10 de julho de 2026
Polícia

Superintendente da PF, Rosseti diz que delação premiada 'veio para ficar'

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

João Rosan
Rosseti destaca importância estratégica da Delegacia de Bauru
Quioshi Goto
Nova chefe da Delegacia da PF, Karen Dunder, toma posse hoje

Superintendente regional da Polícia Federal em São Paulo, Disney Rosseti diz ter entre suas maiores prioridades o combate à corrupção. Aos 41 anos, ele comanda uma das principais unidades da PF, que concentra o maior efetivo de policiais federais no País - são 15 delegacias descentralizadas, além das especializadas na Capital e das unidades localizadas nos aeroportos de Guarulhos e Congonhas.

À frente da superintendência regional desde setembro do ano passado, Rosseti está em Bauru para acompanhar, nesta quarta-feira (3), a posse da nova chefe da Delegacia de Polícia Federal de Bauru, Karen Cristina Dunder - a primeira mulher a assumir o cargo na cidade. Em entrevista concedida, na tarde dessa terça (2), ao JC, o superintendente falou sobre a importância estratégica da delegacia de Bauru em âmbito estadual.

Também destacou o trabalho realizado pelo Ministério Público, Judiciário e a própria PF, que, junto com “a sociedade civil engajada”, têm instituído uma “mudança de paradigma em relação à corrupção”. Rosseti discorreu, ainda, sobre o recurso da delação premiada, que ele considera uma “ferramenta que veio para ficar” após o uso “emblemático” na Operação Lava Jato. Leia, abaixo, os principais trechos da entrevista.

JC - Qual é o principal desafio da PF nos dias de hoje?
Disney Rosseti - São Paulo, por si só, é um desafio, já que responde por quase 40% do efetivo da PF no Brasil. É o estado mais rico do País, centro econômico e industrial, com o maior porto da América Latina, além do Aeroporto de Guarulhos, que responde por quase 70% do tráfego de imigrantes no Brasil. Tudo isso está sob nossa responsabilidade.

JC - Diante de tantas atribuições, qual é a principal meta da PF?
Rosseti - A PF possui uma gama de atribuições imensa, como diversos serviços prestados à população. Mas, dentro do trabalho de polícia judiciária, uma prioridade é o combate à corrupção.

JC - Trata-se de uma forte reivindicação da própria população. Há um clima de indignação muito grande em relação aos casos de corrupção no País.
Rosseti - Os crimes de colarinho branco, lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos, sem sombra de dúvida, são uma grande prioridade, sem deixar de lado as questões afetas ao tráfico de drogas e crimes ambientais.

JC - Quais são os mecanismos de que a PF dispõe, hoje, e quais novas estratégias podem ser lançadas para combater a corrupção?
Rosseti - A PF continua investindo muito em tecnologia e capacitação de seus servidores, de maneira a otimizar seus trabalhos. São equipes altamente especializadas. Quanto mais sofisticada uma organização criminosa, mais especializadas precisam ser as ferramentas de investigação. Dependendo da situação, ferramentais importantes são a interceptação telefônica, a infiltração de policiais. São recursos diferenciados, mais invasivos em relação à intimidade das pessoas, mas que obedecem a parâmetros preestabelecidos.

JC - O recurso da delação premiada, amplamente utilizado na Operação Lava Jato, deve se tornar uma ferramenta institucionalizada para desarticular organizações criminosas?
Rosseti - Em se tratando de crimes de corrupção de agentes públicos, a delação é uma ferramenta imprescindível de investigação. A Operação Lava Jato está demonstrando que, sem este recurso, seria muito difícil chegar aos resultados que foram alcançados. É um caso emblemático, um divisor de águas em relação ao uso da delação premiada como instrumento de prova.

JC - Trata-se de um recurso controverso, cuja legitimidade é bastante contestada por alguns setores do Direito.
Rosseti - Existe esta controvérsia no Brasil, mas é uma ferramenta que veio para ficar. Nos países que tiveram problemas mais sérios com o crime organizado, como Estados Unidos e Itália, a delação é amplamente utilizada, com muito sucesso. No Brasil, é algo relativamente novo, embora já haja uma regulamentação. Mas é um mecanismo que vai sofrer adaptações e limitações por parte da Justiça. É um caminho natural.

JC - O senhor avalia que a corrupção no País chegou a um patamar sem precedentes ou os casos ficaram mais expostos nos últimos anos?
Rosseti - É difícil saber se a corrupção aumentou ou se está mais exposta pelos processos criminais e pela atuação dos órgãos de investigação. Mas, com certeza, há uma mudança de paradigma no Brasil em relação à corrupção. O País está mudando para melhor neste sentido, com base no trabalho das instituições: polícia, Ministério Público, Justiça e a própria sociedade civil, que está muito engajada.  

JC - A mudança que o senhor cita está relacionada ao maior grau de autonomia da PF e de outros órgãos para investigar?
Rosseti - Temos autonomia absoluta e independência nas nossas investigações e na atuação institucional.

JC - O seu antecessor, Roberto Troncon, defendia a transformação da PF em uma autarquia, inclusive com orçamento próprio, para evitar interferências políticas? Esta também é uma bandeira da atual gestão?
Rosseti - A transformação em agência ou autarquia é algo que pode ser discutido, mas, mesmo com o atual formato, temos autonomia e independência absoluta em nosso trabalho. Da mesma forma, a autonomia em termos orçamentários seria interessante para a instituição, mas, apesar de todo o quadro, temos tido condições de trabalhar. Porém, não quer dizer que não possam ser estudadas e avaliadas alterações, para que a instituição siga seu caminho natural de aperfeiçoamento. E isso pode ser fortalecido com ferramentas específicas, como uma lei orgânica, independentemente da vestimenta que isso traga à instituição.

JC - Como o senhor avalia o papel da delegacia da PF em Bauru no cenário paulista?
Rosseti - Bauru é uma delegacia estratégica para a superintendência, não apenas por sua posição geográfica, por estar no centro do Estado, em um grande entroncamento rodoviário e ferroviário, e por ter um aeroporto, mas também pela própria importância da cidade e da macrorregião. A delegacia de Bauru é uma prioridade, sem sombra de dúvidas, para a nossa administração.

JC - Qual é a marca que o senhor deseja imprimir em sua gestão?
Rosseti - Espero conseguir fazer uma gestão de valorização do nosso componente humano, que é o que temos de mais alto valor dentro da PF, além de contribuir para o avanço da instituição, com eficiência nos seus trabalhos.

Quem é

Nascido em Campo Grande (MS), Disney Rossetti morou em Bauru entre 1980 e 1986, ainda durante a infância. Bacharel em direito pela Universidade Federal Fluminense, é pós-graduado em gestão de segurança pública pela Academia Nacional de Polícia, em ciências criminais pela Universidade do Sul de Santa Catarina e mestre em direito e políticas públicas pelo Centro Universitário de Brasília.

Ex-delegado da Polícia Civil em Minas Gerais, Rosseti ingressou na PF em 1999. De 2008 a 2015, passou por setores estratégicos da instituição, tornando-se superintendente regional da Polícia Federal no Distrito Federal, diretor da Academia Nacional de Polícia, coordenador-geral do Centro Integrado de Inteligência Policial e Análise Estratégica da Diretoria de Inteligência Policial, e adido policial na Itália.

Em setembro de 2015, assumiu a Superintendência Regional da Polícia Federal em São Paulo.