10 de julho de 2026
Articulistas

Ausências em retrospectiva

Cinthya Nunes
| Tempo de leitura: 3 min

E então foi Natal e um outro ano de nossas vidas chegou ao final. Para algumas pessoas, mais do que isso, a vida encenou o derradeiro ato, o fechar das cortinas. Todos os anos, quando comemoramos a chegada de um novo ano, de novas promessas e propósitos, eu dedico um tempo a repassar as pessoas que não vivenciarão o ano vindouro. Sei que pode parecer meio fúnebre, mas não o faço com esse propósito; apenas sinto a necessidade de fazê-lo, como se fosse uma silenciosa homenagem.


Ainda que eu saiba que chegadas e partidas fazem parte da nossa misteriosa trajetória por esse mundo, é difícil aceitar as despedidas. Tento não pensar muito nisso, mas todas as vezes nas quais vou até a casa de meus pais, por exemplo, olho para rua na qual eles moram e é como se, em dados instantes, eu estivesse a ver fantasmas. Tenho relances, muitos deles repletos de saudades, nos quais sou capaz de enxergar os vizinhos que conosco partilharam muitos momentos felizes e que já não estão mais nesse plano. De toda forma, sinto como se ainda estivessem, acessíveis através das boas recordações...


Se é difícil nos despedirmos daqueles que se vão após terem vivido uma vida longa, muito mais triste e doloroso quando são partidas repentinas, ocasionadas por doenças, por acidentes ou pela vilania humana. Complicado compreender as razões, os desígnios do Destino e, ao menos para mim, sobretudo acreditar que haja uma razão maior em determinadas perdas. Às vezes penso que o coração humano foi feito do material errado, porque fosse de pedra, deixaria de sofrer, uma vez que as perdas são inevitáveis.


Os anos que a humanidade vai tendo acrescidos a sua história, trazem progresso, novas vidas e entre alegrias e tristezas, vamos escrevendo os roteiros que nos são dados encenar. Nesse espetáculo, sem sabermos de quantos atos somos compostos, resta-nos aproveitar ao máximo cada cena, oferecendo à plateia os nossos melhores sorrisos, nossas melhores personas. Ao final de cada história, felizes aqueles que conseguiram deixar boas lembranças, que deixam saudades, pois são exatamente esses sentimentos que nos darão uma ligeira dose de imortalidade, ainda que restrita aos corações e lembranças daqueles pelos quais fomos queridos.


Ao fim de mais um ano, muito além de desejar que todos nós tenhamos novas chances de fazemos o melhor de nós no ano vindouro, de darmos algum significado ao que chamamos de vida, desejo que seja um ano sem despedidas, sem tantas partidas. Desejo, mesmo que de forma ingênua, que não choremos por outras vidas perdidas em desastres como os de Mariana, que não vejamos agonizar tantos rios, que não nos despeçamos de outras espécies animais, que não lamentemos novas vítimas do crime e da maldade humana. Que 2016 nos renove as esperanças, municie nossos corações com desejos de termos uma vida melhor e de fazer a vida do outro igualmente melhor.


Desejo, de todo coração, que 2016 seja um ano de presenças e não de ausências e que sejamos capazes de guardar conosco o amor daqueles que se foram. Que sejamos capazes de sonhar, de traças novas rotas, porque, seja como for, fazer parte do show ainda é o melhor dos planos...


A autora é colaboradora de Opinião – cinthyanvs@gmail.com