09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre metralhadoras e triplex: uma crônica de Carnaval

Eugênio Mira - professor universitário
| Tempo de leitura: 3 min

O que a metralhadora do Carnaval e o triplex do Guarujá têm em comum? Pode ser que ambos, guardadas as devidas especificidades, estejam nos planos de alguns foliões mais abastados e com senso musical mais simplista. Mas, tirando essa obviedade, esses dois elementos tão presentes em todas as nossas mídias nos dias que antecederam a festa de momo guardam uma molécula comum: ambos desnudam uma verdade triste sobre nosso país, onde tudo tem dois pesos e duas medidas.


Para quem não é um grande fã de arrocha e música popular, o nome “Metralhadora vingadora” não deve fazer muito sentido, assim como nomes como Wesley Safadão e Cristiano Araújo também não. Mas aí temos uma verdade inconveniente de dar inveja no Al Gore porque, para a grande massa brasileira, esses nomes são mais famosos que qualquer músico da MPB ou roqueiro clássico. Insanidade? Não é loucura, é Brasil. Estranho é que em um país de dimensões continentais, com cultura tão diversa e tão frutífera, as pessoas deem vazão a opiniões tão ácidas e tão preconceituosas sobre o impacto e a qualidade de músicos e músicas populares. Ora, se a função da música é entreter por quatro dias de folia, porque exigir métrica impecável e sonoridade barroca? Música boa não é aquela que anima, faz dançar e faz sucesso?


Outro hit das paradas de Carnaval tem sido o Triplex no Guarujá. Todo mundo sabe quem é o dono, e todo mundo sabe porque ele ganhou o mimo. O Brasil já passou (acredito eu) dessa fase de imaturidade de pai da pátria. O populismo vem perdendo força rápido e isso pode ser um sinal de que a nação está começando a se culpar pelos próprios erros. Dito isso, por que estranhamente existe uma crítica severa e mordaz ao apartamento na praia, e nem uma palavra sobre as merendas desviadas de dentro do palácio do governo paulista? Por que se fala tão pouco da divisão em três partes iguais que o neto do Tancredo exigia sobre a propina da empresa de energia? Aparentemente, para a grande mídia, corrupção é ruim só quando vem do petróleo. Se vier de hidrelétricas limpinhas, tudo bem.


Essa diferença desmascara como somos um país jovem e imaturo, que não respeita sua própria diversidade e identidade, e que ainda vive um triste complexo de inferioridade trazida com nossos avós das tabas e dos porões dos navios negreiros. O hit do Carnaval que arrasta milhões é pior do que a música pop mais sebosa e mal construída feita no exterior. O apartamento na praia do presidente metalúrgico é mais obsceno e corrupto do que o apartamento na Champs-Élysées do príncipe dos sociólogos.


O controle cultural é a forma de dominação mais antiga que se tem notícia, e, quando esse grilhão se rompe, com Safadão no Camarote e Metralhadora no Carnaval, significa que algo saiu do controle. O temor que os políticos não sejam mais aristocratas escolhidos pelo partido e sim mulatos escolhidos pelo povo se alastra pela casa grande, que está na sala ouvindo uma grande festa na Senzala, com o volume alto e muitas risadas. O volume está aumentando, e as risadas se aproximam da janela.


A aristocracia estremece de medo, mas ainda grita para que abaixem o som.