08 de julho de 2026
Articulistas

Vícios

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Independentemente do vício, o dependente necessita de integral assistência. Amparo psicológico e comportamental também imprescindíveis são para melhoria no tratamento. Assunto social, cujas causas e consequências, todos conhecemos. Atirar pedras contra esta vidraça, desnecessário. Afinal, o dedo moralista acusador, aliado à fala preconceituosa, combustão torna-se para polêmicas.


Trabalho com jovens há tempos. Embora nos surpreendam constantemente, conheço suas buscas. Os esforços medidos e desmedidos para realizarem o breve desejo do vício. Dia desses, recepcionei o desespero de um jovem, intencionando encarar a maldita curiosidade. O caminho, similar a um arco prestes a disparar as flechas ao vento, desconhece o retorno. E, independentemente de as virtudes serem recatadas e os vícios, ousados, partiu para fato. Na fala afoita e gaguejável, inesperada confissão. Desfez-se da tevê. Desligou-se da televisão, ligado estava. Precisava abrir-se a novos canais de comunicação. Para tal, segurava, trêmulo, um ordinário embrulho de curioso volume. O volume de um livro. Primeiras estórias foi com Guimarães Rosa. Pura viagem. De ponto de partida sem ponto de chegada, a iniciativa novamente o visitou. Desta vez, diferente mercadoria. Sob semelhante efeito lúdico, conheceu contos de Monteiro Lobato. Fascinado, meteu o narizinho.


Encantado, abdicou-se de outro pertence para nova concentração literária. Desta vez, deu game over nos jogos, assumindo novo controle. Conheceu Fernando Pessoa. Desassossegadamente ficou. Tantos nós dentro de um eu, que haja prédio para tanto inquilino. Como se não bastasse, deletou-se do computador. Permanecer na plataforma do www o distanciaria de vogais e consoantes literárias. Com Machado de Assis, ficou com olhos de ressaca, tamanha eram as memórias póstumas. Perceptível diferença já se fazia. Frases feitas, verbos de aluguel, dizeres monossilábicos demitidos, por justa causa, eram da sua fala. Também, uma opinião sem informação seria tão vaga quanto uma informação sem opinião. Ainda mais em um país cuja maioria da população faz da memória uma folha de papel. Passar tudo em branco. Ainda mais num país em que a população crédito dá a quem se considera dono da verdade, em vez de ser escravo dela. E pela ideologia da cor, compreender o motivo de o homem nascer do barro, ajudaria a esclarecê-lo o porquê de uma de suas inclinações humanas, a política, não sair da lama.


Diante da politização do filho, os pais, evidentemente, apavorados ficaram. Caso raro na família.Ninguém se lembrava de haver parentes com tamanha inclinação para leitura. Procurado o médico, o diagnóstico revelou surpreendente parecer. Tratava-se de escotomafobia. Medo da cegueira. Aquela capaz de anestesiar mentes e silenciar bocas, tornando os ouvidos inóspitos à fala emancipadora. Pior, aquela à espera por novidades, fazendo tudo sempre e obedientemente igual. A mesma a projetar na retina a rotina. Por isso, a busca pelo conhecimento. Duvidosa certeza comparecia. Quem estaria viciado?


Diante disso, como desenvolver, fazer um leitor? Amor? Hábito? Nada disso. Prática! Ler é ficar em forma com a lucidez. É exercitar o raciocínio. Referenciais! Crianças e jovens aprendem com exemplos. Quantos pais leem, desenham com os filhos? Como exigir o que não oferecem? Depositar comodamente a responsabilidade do incentivo à leitura, à arte para a escola, é negligenciar a imprescindível gestão participativa. Isso mesmo. Um comprometimento bilateral, jamais unilateral. Ou seja, intra e extramuros escolares, o permanente deve permanecer. Reconheçamos trabalhosa iniciativa, entretanto valioso e incomparável investimento proporcionador de satisfatório retorno o é.


Não se trata da quantidade do tempo investido em nossos filhos, mas, sim, da qualidade. Pode ser um parágrafo, um verso. Foi um, foi único. Inesquecivelmente será o melhor aplicativo, desprovido de senha. O aplicativo dedicação. Entre os momentos juntos de leitura, envolvendo fadas. monstros, dragões, magos, você não poderá garantir-lhes que nunca sentirão medo do dragão do medo. Que não passarão desespero pelo monstro da dúvida. Que estarão isentos do mago da ansiedade. Entretanto, de passaporte para a vida adulta, poderemos assegurá-los de que enfrentarão tais dragões e monstros com mais conteúdo, com mais história. Assim, a infância e a adolescência dos nossos filhos terão referencial. E o referencial, como causa ou consequência, fará com que os eduquemos, ou apenas os criemos.


O autor é professor de língua portuguesa de colégios e universidade e colaborador cultural do jornal - alexandrebenegas@gmail.com