O ministro da Justiça, que permanece no cargo desde que o Partido dos Trabalhadores assumiu o Poder Executivo, no momento em que o ex-presidente Lula passou a ser alvejado pelas primeiras críticas como suspeito de ocultar patrimônio apurado na operação Lava-Jato, sem embargo da função institucional vinculada ao Ministério que ocupa, decidiu exercer o papel de seu advogado, defendendo-o entusiasticamente nos pronunciamentos que faz regularmente a toda a imprensa das suspeitas que pesam sobre ele. O mesmo ardor que alimenta sua atuação como advogado vem demonstrado na defesa contra os ataques dos que divergem da gestão da atual presidente da República.
Durante alguns meses o ministro da Justiça ficou ausente dos holofotes para submeter-se a tratamento de saúde, em S. Paulo. Recuperado da enfermidade, mostrando boa forma e bom aspecto pessoal, sem abandonar a vocação pela oratória, não deixa passar em branco a oportunidade de se manifestar publicamente sobre os valores morais do ex-presidente Lula, fingindo ignorar as inabaláveis indicações que colocaram seu ídolo no centro da roda, certamente convencido de que, realmente, o ex-presidente é a “alma mais honesta do Brasil”, embora essa sátira não possa ser levada a sério porque o cabotinismo marca grande parte de seus discursos. É tamanha sua admiração por Lula que permaneceu em silêncio quando deveria se pronunciar como ministro da Justiça contra a censura que o ex-presidente lhe dirigiu irritado por algumas vezes pelo fato de omitir-se do controle da Polícia Federal a partir do desdobramento das investigações da operação Lava Jato, quando começaram a minar dúvidas de sua lisura, através dos sinais de ser dono de fato de imóvel no litoral e interior paulista, acenando de sua condição de beneficiário para proprietário, quiçá agraciado pela generosidade de amigos.
Era o momento de o ministro da Justiça vir a público explicar que nenhuma autoridade detém o poder de impedir que a polícia judiciária federal e a dos Estados-Membros deixem de instaurar investigações contra qualquer pessoa suspeita de haver praticado ilícito penal. Essa autonomia é interpretada como garantia imanente da polícia judiciária abrir investigação e concluí-la sem a interferência de ninguém. Fosse possível o seu controle da forma como desejou o ex-presidente (que a investigação não chegasse até a ele e família), seria o mesmo que imunizar e separar os poderosos contra sua incursão, com formidável retrocesso ao tempo da zagaia, no qual delegados de polícia de municípios pequenos sofriam a deletéria influência de prefeitos contrariados pelo método de atuação, ao ponto de a história da Polícia Civil lembrar episódios de remoção de alguns de seus pares por influência política.
No entanto, a bajulação prossegue. Na última quarta-feira, o ministro da Justiça concedeu uma longa entrevista a um periódico da imprensa paulistana exclusivamente para defender o ex-presidente das últimas notícias que ampliam as suspeitas sobre fatos penais comprometedores de sua conduta e do filho primogênito, justificando que falava como cidadão e não como ministro, olvidando-se que o cidadão pode ser ministro de Estado, porém, o ministro de Estado não deve se comportar como cidadão porque está adstrito as normas legais que delimitam sua atuação pública (CR. art.87 e Dec.lei 200/67).
O autor é professor universitário, aposentado