| Alex Mita |
| Os amigos se visitam; ao fundo: Leonardo Couto, Lucas Dias, Guilherme Anzolin, Paulo Thauan, Gilson Guilhemre. Sentados: Filípe Okano e Julian Tatsuo |
Enquanto alguns pedem conselhos, outros contam novidades ou fazem surpresa. Ainda há os que desabafam, procuram por soluções ou, simplesmente, querem ver as pessoas queridas para matar a saudade e colocar o papo em dia. Sim, as pessoas ainda se visitam, embora com menos intensidade e precisando driblar a dura rotina do cotidiano que faz os dias voarem e consome o tempo de todos.
Mas o visitar ainda se faz presente, tanto em passadinhas rápidas para dizer “olá”, quanto em hospedagens mais longas, que duram férias inteiras. Na casa do músico e professor Lucas Dias, os amigos estão sempre passando para um churrasco, uma cerveja ou para marcar um jogo de futebol. E, quase sempre, as reuniões são regadas por música, no estúdio de Lucas, que é baterista.
“São amigos da época de colégio, do meio musical, enfim. Os assuntos são os mais variados. Falamos sobre música, política, religião, astronomia, extraterrestres, como estão nossas vidas e como está o comportamento da nossa sociedade atual. Também lembramos histórias engraçadas que vivemos juntos”, narra.
Visitar e ser visitado ajuda sair do ‘casulo’
Tudo parte da intenção, do pensamento e da atitude positiva em hospedar ou ser hospedo. O hábito permite abrir uma porta para novas possibilidades, porque se ouve o outro e é possível partilhar experiências pessoais com o mesmo, segundo o psicólogo Cláudio Salviano.
“A experiência de deixar o outro entrar em sua casa e ver como você é, com suas imperfeições, apesar de causar uma sensação desconfortante a princípio, talvez possa ser uma experiência única para ajudar a sair do casulo em que muitos estão se escondendo na atualidade”, analisa.
Em extinção
| Douglas Reis |
| Psicólogo Cláudio Salviano: “Assim como escrever cartas, visitar é um hábito em extinção” |
Ainda segundo Salviano, assim como escrever cartas, visitar é um hábito em extinção. E talvez seja mais difícil ir até o encontro do outro do que receber, o que ocorre pelo medo que despertam questionamentos como: “Será que não estarei incomodando?/Será que é a hora certa?/ O que Fulano dirá da minha visita?”.
Para que se revitalize esse bom hábito é necessário tomar a atitude, dar o «start», visitar, orienta Salviano. “Depois, por mais mecânico que possa parecer, elabore uma agenda das próximas visitas, evitando, assim, perder o vínculo e preservando sempre o bom senso”.
Um conselho pessoal do psicólogo para quem tem dúvidas sobre o valor de uma visita é ir até um hospital, asilo, orfanato ou comunidade terapêutica. “A pessoa vai se surpreender com o tratamento recebido. Eu estou há 25 anos visitando periodicamente pessoas internadas e cada vez percebo mais a importância da visita ao próximo”, finaliza.
‘Receber me faz lembrar meus pais’
| Douglas Reis |
| Anfitriã com orgulho, Helena Jorge Quialheiro de Oliveira posa ao lado da visita importada de Portugal, a cunhada Maria Irene Vasconcellos |
Amigas das antigas, vizinhas atuais e de outras épocas. Praticamente todos os dias a aposentada Helena Jorge Quialheiro de Oliveira recebe pessoas em casa, e orgulha-se disso. Quando a equipe foi até a sua casa fotografá-la, por exemplo, a encontrou hospedando uma cunhada portuguesa, Maria Irene Vasconcellos.
“Receber é muito bom, lembro-me do tempo dos meus pais. Eu sempre tenho um café, um bolinho ou uma goiabada para oferecer. Quando aparece uma visita à tarde é uma maravilha”.
Dia do Vizinho
Fã das obras da escritora Cora Coralina, intelectual que valoriza a amizade entre vizinhos em suas poesias, dona Helena decidiu fazer a primeira festa para comemorar a data em 1996, quando vivia na rua Benjamin Constant, endereço que a abrigou por mais de três décadas. “A gente fazia a festa na calçada e reunia dezenas de pessoas. Até hoje minhas amigas me cobram a reunião, então eu faço com muita alegria”, finaliza.
