11 de julho de 2026
Bairros

Entre o charme bucólico e alguns riscos oferecidos pela falta de manutenção

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 6 min

Tradição dos primeiros bairros

O almoxarife Jesyel Campos também vive em rua de paralelepípedo. E gosta. Residente da quadra 13 da rua Marcílio Dias, no Parque Boa Vista, região da Vila Seabra, ele acredita que os tijolos de pedra dão um charme especial às ruas. 

“Além disso, as pedras mantêm a tradição dos primeiros bairros da cidade, que receberam os paralelepípedos antes do asfalto. Acho muito bacana manter essa parte histórica”, opina. 

Ainda segundo Jesyel, as ruas cobertas com esse tipo de material são mais “resistentes”, já que os buracos nelas não são tão comuns quanto nas vias asfaltadas. 

 

‘Escondidinha’ no Centro

No movimentado Centro da cidade, algumas vielas sem saída se “escondem” e guardam com elas a lembrança do passado, principalmente da arquitetura da Bauru do passado. 

A Aurélio Arsolini é um desses endereços. Charmosa, a pequena travessa abriga cerca de 12 residências. De paralelepípedo, a via parece uma pequena vila “protegida” no coração da cidade. Foram as ruas do Centro as primeiras a receberem os paralelepípedos (Leia mais sobre a história da pavimentação de Bauru no quadro abaixo).   

 

‘Nem Kombi sobe a ladeira quando chove’

Ruas de paralelepípedos ainda são comuns também na Vila Quaggio, o que não agrada parte dos moradores, de modo especial os que vivem em ladeiras. 

“O tempo estando seco há poucas diferenças entre os blocos de pedra e o asfalto, mas, quando chove, a rua fica lisa e os carros não sobem. Já tentamos subir com uma Kombi aqui e não deu, acredita?”, ressalta Apparecido Quirino, morador da quadra 4 da rua Padre Nóbrega.  

O piso escorregadio não é o único problema sentido pelo morador. Como a maioria dos entrevistados, ele também destaca o mato que cresce entre uma pedra e outra. “A nossa solução foi ajudar a pagar um senhor que passa mata-mato na rua. Tendo em vista tudo isso que apontamos, já pedimos asfalto, mas não tem jeito”, completa a esposa de Apparecido, dona Maria José Bezerra Quirino.  

 

‘Vi o paralelepípedo ser colocado’

As ruas da Vila Formosa, região do Parque Vista Alegre, são quase todas pavimentadas com paralelepípedos. A exceção fica com as principais vias do bairro, que receberam capa asfáltica. Na charmosa e antiga vila vivem alguns moradores que viram as quadras receberem as pedras manualmente. 

Dona Orídia Martins Francisco é uma dessas pessoas. Moradora da quadra 1 da rua Abolição há 51 anos, ela recorda do tempo em que os trabalhadores  transformaram as ruas de terra em paralelepípedos. E isso de maneira artesanal. 

“Eles colocaram bloco por bloco. E foi um trabalho demorado. Entretanto, a manutenção das ruas deixou se ser feita há muito tempo. O mato cresce solto e é difícil para quem tem idade, como eu, ficar limpando. Sem contar que, quando chove, fica liso demais. E essa rua é uma ladeira. Até os carros deslizam, imagine as pessoas a pé. Ainda bem que meu neto me ajuda”, narra. 

 

A ‘maldição’ da Batista de Carvalho

A rua Batista de Carvalho começou a receber asfalto em 1956. Mas não toda ela. Além do famoso calçadão comercial (que ao longo de sete quadras reúne lojas dos mais diversos setores e se destaca no centro comercial da cidade),  a rua Batista de Carvalho abriga parte da história e das lendas de Bauru. 

