08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Carnaval, mentiras e zika

Marta Caputo
| Tempo de leitura: 2 min

‘Ei, você aí: Me dá um dinheiro aí!’. Não é surpresa, para aqueles afeitos à análise crítica, deparar-se com a voz solitária, monocórdica, impositiva e entediante de certo grupo bauruense, defensor do financiamento público para os festejos carnavalescos na cidade e seus argumentos pouco consensuais e muito menos transparentes para justificar tais investimentos nos festejos de Momo. Em todo o país, grupos dessa natureza são experts em chantagear e pressionar as administrações municipais, crendo-se merecedores do fruto da espoliação estatal.


Felizmente, nesse ano turbulento, cuja calamidade trazida pelas chuvas e pela explosão dos casos de dengue, chikungunya e zika (cujo primeiro caso em mulher grávida do Estado de São Paulo eclodiu justamente em nossa cidade), o questionamento acerca do financiamento público de tais festejos está ressoando em cada esquina: por que é que temos que concordar com isso, sendo que outras demandas, muito mais sérias e urgentes que essa, quedam sem recursos para minimizar suas carências?


Ora, se as agremiações são entidades devidamente regulamentadas e se o carnaval é assim tão rentável, do ponto de vista de movimentação turística e de retorno para os cofres municipais, por que é que as próprias escolas e blocos não tomam a frente da captação de recursos junto ao empresariado, ou realizam ações com o mesmo fim durante todo o ano, poupando os cofres públicos e a administração municipal tanto do ônus financeiro quanto do operacional, já que a Prefeitura arca com todas as despesas de infraestrutura do sambódromo, que, por sua vez, também já consumiu recursos para existir?


Além disso, com quais mecanismos a população pode contar, em termos de transparência da contabilidade dessa festa, para que tenhamos certeza de que a mesma dá mais lucros que prejuízos? Discutir a legitimidade do financiamento do carnaval bauruense, portanto, nunca foi tão importante. Novecentos mil reais é importância de grande monta, fazendo muita falta para o combate às doenças que estão comprometendo a saúde de todos, inclusive daqueles que ainda nem nasceram. Não interessa se a verba é carimbada para esse fim. Diversas prefeituras de nossa região reverteram tais montantes para minimizar os efeitos das chuvas, amparando gente desabrigada, doente e faminta, comprando ambulâncias ou fazendo reparos inadiáveis em UPAs e Postos de Saúde.


Já passa da hora de assumirmos uma postura mais comprometida com a coletividade, ao invés de cedermos aos caprichos daqueles que nenhum compromisso pretendem assumir junto à população, a não ser o de usá-la como massa de manobra para a consecução de seus próprios interesses.


Nessa estratégia, o quesito Pão e Circo é ingrediente fundamental de uma política calcada no engano, na ilusão e na subtração de direitos fundamentais. Para saúde da convivência democrática, não é nem um pouco recomendável aceitarmos calados imposições econômicas dessa natureza: é hora de discutirmos seriamente o financiamento público do carnaval em Bauru.

Atenciosamente.