10 de julho de 2026
Articulistas

O país da ziquizira

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O Brasil já vai a guerra. O inimigo tem menos de um centímetro e canta (ele não produz zumbido) vitória nas primeiras escaramuças. Atende pelo nome de Aedes Aegypti (diga édes egípci, segundo a pronúncia do Latim restaurado onde o “ae” ditongo vale pelo “e” aberto). O ministro da Saúde, Marcelo Castro, um “pouca prática” – novo no governo para acomodar o PMDB – confessou que “perdemos feio a guerra contra o mosquito, o inimigo número um do país”.  


É considerado, hoje, pior que a inflação e o desemprego; que o déficit nas contas públicas; que os efeitos da Operação Lava Jato e o impeachment de Dilma. O ministro da Defesa acaba de anunciar uma ação militar contra o Aedes para o próximo dia 13, que mobilizará boa parte dos 220 mil soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica. Dilma, combinou com o presidente Barack Obama, para dar uma mãozinha na invenção da uma vacina, já que o colega também tem esse problema no sul dos Estados Unidos. “ Vamos ganhar a guerra” – assegurou a presidente para revelar o incômodo causado pelas palavras do seu ministro.  Ainda bem que esse mosquito voa baixo, não sobe além do sexto andar e só trabalha das 9 horas da manhã à 1 hora da tarde.


Se Mário de Andrade (1913) estivesse vivo, certamente reformaria a expressão de Macunaíma, o herói sem caráter: “Pouca Saúde e muito Zika, os males do Brasil são”.  Mas, não há dados confiáveis sobre o número de brasileiros infectados com as várias modalidades de vírus que tem o Aedes como vetor. Calcula-se entre meio milhão a um milhão e meio de doentes, segundo as estimativas.  


O mosquito é o mesmo da dengue, da febre amarela, da chinkungunya, além do zika. Agora surge também a Síndrome de Guillen-Barré, que causa fraqueza muscular. Um exemplo de empreendedorismo, este culicídeo.  Pelo menos uma das vítimas é de Bauru, conforme solenemente anunciado pelo prefeito Rodrigo Agostinho e o secretário da Saúde Fernando Monti. Uma senhora da Pousada da Esperança, ainda por cima grávida e “autóctone” – na linguagem caprichada dos locutores de rádio.


O Zika tem esse nome porque foi detectado, pela primeira vez, numa selva de Uganda, África. Os escravos trouxeram para o Brasil o termo ziquizira. Significa aquela fase atrapalhada em que nada certo. Muito a propósito. A palavra africana aparece em Upa, Neguinho, de Edu lobo, cantada por Elis: “...valentia, posso emprestar; ziquizira, posso tirar; mas liberdade só posso esperar...” Uê, uêuê,uêuêê...


O ministro da Saúde, piauiense arretado, prometeu distribuir repelentes às 400 mil mulheres grávidas. Seria o Bolsa Zika? O problema é que ele se esqueceu de combinar com os fabricantes. Nenhum laboratório tem tanta capacidade de produção. Marcelo Castro consertou: os laboratórios do Exército vão produzir os repelentes. No dia seguinte o Exército esclareceu que não trabalha em tão larga escala.


Em maio de 2015, o então ministro da Saúde Arthur Chioro, disse não estar preocupado porque “é uma doença benigna e que tem cura”. Em novembro, o seu sucessor que aí está, Marcelo Castro, mandou a seguinte pérola às mulheres que pretendem ter filhos: ”Sexo é para amador, gravidez é para profissional”. Aconselhou as mulheres a adiarem a gravidez, até 2018. Um reverso do baby boom, para encher a nação de mais velhinhos. Agora, ele orienta para que ninguém viaje às áreas afetadas. Quer a instituição de barreiras para impedir o trânsito de infectados, como se os mosquitos entendessem de fronteiras.  


Dizem os entendidos que o Aedes Aegypti circula com mais frequência de fevereiro a abril. Chuvas intensas e calor ajudam a proliferação. Descobriu-se que a população está mais consciente. Os focos, em grande parte estão em áreas e prédios públicos ou terrenos abandonados onde são descartados lixos e inservíveis. Nos morros cariocas, durante as inspeções os agentes da Vigilância Sanitária são escoltados por traficante armados de fuzis. Segurança absoluta.


Como tudo tem um custo, eles ficam com os uniformes azuis dos mata-mosquitos.  Com eles têm acesso fácil às mansões da Zona Sul, onde proliferam joias, dólares e tevês de tela larga.

O mundo inteiro está de olho no Brasil e no Zika. Se pudessem, as grandes potências cancelavam as Olimpíadas, do Rio, em julho e agosto.  A dengue mata de 25 mil a 50 mil pessoas por ano no Planeta. E até agora ninguém se comoveu.


O autor é jornalista e articulista do JC