08 de julho de 2026
Articulistas

Um terço para...

Nélson Itaberá Gonçalves
| Tempo de leitura: 2 min

Quando menino, na pequena Itaberá (Pedra brilhante), mamãe Maria cobrava sempre que andasse com um terço à mão. Aliás, cresci ouvindo a pureza de tia Ana se gabando de que sempre ganhou um terço em suas andanças. Eis aqui um testemunho fiel de uma serva que sabe rezar!

Na paróquia da Matriz, ainda em Itaberá, padre Miguel Beltrame pedia aos catequistas que ensinassem aos pequenos fiéis a usar o terço como “modus operandi”. Afinal, para aprender a rezar era preciso ser sentinela da “Boa nova” e praticar o manuseio da novena...

Desde cedo, o pároco, sabiamente, tinha perfeita consciência de que rebanho não cresce se não andar em dia com as obrigações do “terço”. E assim foi.    

A dureza da semântica agora, adulto, lembrar que, perto dali, entre as rezadeiras do Cambará, um bairro da cidade natal, terço também era reza serrada e não tinha absolutamente nada a ver com o que restou não apurado na Lista de Furnas. Pra quem não sabe, um dos principais entroncamentos da estatal de energia que serviu de cabide a empregos e contratos nesse País tem seu linhão principal aos fundos do Cambará.

Mas isso, reconheço, é devaneio de jornalista impertinente. Ocorre que o tempo tarda, mas não falha em ensinar mais e mais verbetes, ainda que sejam a partir da apropriação de variáveis semânticas pelas peripécias do poder. Eis que, anos depois, terço passou a não ser mais praticado como pelas rezadeiras.

Nas relações entre lobistas, atravessadores, oportunistas e chupins da República, terço passou a ser dogma. E, ainda ontem, li em um trecho de mais um dos inúmeros depoimentos do alcorão da malandragem em ‘terra brasilis’ que no enredo de nosso “Nome da Rosa”, o veneno que contamina as “folhas verdes” e os contratos sujos de petróleo tem como senha elementar a satanização do “um terço para”... Perdoe o empréstimo do eco, Umberto. 

Um filminho em preto e branco, que é de dar caguira em Amácio Mazzaroppi e em todos os brasileiros honestos, que, passivamente, como a caricatura do Jeca, não têm mais entre seus dedos terço algum, nem para a reza... Mas esperemos, porque essa folia de pedir “terços” de tudo não se acaba, infelizmente, após a terça de carnaval!

O autor é jornalista do Jornal da Cidade, TV Câmara Bauru e compositor