Umas das lendas urbanas bauruenses está entre as quadras 12 e 15, na Vila Cardia, e diz respeito a uma maldição relacionada à instalação do Cemitério da Saudade. Dizem que o prefeito que  cobrir com asfalto as quadras da Batista entre a avenida Nações Unidas e o Cemitério da Saudade será vítima de uma maldição. O prefeito que que tirar as pedras do caminho do cemitério morrerá. Lenda ou realidade, as quadras nunca receberam asfalto.

A maldição teria começado, de acordo com memorialistas, quando o empresário do ramo hoteleiro João Henrique Dix doou terras de sua propriedade para o município construir um cemitério. 

A inauguração foi realizada em 26 de julho de 1908. No dia seguinte à inauguração, Dix se matou com um tiro no coração, segundo muitos, para ser o primeiro a ser enterrado no lugar. 

Quem acredita?

Questionado em outra ocasião sobre o assunto, o prefeito Rodrigo Agostinho afirmou não temer a lenda. Disse que só não asfaltou aquele trecho porque a prioridade no momento são as ruas de terra.  

A suposta maldição também não tira o sono dos que moram por ali, ao contrário, é motivo de risos.  Há 14 anos na quadra 15 da Batista, Maria Elena Sandri diz conhecer a lenda. “Mas não tenho medo algum. Temos medo é da rua irregular que fica lisa quando chove. Muita gente cai por aqui, principalmente os idosos. O que eu tenho é esperança de que o asfalto chegue”, desabafa.   

 

Os ‘reco-recos’ desapareceram com o tempo

O aposentado Ary Facchini lembra com saudade da época em que os conhecidos “reco-recos”, que faziam a manutenção das ruas de paralelepípedos. Para ele, as vias com esse tipo de calçamento são bonitas e dão um charme especial à cidade, porém, sem a manutenção adequada, o que era para ser bonito acaba virando um transtorno para os moradores. 

“Esse tipo de limpeza pública desapareceu. Agora os moradores precisam se virar para tirar o mato da rua. A grama que cresce a gente até consegue dar um jeito, mas as ruas estão cheias de marolas, ou seja, de altos e baixos. Eu acho os paralelepípedos bonitos, mas como não há manutenção, o melhor é asfaltar essas ruas”, opina o morador da quadra 4 da rua Anhanguera, no Higienópolis. 

O aposentado, que vive há 16 anos no endereço, destaca que a esposa sofreu um acidente há alguns anos na frente de casa. “Ela estava varrendo a calçada, como sempre faz, e a rua afundou por causa de um vazamento de água. Ela ficou presa até a cintura. As ruas da cidade precisam de mais cuidados”, avalia. 

 

Um pouco de história 

Em Bauru, a pavimentação teve origem com os paralelepípedos no dia 1 de agosto de 1924, na gestão do então prefeito capitão José Gomes Duarte. O calçamento teve início na rua Batista de Carvalho, que terminava na rua Antônio Alves.

Na sequência, receberam paralelepípedos as ruas Primeiro de Agosto e Araújo Leite. A pavimentação alcançou uma grande extensão em Bauru. Do Centro, foi para bairros como Vila Falcão e Jardim Bela Vista, entre outros. As travessas da avenida Rodrigues Alves receberam paralelepípedos até a altura da rua 15 de Novembro, sem alcançar a avenida Duque de Caxias.

Foi na década de 1920 que começaram a aparecer os carros motorizados e a areia deu lugar aos paralelepípedos. O solo arenoso de Bauru dificultava o tráfego de veículos, até mesmo de caminhões. E a circulação dos ônibus trouxe mais paralelepípedos para o município. 

Asfalto

O asfalto começou a chegar no início da década de 1940, e começou pela avenida Rodrigues Alves. A rua Rio Branco e a avenida Duque de Caxias foram o segundo grande passo da pavimentação asfáltica em Bauru, em 1952. Em muitos locais, o asfalto foi implantado sobre o paralelepípedo. Para muitos moradores da época, a pavimentação asfáltica era sinônimo de desenvolvimento.