Carnaval e demais feriados são mera vagabundagem? Coisa de brasileiro, improdutivo? “Será que esses foliões não enxergam a crise que estamos passando no Brasil?”; “Poxa, por que esses arruaceiros não usam o feriado para estudar ou para fazer umas horas extras no trabalho?”, “É por causa de coisas feito o Carnaval que a cultura e a sociedade brasileiras não vão pra frente!”...
Ou seja, faz parte da ideologia de quem tem cabeça de chefe de escravos da época da Revolução Industrial pensar que feriados, folgas, descanso, artes e lazer de modo geral são inúteis e, alguns extremistas até defendem, deveriam ser abolidos. Coisa de capitalistas tradicionalistas! Porém, o mais estranho nisso tudo é ver gente de esquerda, que se diz de esquerda, caindo nesse discurso sem questioná-lo. Ora, faz parte da história da esquerda as lutas trabalhistas, sindicais; lutas por jornadas de trabalho menores, por mais tempo livre para os operários e trabalhadores de modo geral.
Por isso, no Brasil atual, de salário mínimo ainda desumano e de longas jornadas semanais, só quem, na prática mesmo, nunca enfrentou alguns anos, no mínimo, como “serviços gerais”, batendo cartão em chão de fábrica ou debaixo do sol no campo, 44 horas por semana mais as horas extras obrigadas pelo patrão, só esses é que conseguem acreditar que um feriado para descanso ou lazer, como é o Carnaval, é coisa de vagabundo, coisa de gente desocupada e improdutiva.
E isso tudo é muito curioso, e complexo. Pois, atualmente, até parte do grande empresariado já tem se reinventado. Por exemplo, vemos publicamente o mega-acumulador de capital, Carlos Slim, que é um dos homens mais ricos do mundo, defender que a jornada de trabalho deveria ser diminuída pela metade, coisa de até 20 horas por semana, pois, assim, os trabalhadores terão mais tempo livre para se cuidar e, por isso, a médio e longo prazos, defende Slim, não só a qualidade de vida dos profissionais vai melhorar, mas também a sua produtividade dentro das empresas aumentará.
Enfim, pensar que Carnaval é coisa de gente preguiçosa é, no mínimo, desconsiderar uma multiplicidade de fatores que envolvem esse fenômeno social. Porém, se quem pensa que esses feriados são inúteis é uma pessoa já de direita, com mentalidade escravocrata e produtivista, então não há surpresa nisso; acredito que sempre podemos esperar uma postura antiquada e violenta desse tipo de “conservador”.
Já por outro lado, se quem está atirando pedras nos foliões é alguém de esquerda, acredito que há uma falta de reflexão ideológica e doutrinária aqui, pois apoiar o descanso e o lazer do grande exército proletário não deveria ser uma dúvida para os progressistas, uma vez que tal exército é, historicamente, sempre o mais explorado, inclusive no Brasil atual.
O autor é graduando em filosofia (USC) e mestrando em comunicação pela Unesp.