Ninguém com tanta precisão leu e despiu a alma humana como o dramaturgo inglês Willian Shakespeare. Sua obra ímpar tem a singeleza umbilical de revelar do mais nobre e sagrado sentimento humano ao mais profano e devastador desejo do homem. A política é um tema recorrente dentro de um conceito polissêmico devido às múltiplas faces que os personagens de Willian Shakespeare enxergam o poder e suas disputas.
Em sua magistral obra “A tempestade”, as emoções giram em torno de vingança, conspirações, traições e sede, muita sede de poder, e encontramos aqui uma correlação com a contemporaneidade da política Brasileira. Vivemos tempos Shakespearianos na mais íntima decomposição da honradez e da nobreza que deveria ser norte do exercício político. Em “A tempestade” encontramos de forma disforme o velho estigma entre vilão e herói, porém, há uma estreita linha intrigante, onde o herói não é tão herói, como o vilão não é tão vilão. Símbolo de bondade ou símbolo de maldade se misturam, nem toda bondade é boa como nem toda maldade é má. Está sujeito à manipulação que a conduz e os resultados que se atingem. Abordado também contextualmente, verificamos a luta entre concepções civilizatórias e a bestialidade selvageria.
Oportunistas, conspirações, “A tempestade” contrapõe a figura disforme, selvagem, angustiante dos instintos ferinos que habitam o homem, avesso da figura etérea, incorpórea espiritualiza de altas aspirações humanas. Quais dos personagens atuais de nossa política estão correlacionados a esses sentidos? Eduardo Cunha cabe como figura disforme da ética, da moralidade, do comportamento republicano ereto. Sua cruzada de vingança contra aqueles que o despiram de sua hipocrisia tem paralisado e boicotado o Brasil, à custa do agravamento irresponsável da crise pela qual passamos. Vivemos um verdadeiro naufrágio civilizatório como edificação de uma sociedade fecundada em valores mais altruístas. O debate que se tem hoje foge às raias da racionalidade e da coerência, e é feito apaixonadamente selvagem na sua concepção mais bestial.
Temos ainda em a “A tempestade”, de Shakespeare, figuras como agressores, golpes e contra-golpes visando o poder, e virtudes contrapondo as erosões morais de personagens. Em nossa política, também temos os grandes usurpadores da pátria que, cinicamente, utilizam de artifícios do sistema para manterem seus privilégios seculares. Até mesmo golpes são amplamente articulados, e apoiados por monopólios da amoralidade, desvirtuando a vontade soberana do povo. Vivemos uma tragédia política. O esgarçamento do sistema político brasileiro não suporta mais o jogo da promiscuidade e do pragmatismo pervertido na chantagem rasa contra o desenvolvimento do país. A deformidade do mais e do mesmo faz-nos naufragar em mares revoltos, castigando invariavelmente os mais necessitados.
Nem mesmo Willian Shakespeare imaginaria tamanha inspiração para suas peças ao observar nossa política. Entre raios, ventanias e trovões, vivemos a tempestade perfeita de uma comi-tragédia, cheia de vilões e pouquíssimos heróis.
O autor é colaborador de Opinião