Os jovens também se visitam
Dizem por aí que o visitar é um costume mantido somente por aposentados; jovens provam que não é bem assim
| Aceituno Jr. |
| Visitar também é coisa de jovem; na foto, as amigas Laura Rodrigues dos Santos Cavalcanti e Sara de Castro Nassari |
Ir até a casa de amigos para conversar e deixar o tempo passar entre um sorriso e outro, uma lembrança do passado e projeções futuras é coisa somente de quem já está aposentado e tem tempo para isso, certo? Errado. Ao menos é o que provam os jovens entrevistados pelo JC nos Bairros.
Os amigos ainda se visitam, claro que com as limitações impostas pelo tempo e pelas funções atribuídas: trabalho, estudos, família, entre inúmeras outras atividades do cotidiano. Mas eles ainda se visitam, sim.
Exemplo é a jovem Laura Rodrigues dos Santos Cavalcanti, que, mesmo com as tarefas do lar, os cuidados com a filha pequena e muitos outros afazeres, ainda encontra tempo para visitar as amigas, como Sara de Castro Nassari, e, assim, manter a proximidade.
“Na época da escola a gente se via mais, já que as responsabilidades eram outras. Mas achamos fundamental manter essa relação viva com a presença. Sendo assim, procuramos nos reunir ao menos uma vez na semana. Quando não é na casa de um, é na de outro. E conversamos sobre os “bafões” da vida, coisas que vivemos juntas na época da escola, planos para o futuro...”, enumera a moradora do Parque Paulistano.
‘Ter amigos em casa é como ter uma família bem grande’
| Aceituno Jr. |
| Um brinde à amizade: Maria Inês Faneco recebe amigos constantemente; na foto: Faneco, Silvia Souto, Aparecida Santos, Maria Emília Lomba, Dóia Molina, Luci Luciano, Dialinda Augusto, Tereza Viselli e Pati Sodré |
Churrasco, rabada, dobradinha e cerveja. Cerveja sempre. Este é o cardápio que rega as visitas na casa da organizadora de festas e eventos Maria Inês Faneco. Ah, e muita conversa, é claro.
“A gente conversa sobre tudo. Tem época que viramos técnicos de futebol, depois engenheiros, presidentes do Brasil, médicos, temos diagnóstico para tudo. Somos também advogados, defendemos e condenamos muita gente. Quando falamos sobre política, muitas vezes precisamos parar, porque todos querem ter razão, aí já viu, né. Mas é tudo na amizade, coisa sadia”, conta Faneco, que ainda acrescenta que o grupo que a visita com frequência é formado por cerca de oito amigos.
Faneco trabalha com voluntariado, o que faz da sua casa um ponto de encontro para os que também querem ajudar. Segundo ela, as pessoas levam doações, ficam amigas e depois acabam voltando para um café.
“Tem uma praça em frente à minha casa. Muitas vezes fazemos churrasco lá, principalmente durante o dia. Mas eu adoro receber visitas à noite, também. Não gosto de ficar sozinha e conversar é muito bom. Ter amigos e reunir todos eles em casa é como ter uma família bem grande”, acredita.
De passadinhas rápidas a hospedagens
| Divulgação |
| “Nossa casa está sempre aberta aos que trazem boas energias”, comenta Mara De Santi; na foto: Sandro Paveloski, Tatiana Munhoz, Guilherme Sales, Raquel Luciano, Marina Ferraz, Marina de Santi (bebê), Rafael Sales (bebê), Thais Negrato, Karina Banwart, Gustavo Cândido, Fernando Oliveira e Mara De Santi |
Entre o visitar e o receber em casa, há quem opte por um ou outro e há quem fique com o meio termo. A jornalista e editora executiva Mara De Santi opta pelo meio termo, porém, com criança pequena, atualmente ela confessa a preferência por ter as pessoas em sua casa, já que não precisa se preocupar com o “reloginho” da pequena.
A família fica no topo da lista das visitinhas, mas os amigos têm o seu espaço garantido, tanto na agenda quanto em casa, afirma. “Isso inclui todo mundo: os meus, os do meu marido, da minha filha mais velha e os colegas de trabalho. No fim das contas, todo mundo que vem para casa é parte da família”, confirma.
Mara lembra que, na infância, as datas comemorativas, como Natal, Ano Novo ou Páscoa eram sempre comemoradas em casa. E o seu pai fazia questão de um grande almoço ou de uma boa ceia. “Muitas vezes, ele mesmo passava o dia anterior preparando ou temperando algum tipo de carne que seria o prato principal da festa. E a casa sempre ficava cheia de gente”.
