10 de julho de 2026
Geral

Em meio a polêmica, costureira fatura com fardas infantis

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Alex Mita
Claudia Falcão confecciona 20 fardas por semana: “Não dou mais conta de fazer tudo sozinha”
Aceituno Jr.
Se dependesse de André, 5 anos, a farda seria seu uniforme diário

Com 16 anos de experiência, a costureira Claudia Falcão nunca tinha vivido nada semelhante. Com enorme demanda de serviços, ela precisou contratar uma profissional para ajudá-la e, agora, planeja terceirizar mão de obra para dar conta de tantos pedidos.

A reviravolta na vida de Claudia – assim como de um número incontável de costureiras em todo o País - foi provocada por uma postagem na Internet, que desencadeou uma polêmica nacional neste mês. A imagem de uma criança fardada e carregando uma algema e um cassetete foi postada no perfil oficial da Polícia Militar de São Paulo nas redes sociais, como parte de uma campanha iniciada recentemente pela Secretaria de Segurança Pública (SSP).

Diante da avalanche de críticas, a corporação excluiu a publicação e, em resposta, muitos pais saíram em defesa da instituição, postando fotos de seus filhos vestidos com os uniformes e legendas do tipo “vai ter criança fardada, sim”. No Facebook, páginas foram criadas em prol da mesma bandeira.

Tantos ânimos aflorados resultaram em muito trabalho – e faturamento – para Claudia. A cada semana, ela tem confeccionado cerca de 20 fardas infantis, número infinitamente maior à produção de dois meses atrás.

“Em dezembro todo, fiz apenas umas oito fardas. Os pedidos aumentaram muito e, nesta semana, tive de contratar uma costureira. Tenho cerca de 50 encomendas para entregar até o início de março”, comemora ela, que projeta terceirizar parte do processo de confecção.

“Vou começar cortar as peças e levar para outras profissionais costurarem. Depois, volta para mim, ponho da embalagem e envio. Não dou mais conta de fazer tudo sozinha porque, agora, tenho que ficar o dia todo atendendo telefone, respondendo mensagens no WhatsApp e Facebook e ainda ir aos Correios”, completa.

Presente

Claudia conta que a maior parte dos pedidos é oriunda do Estado de São Paulo, mas que já recebeu encomendas até mesmo de Pernambuco. “Na maioria dos casos, são filhos de policiais militares que querem o uniforme igual. Mas tem crianças que simplesmente gostam da PM e a mãe acaba nos procurando”, cita.

É o caso do pequeno André, filho da comerciante Cleonice Pereira Namen, 43 anos, que ganhou uma farda de presente no último Natal. A mãe conta que o menino, de 5 anos, sempre foi apaixonado pela corporação.

“No ano passado, o levei para assistir à formatura do Tiro de Guerra e havia uma garotinha fardada. Ele ficou enlouquecido e perguntei no Facebook se alguém sabia onde eu poderia comprar. Foi quando descobri a página da empresa da Claudia (chamada  Deglen)”, lembra.

Desde que a farda ficou pronta, Cleonice conta, o menino mal tira o uniforme do corpo. “Se deixar, ele usa todo dia. Quando lavo, tiro do varal e ele já quer vestir de novo”, revela, aos risos.

Nome bordado

O uniforme produzido por Claudia Falcão custa em torno de R$ 110,00 e conta até mesmo com tarjeta com o nome da criança bordado. E foi a bordadeira, inclusive, quem deu a ideia da produção das fardas infantis. “Isso foi no início de 2015, mas as encomendas eram esporádicas. Em novembro, a mãe de uma criança fez um pedido e minha filha postou a foto da farda no meu Facebook. Foi quando os pedidos começaram a aumentar”, salienta, reforçando que a polêmica gerada pela publicação recente da PM fez a demanda multiplicar.

Sorriso de volta

Para Cleonice Namen, o sorriso que brota no rosto do filho André não tem preço. Em julho do ano passado, o pai do pequeno morreu após sofrer um infarto. “Ele nunca mais foi a mesma criança. Mas, depois que ganhou a farda, passou a sorrir mais. Já foram várias vezes em que ele, uniformizado, atraiu a atenção de policiais. E ele fica ainda mais contente quando consegue interagir com eles”, conta.

PM apoia uso da vestimenta entre crianças

A costureira Claudia Falcão confecciona fardas para crianças de até 12 anos, uma medida de precaução para evitar que os uniformes sejam utilizados para fins ilícitos.

“Dependendo do tamanho da criança. Se couber em um adulto, eu nem faço. É o meu nome que está na etiqueta e não quero me tornar costureira de organização criminosa”, diz, em tom de brincadeira. 

NÃO É VEDADO

Segundo o tenente-coronel Flávio Jun Kitazume, comandante do 4.º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4.º BPM/I), a produção de fardas em tamanhos infantis não é vedada pela corporação justamente por não haver chances de pessoas mal intencionadas utilizarem os uniformes para cometer crimes.

“A instituição apoia esta iniciativa. O uso de fardas por crianças é motivo de orgulho, porque retrata a admiração que elas têm pelo nosso trabalho e é uma forma de os valores defendidos pela Polícia Militar serem transmitidos para as novas gerações”, pontua.