocidente são livres, não podem ser compradas e que, se estiverem usando roupas provocantes, não devem ser atacadas. Ao que parece, a Finlândia desconhece o seu próprio hemisfério... Insulta os imigrantes e, de uma só vez, insulta também os movimentos feministas que lutam por igualdade em todos os países do ocidente, a inteligência de todo o planeta, que conhece muito bem a tradição do casamento por dinheiro em nossa região e, por fim, a sociologia e a estatística criminal, que nos provam que a maioria das violências sexuais são praticadas não por estranhos, mas por pessoas conhecidas e, frequentemente, da mesma família das vítimas.
Talvez a Finlândia - tradicional recordista em suicídios no mundo - junto com toda a Europa, devesse estudar um pouco mais sobre outros países que já receberam centenas de milhares de imigrantes ao longo do século XX. Na América do Sul temos um país chamado Brasil, país do carnaval. Aqui recebemos - além dos próprios europeus - milhares de imigrantes do Oriente Médio, em especial da Síria e do Líbano. Aqui mesmo em nossa cidade, temos muitas famílias de origem síria-libanesa e que compõe cargos e posições de destaque em todas as áreas. Vieram para nosso país com parcos recursos, sem conhecer a língua e com uma cultura muito diferente.
Ao chegarem em nosso solo, não receberam “aulas” de como se comportar. Receberam cidadania plena e a liberdade de se associarem com quem quisessem, quando quisessem e da forma que desejassem. Aqui colaboraram com sua cultura, seus hábitos, seus conhecimentos, suas tradições, sua culinária e se destacaram em todas as áreas... do esporte até a medicina, como o hospital Sírio-libanês não nos deixa mentir. Nem tudo foi perfeito... Alguns certamente sofreram discriminação, não foram bem sucedidos... Afinal o nosso país tem governos e governantes muito difíceis. Além disso, a segregação contra afrodescendentes - aqueles que por 400 anos construíram nosso país com o suor de seu trabalho - está longe de ser superada.
Entretanto, se fossemos construir um museu das atrocidades cometidas contra a humanidade onde todos os países fossem representados, não há dúvidas que os países da Europa ocupariam certamente 3/4 de todo esse museu (só a Alemanha teria seu próprio pavilhão). O Brasil talvez ocupasse ali apenas uma sala.
No fim, a verdade é que mesmo com muito menos recursos e com muito mais dificuldades, recebemos muito mais imigrantes do Oriente Médio do que toda a Europa Ocidental junta e recebemos muito melhor. Quando ouvimos notícias difamadoras contra os povos árabes, lembremos que um pouco dessa difamação é dirigida também a muitos de nossos amigos, conhecidos e até familiares que vieram dessa mesma região. Aqui, no país do carnaval, temos virtudes e experiências muito ricas a passar e ensinar aos finlandeses. Neles damos goleada não só no futebol e no samba.
O autor é professor de história/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao