09 de julho de 2026
Carnaval 2016

Tradição da Bela Vista aposta no afro

Aline Mendes
| Tempo de leitura: 2 min

Fotos: Aceituno Jr.
Bateria ensaia e anima participantes para os ajustes finais 
Chiquinho Saes

Considerada uma das mais importantes figuras femininas da história negra, a saga da escrava Anastácia encerra com a Tradição da Bela Vista o desfile no dia 8 de fevereiro no Sambódromo de Bauru. E, por coincidência, a escola conclui também a série de reportagens do Jornal da Cidade com as escolas de samba bauruenses.

O enredo “Sua beleza a condenou a viver com máscara de ferro, escrava Anastácia, mártir e heroína” é uma homenagem à luta dos afrodescendentes por igualdade e valorização da cultura negra.

História e mito

Diz a lenda que a escrava Anastácia, nascida em 1740, além de curandeira era muito bonita e chamava a atenção pelos seus olhos claros, “herança” do homem branco que violentou e engravidou sua mãe.

Tentando evitar o mesmo destino, Anastácia não quis se “deitar” com o feitor da fazenda. Por isso foi açoitada e condenada a viver com uma máscara de ferro no rosto, retirada apenas para que ela fosse alimentada.

Após sua morte, em data incerta no Rio de Janeiro, passou a ser cultuada como santa, mártir e heroína. Seus restos mortais estavam na Igreja do Rosário e sumiram após um incêndio, contribuindo para que ela se tornasse um mito religioso na crença popular.

25 anos de ‘avenida’

Para o presidente da Tradição da Bela Vista, Francisco Saes, o Chiquinho, é importante tornar personagens históricos como Anastácia mais conhecidos, mas há outra motivação para essa escolha.

“Quando o Sambódromo de Bauru foi inaugurado em 1991, a Tradição da Bela Vista desfilou com o enredo afro sobre Chico Rei e pensamos que seria legal comemorar o Jubileu de Prata da nossa passarela do samba com outro tema da cultura afro”.

De acordo com ele quatro escolas estavam presentes na inauguração: Mocidade Independente da Vila Falcão (substituída pela Mocidade Unida), Deixa Falar (do Geisel), Império da Nova Esperança e Tradição da Bela Vista.

Esta última ficou alguns anos fora dos desfiles porque seus fundadores mudaram de bairro e criaram a escola-irmã Tradição da Zona Leste, do Mary Dota. “Mesmo sendo difícil manter as duas escolas, a Tradição da Bela Vista faz parte da história do Carnaval em Bauru e resolvemos voltar para ficar!”, conta Chiquinho.

“Fazemos a parceria das Tradições, uma ajuda a outra e une os bairros, mas a base dessa é o pessoal da Bela Vista. Muitos começaram lá atrás e retomaram com a gente”.

Samba-enredo

Autor: Vagner Nescau

Jardim Bela Vista hoje está em festa

A Tradição vem coroar escrava 

Anastácia

Mulher guerreira, a heroína popular

Filha da negra nobreza, beleza 

de se admirar

Pureza, doçura e encanto

Que fez o feitor se apaixonar

A dor da chibata não lhe 

corrompeu, herdeira

Foi perseverante jamais 

se rendeu, guerreira

Mulher de fibra e opinião

Exemplo forte pra uma nação

A fé persevera do povo

Do misticismo a religião

Na batida do tambor

No silêncio da oração

Escrava Anastácia, olhai 

a minha Tradição

Minha Bela Vista 

Hoje vem em procissão

Chamar pelo povo

E a melhora da nação.