Tradição que ela trouxe para o seu lar, onde há sempre quem apareça para uma “passadinha rápida”, e tome um cafezinho, ou quem chegue pra dormir. “Isso porque temos parentes e amigos que não são de Bauru. Entretanto, os convidados próximos geralmente ficam conosco para um churrasco ou petiscar alguma coisa enquanto colocamos a conversa em dia”, acrescenta. Sendo assim, o cardápio vai desde café com bolo até ceia de Ano Novos. “Mas o rei da reunião é sempre o churrasco”, finaliza Mara.
‘Em família é mais gostoso’
Pelos bairros, muitas famílias ainda guardam o velho hábito de “dar uma passadinha” para pelo menos “falar um oi” e ver como estão os parentes
| Quioshi Goto |
| Irmãs, Osmarina Carlos, Joana Carlos Arantes e Maria Antônia Carlos estão sempre juntas; para elas, as visitas semanais são obrigatórias |
“Eu já chego perguntando como elas estão e se está tudo bem. Primeiro vem a preocupação, né! Depois, uma fofoquinha aqui, outra ali, e muitas risadas juntas. E claro que não pode faltar um cafezinho, um bolo ou uma receitinha caseira qualquer”. Espontânea, dona Joana Carlos confessa que não fica longe da família, principalmente das irmãs Maria Antônia e Osmarina, que também moram em Bauru. Por isso, as visitas são frequentes entre elas.
Visitar, para elas, é não se distanciar da família. “É claro que a gente também vai na casa de amigos, mas estar entre os familiares é algo muito importante. E a gente não marca horários. Eu ligo para minhas irmãs, peço para fazerem um arroz doce, um bolo e digo que estou chegando. E sempre levo um biscoitinho, um pão”, alegra-se.
Já Maria, lembra que se sente estranha quando passa uma semana, que seja, sem ver as irmãs. E o assunto entre elas? Ah, isso não falta, garantem. Família, trabalho e receitas novas estão no cardápio da boa prosa.
“E também somos conselheiras umas das outras. Pergunto a opinião delas para tudo o que eu vou fazer. Damos e recebemos conselhos. Nossa amizade vem desde a infância. Somos em três irmãs na cidade, cada uma em um bairro: Vila Cardia, Jardim Solange e Leão XIII. Tenho mais cinco irmãos que moram em Agudos. E também visito os que estão por lá”, enfatiza Maria.
Quando os amigos se tornam família
| Quioshi Goto |
| No Geisel, a casa mais visitada é a das irmãs Olívia Arantes de Souza (Tia Olívia) e Maria de Souza (Tia Cotinha); na foto: Olívia, Natal Franco, Cristiane Neque, Cláudio Ribeiro, Daniel Galhardi, Michele Oliveira, Vinícius Machado, Raul Molina, Henrique Caumo e Maria de Souza |
As visitas na casa das irmãs Olívia Arantes de Souza (Tia Olívia) e Maria de Souza (Tia Cotinha) são tão frequentes que os visitantes já são considerados membros da família, garantem as donas da casa. E todo dia tem visita na residência que fica na quadra 5 da avenida das Laranjeiras, no Geisel.
Café, almoço e jantar são refeições que nunca são feitas com a mesa vazia. Sempre tem alguém para dividir a comida feita com todo o carinho por Tia Olívia e Tia Cotinha. E tal cordialidade é herança de família. “A gente lembra dos nossos pais. Fomos criadas assim. Na época da nossa mãe, dona Ana de Barros, que viveu no mesmo endereço, era ainda maior o movimento”, lembra Tia Olívia.
“O dia que vem menos gente em casa, vem 14 pessoas. Nós adoramos. Vem amigos, vem vizinhos, vem parentes. Vem gente do bairro e de outros bairros. Normalmente são pessoas cuja amizade cultivamos há longos anos. Mas todo dia aparece gente nova. E nós fazemos essas pessoas se sentirem em casa, por isso elas voltam. Que bom. Nossa casa nunca estará vazia”, diz Tia Cotinha, com alegria.
‘Rainhas’ do Carnaval
As “tias” do Geisel também são conhecidas por abrirem as portas de casa para o Carnaval. Cabeças da escola de samba Coroa Imperial, é na casa delas que os ensaios acontecem, assim como a montagem das alegorias e adereços. “Nessa época do ano, as visitas em casa se somam à turma do Carnaval. São ao menos 35 pessoas todos os dias circulando por aqui. E tem suco e café para todo mundo”, orgulha-se Tia Olívia.