08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Água como Direito Humano Universal

Alunos integrantes do Movimento Estudantil - Livre e Popular da USC, em 20
| Tempo de leitura: 3 min

Em 2010 a ONU declarou a água limpa e segura e o saneamento um direito humano essencial para gozar plenamente a vida e todos os outros direitos humanos. Constatou-se que cerca de 884 milhões de pessoas não tinham acesso à água potável no mundo, embora o mundo tivesse recursos hídricos suficientes para suprir tal demanda. A questão do abastecimento de água vem ganhando espaço e acentuou-se nas últimas semanas devido aos problemas com a Estação de Tratamento de Água de Bauru. A palavra mais falada pelos políticos, blogueiros, autoridades e parte da população foi “planejamento”.


Colocamos as seguintes questões à população de Bauru: a escassez hídrica é produzida por mudanças ambientais (estiagem, secas, chuvas etc) ou é uma consequência de um modelo social politicamente construído? Como esse modelo social confronta o direito humano à água e ao esgotamento sanitário? De que forma o sucateamento do DAE se relaciona com a intenção de privatizar o serviço de abastecimento, que passará a se orientar pela produção de lucro e não pela segurança do fornecimento de água? Que concepções as empresas privadas que exploram a água e o esgotamento sanitário defendem (usos prioritários: pessoal e doméstico ou agroindustrial; água como direito ou água como mercadoria)?


As calamidades hídricas, e aí incluímos a recente crise de abastecimento, não são de origem tecnológica ou ausência de conhecimento científico no know-row do DAE, mas tem sua origem nos processos sócio políticos e econômicos que integram a dinâmica de nossa cidade. O tão falado “planejamento” é apenas uma peça do quebra-cabeça. A população precisa saber que as infraestruturas da produção de água para o abastecimento não são apenas artefatos técnicos, peças de metal, caixas de água, tubulações etc, mas sim uma estrutura de organizações, instituições e interesses políticos complexos que vão determinar a instalação, operação e aproveitamento das primeiras.


Engana-se, portanto, quem acredita que a suspensão do Carnaval municipal e destinação de seus recursos irá atenuar os problemas de abastecimento em nossa cidade. Uma rápida lida no Plano Diretor de Água e a honesta observância dos valores necessários para pôr em ação as obras ali previstas já desmistifica essa falsa tese levantada por alguns setores da sociedade.


A população deve cobrar o cumprimento de todos seus direitos. A população não pode abraçar o discurso de quem paga 200 reais na mesa da festa de carnaval de algum clube social de luxo e prega o fim do carnaval municipal. Não pode abraçar o discurso de quem paga para ir a São Paulo assistir os shows no CredCard Hall e pede o fim da Semana do Hip-Hop de Bauru. É fácil criticar a construção da pista de skate quando se pode ir escalar os Alpes franceses. A pauta deve ser outra. Deve-se exigir a água e também exigir diversão e entretenimento para o povo. Deve-se exigir a água e também exigir aparelhos de esporte e lazer para o povo. Deve-se exigir a água e também exigir a Arte.


A população tem o direito ao pão e à poesia. Como diria a banda de rock Titãs: “... a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte (...)”.  E se a supra citada estrutura de organizações, instituições e interesses políticos não proveem  esses direitos, a população tem o direito de colocá-las por água abaixo.